2019 setembro at Blog Ayrton Marcondes

Arquivo para setembro, 2019

Primavera

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Do que mais se fala? Da morte. Na mídia, articulistas abordam o assunto. Nas primeiras páginas notícias sobre mortes ganham destaque. Mas, que tipo de mortes? Afinal, do que mais se morre hoje em dia?

Morre-se de todo jeito, como sempre. Mas, o que ganha espaço no noticiário são as mortes devidas à violência. No Paraná um ex-marido vinga-se da mulher que não quis reatar com ele. Para isso sequestra o próprio filho e o leva numa viagem sem volta. Mete-se numa rodovia e joga o carro que dirige numa carreta. Pai e filho morrem. A promessa de morrer, levando consigo um pedaço da mulher, está cumprida. Resta a dor.

No Rio a tragédia envolve a menina Ágatha. Ela tem oito anos. É atingida por bala perdida. Levada ao hospital, não resiste. Em torno desse assassinato levanta-se a opinião. Protestos surgem de toda parte. A morte inaceitável gera, mais ainda, desconforto e medo às famílias. Hoje Ágatha, amanhã não poderá ser o meu filho?

Em meio ao sofrimento e discussões a primavera chega devagarinho às nossas casas. Veio mansinha, chegou ao alvorecer, sem ruído, quieta, sem estardalhaço. Abriu-se numa manhã chuvosa em que mesmo os pássaros talvez tenham decidido a se recolher.

Na rua em vão procurei por sinais da primavera. Onde as flores? Onde a alegria da nova estação que começa? Teria o mundo se congelado numa cena interminável de inverno?

Mas, eis que nem tudo está perdido. No sinal de trânsito, aí está a velhinha com um cesto de flores a oferecê-las aos sisudos motoristas. De repente, o milagre: flores na manhã cinzenta, trazidas por um anjo a nos lembrar que é primavera e a vida prossegue.

À hora do almoço imagens do enterro de Ágatha na TV. Flores sobre o pequeno caixão. Tributo a uma criança tão cedo levada pela morte. Muito triste.

E dizer que já é primavera.

A face

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Lembro-me sempre de Gregory Peck. Era, nas telas, o tipo de herói ideal. Inesquecível sua atuação como advogado em “O Sol é para todos” no qual defendia um negro acusado de estupro.

O cinema preserva imagens. Assim Gregory Peck sempre será lembrado em seu aspecto de jovem ou já na maturidade, homem alto, feições fortes e bem definidas. Mas, fora das telas Peck envelheceu como outros mortais. Observar a face do ator envelhecido nos traz o desconforto da constatação de que mesmo aqueles que tínhamos como heróis, os mais fortes, também eles sucumbem. É a lei da vida, a imposição da natureza, nada escapa a isso.

A cada manhã nos vemos no espelho ao cuidar da higiene pessoal. As muitas faces que tivemos sucedem-se, quase imperceptivelmente. Muitas vezes não nos damos conta de que, dia após dia, passo a passo, a juventude se desconstrói e a velhice se impõe. Mas, há um momento em que se torna impossível fugir à constatação do envelhecimento. É quando a face que o espelho nos devolve apresenta-se tão mudada e já não há como enganar-se a respeito.

Narciso era belo e as ninfas apaixonavam-se por ele que as rejeitava. O adivinho Tirésias dissera à mãe de Narciso que ele jamais poderia ver seu reflexo pois isso seria sua ruína. Eco, ninfa apaixonada por Narciso e também rejeitada, entristeceu-se e definhou. Dela se apiedou a deusa Nêmeses que puniu Narciso, fazendo-o ver o próprio reflexo. Então o jovem enamorou-se de si mesmo, sentou-se à beira do rio, observando-se e definhou.

Tudo passa. Seres humanos passam. Juventude e velhice compõe um quadro sombrio quando de comparam as duas fases da vida. Na internet é comum a publicação de fotos de pessoas famosas, comparando-as em sua juventude e em tempo atual. Envelheceram. Perderam a jovialidade e beleza. Aquela linda mulher de formas tão perfeitas como terá ela se transformado nessa senhora que em quase nada faz-nos lembrar do que um dia ela foi?

O espelho nos devolve a cada dia imagens que não prevíramos. Não há razão para desespero. Trata-se apenas do “cumpra-se o destino” para o qual fomos gerados.

