2012 abril at Blog Ayrton Marcondes

Arquivo para abril, 2012

Atitudes de governos

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Acontece que votamos em eleições e elegemos pessoas que se tornam os nossos representantes. Essas pessoas são empossadas, passam a governar e exercem ao limite o poder inerente aos cargos que ocupam. A partir daí estabelece-se a dicotomia entre as decisões dos nossos representantes e aquilo que provavelmente faríamos caso estivéssemos nos lugar deles.

Se você estivesse ontem em Buenos Aires leria nos jornais “La Nacion” e “Clarin” críticas ao governo federal devido à reestatização da YPF. A medida, anunciada com estardalhaço pela presidente Cristina Kirchner, consiste na expropriação de 51% das ações da YPF pertencentes à petroleira espanhola Repsol. A radical atitude do governo argentino, eivada de nacionalismo, enfureceu a Repsol e o governo espanhol que declarou o rompimento das boas relações que sempre manteve com o governo argentino. Já a Repsol exige o pagamento de US$ 10,5 bilhões pelas ações da YPF e acusa o governo argentino de tentar esconder “a crise social e econômica no país”. Do lado argentino declarou-se que tal pagamento não existirá lembrando que a Repsol tem uma dívida de US 9 bilhões.

Briga de cachorro grande. Mas, o povo, o que acha o povo? Exceção feita às críticas dos meios de imprensa o povo parece não achar nada. Na cidade ontem o clima era de perfeita calma e ninguém parecia dar-se conta da gravidade da decisão do governo. Na verdade as pessoas estão preocupadas com a alta do custo de vida e o máximo que se percebe é insatisfação geral com os rumos do atual governo. Um motorista de táxi afirma que o falecido presidente Nestor Kirchner era um bom sujeito, mas a mulher dele… Existe, claro, a imensa facção que apoia o governo e os membros da juventude peronista canalizada no movimento La Cámpora.

Agora a decisão sobre a expropriação depende da aprovação do Senado que é certa dado que dominado por governistas. Por seu turno a Espanha promete represálias e certamente terá o apoio do bloco europeu. Em cidades espanholas surgem insultos a Cristina Kirchner escritos em muros; um bar em Sevilla proibiu a entrada de argentinos.

De todo modo a atitude do governo argentino é reprovável a começar pelo modo com que foi realizada, sem aviso prévio à Repsol.  Mas, na parte que nos importa, trata-se de fato que nos faz refletir sobre as pessoas a quem confiamos a responsabilidade de governar o país em que vivemos. Veja-se o caso do Brasil, país em crescimento e com economia em ascensão no qual a classe política está desgastada e nesse momento treme por receio aos desdobramentos da instalação da CPI envolvendo o bicheiro  Carlinhos Cachoeira. A cada dia novas revelações sobre surgem e existe a possibilidade de que muita gente saia chamuscada caso a CPI seja instalada e prossiga.

Maus ventos, não? 

Quantos filhos?

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Leio nos jornais que cada vez mais homens acima dos 60 anos de idade estão se tornado pais. Em geral trata-se de homens separados anteriormente que iniciaram nova vida com mulheres mais novas. Aliás, casais formados por cinquentões ou sexagenários e mulheres mais novas deixaram de ser surpresa. As revistas femininas com frequência publicam pesquisas perguntando às moças se preferem homens mais jovens ou aqueles “já rodados” que têm mais experiência e, talvez, paciência.

Conheço um homem de 50 anos de idade que se casou há pouco tempo com mulher na faixa dos 30. A premissa é que não teriam filhos, ela dizia
não querer engravidar de jeito nenhum. Sabem como é, corpinho atlético de academia, manter a forma sem nem um grama a mais de gordura etc. Pois aconteceu a esse casal o inesperado: ela engravidou e já trouxe à luz um menino. Ambos estão felizes, mas outro dia o pai novo - que já tem filhos de outro relacionamento - me dizia que quando o menino tiver 15 anos ele terá 65, daí se perguntar como jogará bola com o filho.

Também conheço pessoas que acham barbaridade ter filhos para viverem nesse mundo convulso que está aí. Chegam a falar em irresponsabilidade dado que já existe gente demais no mundo e está na hora dos casais repensarem essa história de por filhos no mundo.

