Cotidiano at Blog Ayrton Marcondes

Arquivo para ‘Cotidiano’ Category

Derrotas

escreva o seu comentário

Quando pequenos é difícil acostumar-se com a ideia de derrota. Meu neto torce para o São Paulo que experimenta prolongada má fase. O time não conquista nada a bom tempo. Somam-se fracas atuações isso para desespero da grande torcida tricolor. Meu neto tem oito anos e sofre com o time. Dias atrás desesperou-se quando o São Paulo tomou um gol logo no início de uma partida.

Para mim as derrotas vieram muito cedo. Era muito pequeno quando do 4×2 da Hungria sobre o Brasil na Copa de 1954. Mas, passei os anos seguintes acreditando que o Brasil fora espoliado por um certo Mr. Ellis, árbitro da partida. Era comum afirmar-se sobre o ladrão quando de algum roubo: “deu uma de Mr. Ellis”.

Mas, a verdade acabou por se impor. Aquela seleção húngara era o que havia de melhor. Tinha, entre outros, o grande Puskas. O Brasil contava com grandes jogadores, mas ainda sem a organização que seria vitoriosa em 58.

Numa época em que a todo custo precisávamos granjear projeção internacional - Brasil desconhecido, terra do arco e flecha – eram poucos os ícones de representatividade reconhecida no exterior. Eder Jofre, boxer peso galo, ídolo no país seguia com sua carreira de campeão mundial. Pois me vem nítida a memória do dia em que Eder enfrentou, no Japão, Fighting Harada. A luta se travou na noite japonesa, manhã no Brasil. Eu acabara de desembarcar do bonde da Estrada de Ferro Campos do Jordão no qual viajava, diariamente, para frequentar as aulas do ginásio local. Ainda na plataforma da estação ouvi pessoas falando sobre a derrota de Eder. Perdera por pontos com jurados parciais. Até hoje se discute se o resultado foi correto. Eder era o campeão, talvez o melhor teria sido o empate. Mas, estava-se no Japão que queria e ficou com o título.

Não há como descrever a tristeza do rapazote sentado num dos bancos da estação. Eder fora derrotado. Resultado inaceitável, fosse pelo que fosse.

Mal sabia eu que ali se iniciava o longo período da vida no qual vitórias e derrotas se alternariam de modo sempre surpreendente. Entretanto, ainda não consigo aceitar derrotas como acontecimentos “normais”. O ser humano não foi gerado para o fracasso, essa a índole de uma espécie afinal vencedora no planeta.

Domingo passado, ao ver meu neto constrangido diante do gol sofrido pelo São Paulo, me vi inclinado a dizer a ele que, afinal, a vida é isso mesmo, vitórias e derrotas viriam. Mas, me calei. Será o futuro a dizer e ensinar a ele as regras desse jogo confuso que estar vivo.

Na velhice

escreva o seu comentário

A Rede Globo demite alguns ícones de sua programação. Estão velhos. Ganham muito e a muito não participam de produções. Os fãs reagem. Surge a pergunta: no lugar de um sessentão contratarão duas pessoas de trinta?

Fato é que a paisagem vai mudando. Novas caras nas telinhas e no mundo. O lugar reservado aos velhos só encolhe. Velho é velho, ainda mais com suas chatices.

Nos comentários que surgem as opiniões são expressas por pessoas mais jovens sobre os velhos. O cronista que escreve sobre as choradas demissões de Tarcísio Meira e Glória Menezes certamente tem menos idade que eles. Trata-se do presente, olhando para o passado.

Mas, e quanto ao que acham e sentem os velhos? Que acham e sentem eles sobre a paulatina exclusão da qual não podem escapar? Pode não ser regra geral, mas paira certo ar de aceitação, senão conformismo. A velhice é um gigante contra o qual faltam aos velhos forças reais para combater. Verdade que existem fases. A tinta no cabelo, os exercícios, cuidados com a saúde etc., tudo isso contribui para a manutenção da jovialidade que dia-a-dia escapa. Até quando as forças decaem irreversivelmente: é o fim.