Suicídios

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Foi na madrugada em um hospital. Eu acabara de receber a notícia da morte de minha filha e faltava-me o chão sob os pés. Ali iniciavam-se os terríveis procedimentos do post-mortem. Minha mulher foi ao Serviço Funerário da prefeitura para tratar dos mecanismos legais. Liguei para a empresa funerária para o traslado do corpo e entrei em contato com o cemitério para a liberação do espaço para o enterro. Coisas duríssimas. Desesperadoras. Às quais se seguiria o terrível momento do reconhecimento do corpo antes que fosse levado do hospital.

Mas, minha filha não se suicidou. Foi levada pelo câncer, doença contra a qual lutamos por quase três anos, sem vencê-la. Entretanto, naquele momento, logo após saber sobre minha filha morta, eis que me vi na recepção do hospital a esperar a chegada do pessoal da funerária. Seriam umas quatro da manhã. Ali, sentados a um sofá, estava um casal. O senhor, percebendo a minha aflição, acercou-se de mim, perguntando-me o que acontecera. Disse a ele que acabara de perder a minha filha. Para consolar-me ele relatou que dois meses antes também perdera uma filha. Foram, ele e a mulher, surpreendidos ao encontrar a moça morta em seu quarto de dormir. O fato fora surpreendente. Nada nos dias anteriores revelara qualquer intenção da moça despedir-se da vida. Ela não deixara nenhum bilhete, nenhuma explicação. Caso estivesse depressiva nos últimos tempos, escondera isso muito bem. De modo que os dois ali estavam, ainda combalidos, à espera de um filho que no momento passava por cirurgia.

De certo modo o caso da moça que se suicidara devolveu-me um pouco e equilíbrio. Aquilo funcionara com compartilhamento de um dor insuportável. Dor essa que, passados quatro anos desde aquela noite, ainda me incomoda bastante.

Se bem me lembro a primeira vez que ouvi falar em suicídio foi na minha infância. Um parente metera um tiro na cabeça por conta de ter perdido a mulher para outro homem. Apaixonado, não suportara a dor da perda. E se matara.

De lá para cá o número de suicídios tem aumentado. Há quem diga que, na verdade, hoje em dia o número de comunicados de suicídios aumentou, engrossando as estatísticas. Mas, o que se têm é a divulgação de cerca de 4,3 suicídios por dia no Brasil. Razões não faltam, entre elas a depressão. Há um aumento crescente do número de casos. Mais homens se suicidam, mas casos entre mulheres têm aumentado.

Por fim à própria vida é algo que foge à lógica de nossa preservação. Situações limítrofes levam pessoas ao ato extremo. Existem suicídios talvez explicáveis, ainda assim difíceis de aceitar. O caso do grande ator Robin Willians deu o que pensar. Doente e já sem perspectivas de cura ele enforcou-se em sua casa. Mas, ainda assim, fato que nos impressiona.

Há quem diga que o suicídio exige coragem. Outros o consideram ato de extrema covardia. O crescimento do número de casos em que pessoas tiram a própria vida é preocupante. São muitas os fatores que conduzem ao suicídio em geral ligados a quadros de depressão. Tentativas de suicídio envolvem o uso de medicamentos e venenos. Suicídios consumados resultam do uso de aramas de fogo, enforcamentos, etc.

A atenção a sinais que podem sugerir a tendência ao suicídio é importante. Diante do risco de alguém se suicidar devem ser empregados meios hospitalares e mesmo policiais diante de emergências.

Em cinco estados norte-americanos o auxílio médico à morte é permitido. Trata-se da assistência médica a pessoas que desejam por fim a suas vidas, em geral por portarem doenças incuráveis, evitando-se mais sofrimento.

Em boa hora os Ministérios da Saúde e da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos estão lançando, hoje, campanha de valorização da vida e combate à depressão com foco no público jovem.

Fake news

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A moda dos “fake news” segue adiante, confundindo as pessoas. Por vezes torna-se muito difícil separar o joio do trigo, a verdade da mentira. Deturpar as palavras de alguém virou rotina. Eis que o que teve seu discurso deturpado vem a público para desmentir o que não disse. Mas, é tarde. A fake já se espalhou a muitos crédulos passam a tê-la como verdadeira.