Como se vê, o assunto é palpitante. Espera-se aumento do número de pais em idade mais avançada com filhos recém-nascidos  dada a elevação da expectativa de vida. Hoje em dia a velhice vai ganhando status diferente do que tinha há alguns anos. Quando eu era menino um homem de 50 anos de idade era considerado velho, hoje o encontramos malhando em academias e dando um jeito nos fios de cabelo branco que insistem em aparecer.

Agora, você acha possível um homem ser pai de mais de cinco, dez ou vinte filhos?  Pois se noticia que no Reino Unido um homem pode ser pai de cerca de 600 pessoas. Trata-se de um biólogo, morto em 1972, que era dono de uma clínica de fertilidade. Consta que o tal sujeito fazia uso de seus próprios espermatozoides para fertilizar os óvulos das mulheres que procuravam a clínica para engravidar. Até agora foram realizados testes de DNA em 18 pessoas geradas entre 1943 e 1962 e descobriu-se que dois terços delas são filhos do tal biólogo. Então esse homem de nome Bertold Wiesner pode mesmo ser pai de 600 filhos, já pensou?

A notícia relaciona outros casos como o de um doador americano que gerou ao menos 150 meio-irmãos. Situações de doação de esperma para muitas fertilizações são proibidas porque existe o risco de meio-irmãos se conhecerem ao acaso e se casarem. No Brasil permitem-se duas gestações de sexos diferentes numa área de 1 milhão de habitantes.

O nome do filme estrelado por Rock Hudson, Elizabeth Taylor e James Dean é um ótimo fecho para essa história toda escrita acima:

- Assim caminha a humanidade.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Comer é bom, mas

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Um antigo ditado diz que “nessa vida tudo o que é bom faz mal ou engorda”. Será? O ditado se aplica quando o que está em jogo é a alimentação excessiva.

Que fique bem claro: existem nesse mundo os chamados “bons garfos”. Trata-se de pessoas que não enjeitam nada, não fazem feio em nenhuma mesa. Comer – e muito – é com eles. Note-se que essas pessoas não são necessariamente gordas. Um sujeito aparentado comigo era do tipo: proprietário de apetite voraz devastava o que encontrava pela frente em termos de comida. A sogra dele se queixava muito por ocasião dos almoços em família. Dizia ela que eram necessários pratos em duplicata, pois metade da comida era só para o genro, a outra metade para a família.

Mas, o brasileiro é gordo? A obesidade é um problema nacional? A resposta a essas perguntas está nas mãos do Ministério da Saúde que acaba de publicar dados de uma pesquisa, mostrando que metade da população brasileira tem excesso de peso. Os dados da pesquisa da Vigitel (Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico), do Ministério da Saúde, mostram que 49% da população do país tem excesso de peso, sendo que 15% são obesos. Esses números são superiores aos encontrados na pesquisa anterior, realizada em 2006, fato preocupante. Ainda segundo a pesquisa existem mais homens acima do peso que mulheres - 52,6% de homens e 44,7% de mulheres.

Obviamente, por trás desses números estão os hábitos alimentares da população. Dados da pesquisa apontam como fatores de risco os grandes consumos de refrigerantes, leite integral e carne.

Comer é bom, mas é preciso cuidado e não só com os excessos. Importa, também, a qualidade do que se come, particularmente numa época em que a pressa e a rotina do trabalho obrigam as pessoas a optar pelo fast food.  O consumo de sanduíches, bebidas gasosas, porções de batatas-fritas, muito pão, alimentos gordurosos, massas, doces e as deliciosas beliscadas em toda sorte de alimentos nos intervalos entre as refeições são hábitos que exigem muita vontade para que sejam regulamentados ou mesmo abandonados. Conheço pessoas que não tomam água de jeito nenhum: matam a sede exclusivamente com refrigerantes. E não custa lembrar as pessoas que detestam hortaliças, não podendo nem ouvir falar de saladas.