As redes socias são pródigas na divulgação das fakes. Alguém publica alguma coisa e, rapidamente, o texto é copiado, chegando a centenas de grupos. Acontece da fake ser tão bem elaborada, oportuna, que a adotamos como verdadeira. Daí os transtornos provocados.

Os meios de comunicação, em geral jornais, abrem sessões nas quais publicam desmentidos sobre “fake news”. Em épocas eleitorais as fakes são muito úteis para a condução dos mais desavisados a votos impensados. Há quem se eleja por conta de publicações favoráveis e nem sempre verdadeiras. Há candidatos que são muito prejudicados.

Mas as fakes sempre existiram, embora não tivessem esse nome. Em “O alienista” Machado de Assis descreve o modo de divulgação de notícias na cidade de Itaguaí. A coisa era feita através de um homem que percorria a cidade com sua matraca. Nas palavras do escritor:

“De quando em quando tocava a matraca, reunia-se gente, e ele anunciava o que lhe incumbiam, - um remédio para sezões, umas terras lavradias, um soneto, um donativo eclesiástico, a melhor tesoura da vila, o mais belo discurso do ano, etc.”

E Machado conta sobre um vereador da cidade sobre quem constava ser perfeito domador de cobras e macacos. Havia quem jurasse tê-lo visto com cascavéis dançando sobre o seu peito. Como o vereador mantinha sua fama? Machado explica dizendo que ele “tinha o cuidado de fazer trabalhar a matraca todos os meses”.

Enfim. Não sei se todos já ouviram o ressoar das matracas. Dos meus tempos de menino, no interior, lembro-me das matracas soando nos dias da Semana Santa. Um coroinha da igreja, devidamente trajado com sua túnica, seguia pela rua, matracando. Era um modo de lembrar aos mortais sobre os perigos do pecado e a importância da fé.

Cada época tem suas fakes, variando o meio de divulgá-las. O hábito de mentir também pertence ao homem.

Terror

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Numa sessão da tarde assisti, assombrado, ao filme “O vampiro da noite’, de 1958. Christopher Lee era Dracula; Peter Cushing fazia van Helsing, o caçador de vampiros. Não é o caso de repetir aqui a trama do filme que gira em torno de ações nas quais vampiros mordem o pescoço de suas vitimas para obter seu sangue. Mas, a cena final marcou-me e muito. Segue o spoiler. Van Helsing está num salão onde se encontram os caixões nos quais os vampiros passam as horas do dia, dado não suportarem a luz. Dracula chega para entrar no caixão e encontra Van Helsing. Perdido, van Helsing percebe que o dia começa a amanhecer. Então, corre, abre as cortinas, a luz entra no ambiente e Dracula se desfaz.

A cena final com o vampiro se esfacelando ao ser atingido pela luz é das grandes do cinema. Inesquecível. Apavorante. Tive medo de vampiros no início da minha adolescência. A face final do Dracula no momento em que é atingido pela luz é inesquecível.

Adorava filmes de terror, deixei de assisti-los. Não me agradam os filmes que abusam de clichês e sustos. Mas, há um tipo de terror que incomoda e muito. Assisti, há alguns anos, o filme “Alien, o oitavo passageiro”. É terrível a cena na qual o corpo deum dos tripulantes da nave praticamente explode porque abrigava um ser do espaço. A ameaça que ronda a tripulação é a de que seus corpos sejam invadidos por seres estranhos que neles se replicam. É um tipo diferente de horror, muito impactante. Lava-nos a pensar em situações nas quais um ser humano passa a ter, em seu organismo, um vírus, bactéria, fungo ou outro tipo de ser vivo para o qual não existe cura. O horror está em ter dentro de si algo que resiste ao combate dos meios terapêuticos disponíveis.

Histórias de terror bem escritas ou filmadas constituem-se em formidáveis meios para fugir à rotina do cotidiano. É um grande prazer ler Edgard Allan Poe. Que tal tornar a assistir ao “Dr. Phibes”, estrelado por Vincent Price?

O terror é um gênero literário criado para assustar, aterrorizar. Nem sempre as histórias de terror apelam para o sobrenatural, mas isso é o mais comum. A ligação entre tramas de terror e a ficção científica vez ou outra garante bons resultados.