O parágrafo anterior resume em poucas palavras as vias para o ganho de peso. Mas, não se pode deixar de lado a necessidade de exercícios físicos que tantas vantagens trazem para o organismo, mantendo-o saudável, isso fora os aspectos genéticos inerentes a cada pessoa.

De todo modo os dados sobre aumento do peso dos brasileiros são preocupantes. E mais uma vez a solução está na educação, na conscientização das pessoas para que adotem hábitos alimentares mais saudáveis. A saúde depende da boa alimentação e a restrição de calorias indesejáveis é a medida correta para que sejam evitados sérios distúrbios provocados pelas doenças consequentes aos maus hábitos alimentares.

Educação no trânsito

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Fiquei realmente impressionado no último carnaval quando reparei que a pequena cidade onde eu estava simplesmente não dispunha de vagas de estacionamento em suas ruas. Longas filas de carros parados ocupavam espaços que, durante quase todo ano, permanecem vazios.

O fato é que a melhora da economia e o estímulo ao crédito abriu a possibilidade para a compra de veículos em longo prazo, favorecendo classes sociais que até a pouco tempo utilizavam apenas o transporte público. E deu no que deu porque as cidades continuam as mesmas, com as ruas de sempre, sem acréscimo de espaços para estacionamentos. Isso sem falar nas estradas que apresentam, cada vez mais, trânsito crescente e perigoso.

Hoje de manhã ouvi no noticiário da televisão as velhas considerações sobre os terríveis acidentes que ocorreram no feriado da Semana Santa. Mostraram-se imagens de verdadeiras tragédias, algumas delas com vítimas fatais. Além disso, falou-se sobre os grandes congestionamentos no retorno à capital: a rodovia Fernão Dias chegou a apresentar 54 Km de congestionamento no sentido de retorno a São Paulo. Ainda na manhã de hoje as estradas estavam cheias porque muita gente deixou para retornar pela manhã, tentando evitar os congestionamentos de domingo.

Então que fazer? Qual a solução e que mecanismos devem ser adotados para a redução do número de acidentes? Os comentaristas da televisão culparam o governo, dizendo que nada se faz de concreto para impedir as tragédias que acontecem no trânsito. Reclamaram da falta de educação dos motoristas e da impunidade em relação aos responsáveis por acidentes. Um deles lembrou que no trânsito o maior é sempre responsável pelo menor, o caminhão pelo carro, o carro pelas motos e bicicletas e, no fim da linha, todos têm responsabilidade sobre os pedestres.

Bem, sabemos disso, mas, infelizmente, as coisas continuam no mesmo pé, ou seja, mal. O que salta aos olhos é, de fato, essa situação de cada um por si, pouco havendo de parceria entre os motoristas. No fundo o que falta é mesmo educação, respeito pelo semelhante e, principalmente, amor à vida alheia.

Há quem considere o problema insolúvel.  Mas, afinal a educação para o trânsito, a conscientização pode levar a algum resultado positivo? Sinceramente, eu não acreditava muito nessa hipótese até que, ano passado, fui à Austrália. Aluguei um carro na região de Sidney e fiquei espantado com a ordem do trânsito. Se você dá seta que vai mudar de mão, para a esquerda ou para a direita, o carro que está nessas mãos reduz a velocidade para que você possa entrar. Não há essa correria absurda nas estradas e percebe-se ordem no trânsito. Imagine que parei numa entrada para uma via de movimento, isso com sinal aberto para mim. Obviamente errei por desconhecer o lugar, mas o fato é que se formou atrás de mim uma fila de carros que esperou que eu fosse em frente. Não ouvi uma buzina, nada. Ninguém me xingou, minha mãe pode continuar em paz sem receber os insultos tão comuns em nossas cidades.

Então, se o número de carros continua a aumentar e se o trânsito está cada vez pior o que  os resta é insistir na educação, na conscientização dos motoristas. Grandes investimentos em campanhas publicitárias e punição dos maus motoristas são os meios à mão para que o número de acidentes seja reduzido.

Um homem sem profissão

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Paro o carro para abastecer e encontro um homem que mora no mesmo prédio que eu. É um sujeito de meia idade que usa um brinco de argola na orelha direita. Ele está de bicicleta e mostra-se efusivo com os frentistas do posto e comigo. Brinca com todos, provoca um dos frentistas e recomenda que me atendam bem porque sou amigo dele.