Conheço gente que, de modo algum, suporta tramas e terror. De nada adianta dizer a elas que textos e filmes de terror são obras de ficção. Pura ficção.

Escrito por Ayrton Marcondes

13 setembro, 2019 às 4:42 pm

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A primeira dama francesa

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O conceito de beleza muda em acordo com gostos, épocas etc. Há pessoas bonitas e feias. Aliás, mais feias que bonitas. Quando você se olha no espelho a imagem que vê pode fazê-lo sentir-se bem ou não. Há feios que se tem por bonitos. Há bonitos que não estão nem aí para a própria beleza.

Se algum dia algum marciano baixar aqui na Terra e sair da nave é certo que achará os terráqueos muito feios. E não cairemos de amores pelos marcianos, povo feio para nós.

De modo que quanto ao item beleza o melhor é cada um se recolher ao próprio julgamento, sem fazer alarde quanto à opinião sobre os outros. Cada um no seu quadrado, não deve ser assim?

Daí o estranhamento diante dos comentários de políticos do país quanto ao aspecto da primeira dama francesa. De repente Brigitte Macron passou a ser questionada pela sua beleza ou falta dela. Um internauta publicou fotos nas quais compara Brigitte a um animal. O presidente da República do Brasil achou de concordar. Foi o início de discussões lamentáveis. O presidente Macron protestou. Mulheres brasileiras saíram em defesa da primeira dama francesa. A mídia ocupou-se do assunto. O caso correu o mundo.

Mas, já nos esquecíamos disso quando o senhor Ministro da Fazenda achou de retomar o caso. Paulo Gudes concordou com Bolsonaro, dizendo que Brigitte Macron é feia mesmo.

A quem tudo isso servirá não se sabe. Quanto ao enorme desserviço e desgaste nas relações entre os países não restam dúvidas. Desceu-se da questão de estado a ser tratada entre países para o nível mais abaixo. Trata-se da tal prerrogativa de que homens se sentem possuidores de taxar mulheres como bens. Não são bens de posse as nossas mulheres, muito menos as mulheres dos outros.

Na TV um jornalista brasileiro que vive no exterior indigna-se. Diz-se envergonhado pela falta de educação do presidente e do ministro. O jornalista fala sobre a imagem do Brasil no exterior. Pergunta: o que está acontecendo no país?

O fato é que Brigitte Macron tem mais idade que o marido. Talvez o que se queira é que o líder da França seja casado com moça bem mais jovem que ele…

Mas, vivemos tempos nos quais o bom-senso e a educação vem sendo deixados de lado. Ainda nos surpreendemos com coisas bizarras. Mas dizem que o melhor é que nos acostumemos. Afinal, desta vez o futuro se apresenta mais que incerto e surpreendente.

D Pedro I

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Capricha-se negativamente em relação aos personagens da dinastia portuguesa que empreendeu a descoberta, a colonização e implantou o império em nossas terras. Ninguém escapa. D João VI é tratado como quase idiota. Em relação a D. Pedro I valoriza-se sua sexualidade exacerbada. D Pedro II nada mais teria sido que um Habsburgo com pretensões intelectuais, perdido nos trópicos.

Sobre D. João VI o melhor a fazer é ler o grande livro de Oliveira Lima, “D. João VI no Brasil”. Se depois da leitura dessa obra formidável restar algum tipo de dúvida sobre o rei português há que se considerar a possibilidade de certa dose de má vontade. Aliás, sobre D. João VI bastaria lembrar sua visão ao deixar aqui seu filho, mantendo o país sob o domínio da coroa portuguesa.

D. Pedro veio ao Brasil em 1808 quando a família real portuguesa fugiu de Portugal para não lutar contra tropas francesas. Tinha, então, oito anos de idade. Em 1817 casou-se com D. Leopoldina de Habsburgo, filha do imperador da Áustria. Mas, em 1820 seu pai, D. João VI, retornou a Portugal por causa da Revolução Liberal do Porto. D Pedro ficou na colônia como príncipe regente, nomeado que foi em 1821.

Mas, as Cortes portuguesas passaram a insistir no retorno do regente a Portugal. Atendendo aos pedidos dos brasileiros D. Pedro decidiu ficar, fato conhecido como “Dia do Fico”. Entretanto, a pressão de Portugal prosseguiu condição que o levou a proclamar a independência no dia 7 de setembro de 1822.