Pergunto ao homem por onde anda já que não o tenho visto ultimamente. Ele me explica que está sem tempo, atualmente trabalha numa grande construtora na área de projetos. O trabalho é tudo para ele, gosta de ser útil, ajudar a construir e melhorar o mundo.

Depois de alguns minutos o homem parte. Pergunto a um dos frentistas, a quem conheço bem, se sabe o que o sujeito está fazendo no momento. O frentista sorri e responde:

- O senhor não o ouviu dizer que está numa construtora, fazendo projetos?

- Mas,…

Não termino a frase porque o frentista sorri com jeito de que o melhor é deixar pra lá.

O problema é que a cada vez que encontro com o homem que mora no meu prédio ele relata que está trabalhando em algo muito importante, mas sempre diferente do que fazia anteriormente. Essa história começou há alguns anos quando ele me falava sobre o cansaço decorrente da afinação de instrumentos musicais. Na época ele  não só afinava como consertava instrumentos como guitarras, pianos etc. Aliás, dizia-se músico tendo abandonado a participação dele numa banda da qual era o líder.

Noutra ocasião eis que o homem havia mudado de ramo: abrira uma loja no centro da cidade onde comercializava vários produtos destinados às casas. Mas, ao que me parece isso não durou porque, tempos depois ele passou a consertar computadores. Nessa ocasião, quando eu o encontrei, disse-me que era especializado em redes sem fio e aparelhos de transmissão à distância, incluindo-se aí a área de telefonia.

Há algum tempo eu o encontrei no elevador e soube que estava trabalhando como eletricista, destacando-se a tarefa de montagem de quadros de luz para residências. Quando estranhei mais essa aptidão ele me disse que era eletricista diplomado, com certificados obtidos em vários cursos e assim por diante.

Certa vez parei num posto de gasolina para abastecer e fui atendido por um frentista que era, nada mais, nada menos, o homem de quem falo. Também o vi mais amiúde durante os meses em que cuidou da mãe idosa que veio a falecer.

Não sei bem o que dizer sobre isso tudo. Há quem ouça uma história dessas e diga que o homem mente, simplesmente. Embora isso de fato seja possível, tenho lá as minhas dúvidas sobre tudo o que ele diz. Mas, confesso que me atrai a estranha liberdade desse homem nas idas e vindas que proporcionam a ele tantas realizações, ainda que possam ser imaginárias.

Fico pensando no que ele me dirá sobre suas atividades na próxima vez que o encontrar. Trabalhando com mísseis, energia atômica ou o quê?

Escrito por Ayrton Marcondes

7 abril, 2012 às 6:45 pm

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Os descartáveis

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Não sei não, desconfio muito, acho essa coisa toda muito complicada para que eu me acostume. Eu tive um Corcel II, carro cuja lataria era muito resistente. Fiquei com esse carro bem por uns cinco anos. Pouco antes de me desfazer dele não pude evitar uma colisão de trânsito com um carro novinho em folha dirigido por uma senhora. Batida pequena. A lataria do carro da mulher afundou como se tivesse colidido com uma parede; a do meu carro permaneceu quase intacta.

Todo mundo sabe que lataria dos carros atuais é tremendamente frágil. Coisa descartável porque, em caso de colisão, troca-se a parte que bateu. Tudo volta a ficar como antes, o seguro paga o conserto e estamos conversados.

Você já parou para pensar sobre a durabilidade dos eletrodomésticos?  Para ficar num só exemplo, os liquidificadores duravam décadas. Hoje em dia o liquidificador dura muito menos e, caso apresente problemas, o mais fácil é comprar um novo porque o preço do conserto muitas vezes se iguala ao do a ser pago para restaurar o antigo. E assim acontece com muitas outras coisas que temos em nossas casas: quando deixam de funcionar, quase sempre precocemente, fica mais fácil substitui-las por novas.  Verdade que para isso contribuem muito as atuais facilidades de compra pela internet onde pululam sites com toda sorte de produtos. Tentação permanente para as donas de casa sempre afeitas a modernidades que facilitem o dia-a-dia das famílias.

Bem, aconteceu de o meu liquidificador quebrar. A primeira ideia foi substitui-lo por um novo, novinho em folha, comprado em vezes pela internet. Minha mulher até chegou a escolher um que, conforme o anúncio, fazia isso e mais aquilo. Mas, resisti à tentação. Não sou chegado ao amor a coisas, mas de algum modo me senti traindo um velho serviçal, companheiro de tantas manhãs, inúmeros sucos etc.

Em assim sendo decidi consertar o velho. Inutilmente a minha mulher ponderou que não valia a pena consertar, mais fácil e rápido comprar um novo que, além do mais, era mais potente etc. Mas, fui tomado por um estranho sentimento de revolta contra essa era das coisas descartáveis e acabei levando o liquidificador para consertar. Uma semana depois eu o trouxe de volta, limpinho, ajustado, prontinho para ser usado. Minha mulher não disse nada enquanto eu orgulhosamente observava o meu velho liquidificador.

Acho que foi no quarto dia. Eu me sentara para o café da manhã e o liquidificador fazia a sua parte, batendo o suco. De repente ouvi um som de motor falhando. Era ele. Posso dizer que o velho liquidificador lutou até o fim. Engasgou-se, voltou a funcionar, falhou e finalmente parou para sempre.

Minha mulher não disse nada, nem eu. Agora está lá na cozinha um novo liquidificador, muito silencioso quando em funcionamento, do qual se diz que é capaz de triturar mesmo as coisas mais duras. Confesso que ainda não me acostumei a ele porque me faz lembrar o outro, velho e cansado, que atingira o seu limite de bater sucos.

A vida é assim: uns param porque se cansam de bater sucos, outros engripam e não saem do lugar, outros, como as pessoas, simplesmente morrem. Tudo descartável.

Ritmo de Páscoa

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Um menino pergunta a outro porque a Ilha de Páscoa tem esse nome. O outro pensa um pouco e diz que não sabe. O da pergunta explica que é porque todo dia do ano tem festa de ovos na Ilha. Ao que o outro pergunta se todo dia a festa acontece só com ovos de chocolate. A resposta do primeiro menino é direta:

- Nem todos são de chocolate porque lá tem umas aves grandes que põem ovos enormes.

Deixo os meninos conversando e avanço pelo corredor estreito. Sou obrigado a parar porque dou de cara com uma mulher gorda que carrega uma opulenta cesta cheia de ovinhos. Ela festeja muito o encontro comigo e me dá um dos ovos da cesta. Agradeço e me aperto todo na parede para dar passagem a ela que segue feliz, dando ovos de presente aos colegas de trabalho que encontra.

Fico olhando a mulher que carrega a cesta de ovos e invejo a alegria dela. Ela está inteirada de Páscoa, entrou no ritmo da Páscoa. Só então reparo que, nesta quinta-feira que antecede o dia da Paixão, as pessoas estão felizes. As pessoas com quem cruzo devolvem os meus sisudos cumprimentos com sorrisos largos de quem acaba de recuperar para si parte da bondade do mundo. De um instante para outro a proximidade da Páscoa interrompe o ciclo absurdo de contradições da vida e recoloca o trem nos eixos, fazendo brotar nos corações sentimentos antes tolhidos de urbanidade.

Mas, essa gratidão geral ao fato de estar vivo nesse momento e apto ao congraçamento irrita um pouco. O fato é que se torna impossível apagar com boa borracha o passado e fingir que a roda da vida está girando em ordem justamente nesse hiato de pouco dias. Afinal, não foi exatamente essa senhora gorda que agora está aí a distribuir ovinhos quem, dias atrás, ferrou uma colega de trabalho levando-a ser demitida? E aquele senhor, tão sorridente e expansivo, não foi ele justamente que…?