Com a independência iniciava-se o Primeiro Reinado que durou até 1831 quando D. Pedro I abdicou e retornou a Portugal. Como seu pai, D. Pedro I deixou aqui seu filho que, mais tarde, seria coroado imperador aos 14 anos de idade. D. Pedro II seria imperador do Brasil por quarenta anos, até a proclamação da República em 1889.

Os fatos lembrados acima são de conhecimento geral. Fazem parte dos currículos de História do Brasil ensinados nas escolas. Entretanto, não se emprestam a eles as devidas reverências. A cada ano, por ocasião da comemoração da independência do país toma-se D. Pedro I pelo que teria de menor, ou seja, sua sexualidade descrita como exacerbada. Somos lembrados da amante de D. Pedro I, Domitila de Castro, a Marquesa de Santos. Os meios de comunicação tornam a falar sobre a amante, a casa onde viveu, o túmulo onde está enterrada etc.

Lembrar de Pedro I através de suas aventuras amorosas é pouco para um homem que tornou o Brasil independente.

Escrito por Ayrton Marcondes

7 setembro, 2019 às 10:38 pm

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Assombrações

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Não sei precisar a hora da madrugada. Entretanto, mais ou menos no mesmo horário, noite adentro, éramos acordados pelo tropel de um cavalo. O trajeto do animal sempre o mesmo. Vinha pela rua e dobrava à esquerda, justamente na esquina da casa onde morávamos. Então o ruído dos cascos as bater contra o chão diminuía e o silêncio voltava a reinar.

No vilarejo ninguém se atrevia a abrir as janelas para observar o estranho cavalo. Mas, se sabia que, certamente, se tratava de uma mula sem cabeça. Os ruídos na madrugada haviam surgido pouco depois da morte de uma mulher que, assim se dizia, mantivera relações íntimas com um padre. Depois da morte sobre ela pesara o castigo: seria para sempre mula sem cabeça, mundo afora errando nas madrugadas.

Os tempos eram outros. Nada dessas engenhocas eletrônicas que hoje andam nas mãos das crianças. Se nem com a energia elétrica podia-se contar em todas as noites… As quedas de fase eram constantes. Os apagões também. E as tempestades.

Tínhamos medo de tudo. Acreditávamos em tudo. Na falta de outras distrações os mais velhos ocupavam-se em contar histórias. Quantos casos narrados sobre almas do outro mundo, assombrações sempre prontas a aparecer e nos assustar.

Houve o caso daquele Felício sobre quem se dizia ser sujeito muito ruim. Contavam-se ruindades perpetradas por ele, com aquela de matar animais só pelo prazer de matar. E muitas outras. Mas, quando o Felício adoeceu, a criançada se pôs em vigília. Eis que seríamos assombrados por um ser terrível assim que o Felício morresse. Um corpo seco, nisso ele se transformaria após morrer. Esse corpo insepulto vagaria nas noites para desespero de toda gente que, de nenhum jeito, queria com ele cruzar. Gente ruim virava corpo seco, disso se tinha certeza.

Um dia o Felício morreu. Nunca soube se alguém topou com ele sob a forma de corpo seco. Depois crescemos, o mundo mudou e hoje pouca gente se preocupa com mulas sem cabeça, corpos secos e assim por diante. A infância mudou tanto… Muito.

Escrito por Ayrton Marcondes

6 setembro, 2019 às 4:24 pm

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Assassinatos em Atlanta

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Entre 1979 e 1981 uma série de assassinatos assombrou a cidade de Atlanta. Nesse período 28 jovens negros de idade entre 7 e 17 anos foram mortos e seus corpos encontrados em lugares diferentes, alguns boiando nas águas de um rio. A possibilidade de um serial killer em ação chamou a atenção nacional sobre o fato. Na cidade as famílias passaram ao desespero pelo medo de algo acontecesse com seus filhos. Grande esquema policial foi montado para prender o assassino, ou mais de um se fosse o caso. Ao final prendeu-se um produtor musical negro que foi condenado à prisão perpétua pela morte de duas pessoas de mais de vinte anos de idade. Mas, Wayne Willians, conhecido como o Monstro de Atlanta, sempre negou a autoria dos crimes. Não se conseguiu provar ter sido ele o responsável pela morte dos 28 jovens.