Senhoras e senhores é preciso esquecer tudo porque, afinal está-se em ritmo de Páscoa. No próximo domingo as famílias se reunirão para o tradicional almoço e tudo correrá de acordo com o previsto. A felicidade durará até a segunda-feira quando a Páscoa deste ano terá se tornado passado. Então o mundo reentrará nos eixos das coordenadas habituais: a gorda terá substituído os ovinhos de sua cesta pelos dardos com que no restante do ano alfineta os seus colegas de trabalho, aquele senhor deixará de ser expansivo, não mais sorrirá e…

Escrito por Ayrton Marcondes

5 abril, 2012 às 4:12 pm

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Cultura Geral

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Você sabe o nome da atriz que interpretou a personagem “Pereirão” na última novela exibida pela Rede Globo? O nome da música cantada por Michel Teló e dançada pelo craque Cristiano Ronaldo do Real Madri? A frase que deixou a personagem “Valéria” famosa no programa “Zorra Total”? Sabe ou não? Caso saiba responder a essas perguntas estará apto a trabalhar como gari na prefeitura de Cambé, cidade do interior do Paraná.

As perguntas acima fizeram parte das questões de uma prova de seleção para o cargo de gari. A prova foi elaborada pela UTFPR (Universidade Tecnológica Federal do Paraná) e despertou críticas por testar o conhecimento de candidatos a respeito de programas de televisão e cantores populares. Houve quem afirmasse ser histórico no Brasil achar que pessoas pobres não tem capacidade intelectual. O presidente do sindicato dos servidores públicos municipais de Cambé afirmou que uma prova assim, vinda de uma universidade, é de assustar. Mas, a universidade se defendeu dizendo que as questões sobre emissoras televisivas foram geradas a partir de reportagens publicadas pela revista “Veja”.

O fato, naturalmente polêmico, me fez lembrar outra prova, tornada obrigatória para que funcionários do setor agropecuário do governo continuassem em seus empregos. Essa medida, ocorrida a muitos e muitos anos e aparentemente simples, causou verdadeiro transe na vida de muita gente, alguns deles incultos, outros analfabetos que mal e mal conseguiam assinar o próprio nome. Na ocasião acompanhei o sofrimento de homens habituados ao duro trabalho junto à lavoura - operadores de máquinas, lavradores, etc. – que a todo transe aplicaram-se a vencer a terrível barreira a eles imposta. De um deles me recordo em particular porque o conhecia a tentei ajudá-lo a pelo menos entender como deveria ele preencher os espaços dos testes de múltipla escolha, ele que lia muito mal e escrevia menos ainda.

Nunca cheguei a saber como as coisas se passaram durante a prova, se os funcionários foram ou não ajudados na travessia. O certo é que, ao que me lembro, ninguém perdeu o emprego dai eu ter me perguntado, na época, sobre a eficácia da medida oficial. Afirmo isso por que, a bem da verdade, naquele caso específico, pouca gente teria conseguido realizar a prova que a eles foi imposta.

Mas, os tempos são outros e há que se concordar com a polêmica gerada pela prova aplicada aos candidatos a gari em Cambé. Certamente as questões que recebem críticas são inadequadas, sendo válido perguntar sobre as pretensões últimas dos preparadores da prova. Afinal, que pretendiam eles avaliar? A cultura televisiva e musical dos candidatos ou algum tipo de preparo para o cargo que viriam a ocupar caso fossem aprovados?

Depois dizem que o Brasil é assim.

Os Nogueiras

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Não tenho notícias recentes dos Nogueiras. O último deles a quem encontrei foi por puro acaso, num ônibus em São Paulo. Eu acabara de tomar um coletivo na Praça João Mendes em direção à Vila Mariana. Naquela época estava morando em casa de uns tios a quem tinha dito que ficaria por poucos dias até me arranjar na cidade grande. Os poucos dias viraram quatro anos, bem vividos na excelente companhia deles, ótimas pessoas hoje já mortas. Aconteceu que, decorrido um mês desde a minha chegada, avisei ao meu tio que sairia da casa dele na manhã seguinte. Meu tido sabia muito bem que eu ainda não tinha para onde ir daí ter-se oposto à minha saída. Opôs-se com tanto ímpeto que fui ficando, ficando. Não foi simples me mudar da casa de meus tios que, mesmo após os quatro anos, insistiram muito para que eu continuasse com eles.

Mas, ao Nogueira do ônibus. Quando chegamos ao ponto onde eu desceria, o motorista do olhou-me e perguntou:

- Não está me reconhecendo?