Os assassinatos ocorridos em Atlanta ganham nova projeção através de uma série televisiva norte-americana chamada Mindhunter. Trata-se da formação de um grupo especial do FBI cuja finalidade é o entendimento do modo de agir dos criminosos. Através de entrevistas policiais do FBI tentam compreender a mente de criminosos famosos, buscando elaborar métodos para combater futuros crimes. Na segunda temporada da série abordam-se os crimes ocorridos em Atlanta e a busca do criminoso.

Mindhunter não deixa de ser interessante pelo modo como atuam os membros da equipe do FBI. A tentativa de penetrar a mente criminosa não se dá sem consequências para os policiais. As entrevistas, realizadas em presídios, são cercadas de grande tensão. Policiais têm à sua frente notórios criminosos aos quais dirigem perguntas nem sempre respondidas a contento. No capítulo da série em que o entrevistado é Charles Mason as coisas se passam de modo bastante complicado. Mason, que faleceu a pouco, foi o idealizador do assassinato da atriz Sharon Tate. Convenceu um grupo de seguidores invadir a casa onde residia a atriz e matar todos os que encontrassem pela frente. Sharon estava grávida e nem assim foi poupada. O fato é conhecido e muito bem explorado no capítulo.

Até hoje não foram devidamente esclarecidos os assassinatos dos jovens negros de Atlanta. As próprias famílias dos jovens assassinados não acreditam ter sido Wayne Willians o serial killer responsável pelas mortes.

Em março deste ano a prefeita de Atlanta, Keisha Lance Bottoms, e a chefe de polícia de Atlanta, anunciaram que as autoridades estaduais e locais testarão novamente as evidências no caso. Hoje se dispõe de meios avançados de investigação, entre eles provas de natureza genética. Seria spoiler acrescentar o que se vê na telinha no último capítulo da segunda série de Mindhunter sobre o final do assunto na década de 80.

80 anos

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Pessoa conhecida faz 80 anos. Eu a felicito, desejando muitos anos de vida. Ela responde: deseja isso porque não gosta de mim.

A velhice é a incógnita. Seguir adiante para que? Pelo menos se a saúde ajudar. Mas com tantas dores… A rotina de frequentar salas de espera em consultórios médicos é torturante. Ali se reúnem, todo dia, pessoas em sua maioria idosas. Muitas delas na verdade não sofrem de sintomas que justifiquem tantas vezes aos médicos. É o medo da doença que as conduz. O medo do que está pela frente. O medo do fim. Da morte.

Mas as estatísticas impressionam. A longevidade alcança barreiras até então difíceis de atingir. Relata-se a morte recente de uma mulher aos 122 anos de idade. Por detrás do grande aumento do número de idosos os avanços da medicina. Novas técnicas de diagnóstico. Novos medicamentos. Cura ou mesmo prolongamento da vida em doenças ainda incuráveis. O mundo está aberto a novas conquistas científicas.

A sociedade se acanha diante da mudança na pirâmide de idades. Mais velhos a manter no sistema econômico já abalado. O estreitamento da base e o alargamento do topo da pirâmide revela-se problema de difícil solução. Afora a falência do sistema de saúde que deixa à margem de atendimento tanta gente.

O medo ligado à velhice relaciona-se à perda de controle sobre si próprio. O horror da dependência física num momento em que se perde a capacidade de fazer coisas por si mesmo. A torturante incapacidade dos presos às cadeiras de rodas. Perguntada sobre a velhice famosa escritora resumiu: é uma merda.

Mas, existem outros problemas. Teme-se, com razão, o Alzheimer. Parentes temem vir a sofrer de males semelhantes. Alguém, perto dos noventa, apresenta pequenos esquecimentos. A parenta, passada dos setenta, teme que a prima esteja com Alzheimer. Se acaso estiver será que não acontecerá também comigo? Nada garante. Mas como convencer a mais nova, preocupada, de que não correrá riscos?

A vida passa, não tem jeito. É sempre bom presenciar a chegada de uma pessoa aos oitenta, em boa forma, embora as reclamações quanto a pequenos males que a incomodam. Afinal, a velhice não é o fim do mundo.

Escrito por Ayrton Marcondes

4 setembro, 2019 às 12:19 pm

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