Só então observei melhor o negro esguio que dirigia o ônibus. Era o Antenor, irmão do Policarpo, da Anastácia. Eu o conhecia desde os meus tempos de menino, assim como a seus pais e irmãos. Trabalharam eles numa fazenda que pertenceu ao meu avô, herdada pelo meu pai que nunca soube como administrá-la daí tê-la vendido. Mas, de algum modo as nossas vidas ficaram ligadas ao Antenor e sua família, pessoas que sempre tivemos como gente nossa, aparentados. Encontrar o Antenor que vi crescer na roça, agora vivendo na cidade grande, deixou-me feliz. Mas, o ônibus devia seguir em frente, de modo que me despedi e desci no ponto próximo à minha casa.

Depois disso ouvi falar sobre a gente Nogueira algumas vezes. Soube que, depois da morte dos pais, os filhos deixaram a fazenda e foram viver em cidades. Não sei se todos vieram para São Paulo, como aconteceu ao Antenor. Em todo caso, depois do encontro casual com o Antenor nunca mais os vi.

Escrevo sobre a gente Nogueira porque encontrei numa gaveta de casa uma fotografia na qual o Antenor e o Policarpo aparecem. É uma foto em preto-e-branco, bastante desgastada e não sei como veio até mim, provavelmente em meio a papéis que pertenceram a meus pais.

Olhar para essa fotografia fez-me voltar ao passado, às longas viagens de charrete por estradas de terra até a fazenda, levado pelos meus pais. Aquelas pessoas já não existem e o mundo em que viveram se desfez por completo, substituído que foi por essa urgência arrogante que nos rouba tempo e atenção, sepultando em velhas fotografias parte daquilo que fomos e tão raramente nos lembramos.

Quanta saudade!

Escrito por Ayrton Marcondes

3 abril, 2012 às 4:01 pm

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Postado em Cotidiano

Domingo de Ramos

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Fui criado num meio em que todos os símbolos da crença católica eram valorizados. Isso ainda acontece nas cidades do Brasil, embora já não se tenha tanta certeza na fé do povo.

Das celebrações da Igreja Católica, a do Domingo de Ramos é das mais marcantes. Nas missas celebradas nesse domingo os fiéis têm seus ramos – folhas de palmeiras ou outras plantas – bentas pelo sacerdote. Depois os ramos bentos são levados para as casas onde permanecem como uma espécie de amuleto.

Mas, o que se comemora neste domingo? Festeja-se a entrada triunfal de Jesus em Jerusalém. Essa comemoração precede os rituais da Semana Santa. Aliás, disso eu não sabia em meus tempos de menino, quando ia com minha mãe à missa do Domingo de Ramos.

Desses domingos ficaram-me os rituais: a escolha das folhagens, a ida à missa, a benção dos ramos e, depois, o ato de guardá-los em casa. Ficavam em alguma gaveta, muitas vezes esquecidos, até que a possibilidade de alguma desgraça surgisse. Então minha mãe recorria aos ramos que funcionavam como anteparo contra algo de mau que poderia acontecer.

Ficou-me desse tempo a ligação entre os ramos bentos e as tempestades. Quando o céu se carregava de nuvens negras e o dia parecia transformar-se numa noite, quando trovões e raios anunciavam as grandes tempestades, então era hora de se apelar para os ramos. Cobriam-se espelhos com panos e queimavam-se alguns ramos, forma de rogar proteção contra os perigos da chuva.

Não sei se ainda é assim por esses interiores do Brasil. Há muitos anos deixei de ir à missa do Domingo de Ramos e já não me inquieto com as tempestades. Entretanto, hoje vi uma senhora na calçada, provavelmente vinda de uma missa. Trazia na mão um chumaço de ramos. Ao vê-la pude tornar ao menino que fui e crer na proteção dos ramos. Mas, continuei o meu caminho e logo a imagem da mulher e dos ramos cedeu lugar à confusão, ao barulho das buzinas cobrando a um guarda que deixasse o trânsito fluir na rua onde estávamos.

Escrito por Ayrton Marcondes

1 abril, 2012 às 11:20 pm

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