Para quem chegou até aqui, na velhice, muitas coisas são claras e inegáveis. De fato, não há como negar que essa máquina, o tal do organismo, não foi feita para durar para sempre. Assim, o declínio é inevitável. Para cada ser humano o declínio assume características em acordo com sua complexão física e possíveis cuidados tomados ao longo da vida. Fumou, não fumou, bebeu, não bebeu, doenças anteriores etc. Não é tão simples assim, mas passa por isso.

Entretanto, o grande problema é “estar na velhice’. Sentir-se incorporado ao batalhão de reservistas que, não muito adiante, deixarão esse mundo. Perceber no próprio corpo mudanças irreversíveis contra as quais pouco se pode fazer. Enfim, “ser velho”.

Nisso se pensa toda vez que as pernas doem e fraquejam, quando a respiração se torna mais ofegante, a cada visita ao médico que nos prescreve a lista de medicamentos sem os quais já não se pode viver.

Mas, apesar disso tudo, a ideia não é converter a velhice em período sempre depressivo. Há que se manter a flegma. Sobreviver. O segredo é não desistir. Nunca. Não custa nada ter sempre em mente coisas boas da vida, mesmo quando já não se possa desfrutá-las integralmente.

Celebridades

escreva o seu comentário

Talvez por desatenção não tenha reparado se antes da atual pandemia valorizava-se tanto o corpo como agora acontece. Nos sites dos grandes meios de comunicação diariamente o assunto “boa forma do corpo” é noticiado, acompanhado de fotos nas quais mulheres esculturais exibem seus atributos. São fotografias nas quais são realçadas formas exuberantes como seios, nádegas e por aí vai. Fulana está em Búzios e mostra o resultado de sua malhação diária… Sicrana e o namorado na praia, curtindo o sol, exibindo seu belo corpo.

Do outro lado das telinhas estão os olhos que, queiram ou não, sempre passam por essas notícias. A febre que envolve o dia-a-dia das celebridades parece não ter fim. Artistas globais publicam selfies agora que estão em casa reclusas por conta da pandemia. Influencers, youtubers e toda sorte de novos arrebanhadores de seguidores destacam isso e aquilo cuja importância nem sempre é relevante.

A atração por celebridades é mais que imã, arrastando seguidores. O que há é a imensa curiosidade sobre seres que parecem figurar como não pertencentes ao planeta em que vivem os mortais comuns. Basta embrenhar-se um pouco na internet para encontrar vídeos sobre o estilo de vida de atores de cinema. Se você quiser conhecer o estilo de vida de Leonardo di Caprio, basta um click no mouse. Tempos mais que pós-modernos.

Isso sem falar no extenso noticiário sobre sexo. Especialistas no assunto escrevem sobre orgasmo feminino, pudores, entregas alucinantes, traições, multiplicidade de parceiros, brinquedos eróticos, simulações, vícios, masturbações etc. Para tudo existe algum tipo de abordagem, quando não aconselhamentos. Não raro alguma mulher que tinha lá seus impedimentos concede entrevista para relatar como se livrou de suas amarras e agora experimenta o bom e delicioso sexo. Pessoas de mais idade são avisadas de que a vida sexual não termina aos sessenta, sendo possíveis orgasmos formidáveis na velhice. Tudo isso você pode encontrar agora, agorinha mesmo, nas primeiras páginas de importantes sites.

Entretanto, não se está aqui a fazer denúncias, mesmo condenar o que acontece. Nada de rotular como errado coisas decorrentes de estilos que já existiam e agora se acentuam. Mas, de expressar alguma estranheza diante daquilo que nos é colocado goela abaixo.

As celebridades são, inquestionavelmente, cercadas de grande curiosidade. São ícones e nada se pode fazer em relação a isso. Está na internet um vídeo no qual uma motocicleta aparece encostada na traseira de um carro estacionado. Policiais param para atender o que pode ser possível ocorrência. Acontece que a moto pertence ao ator norte-americano Keanu Reeves. Eis que num dado momento o ator aparece para se entender com os policiais. Está com boné, barba crescida, quase irreconhecível. Mas, é Keanu Reeves! No que ele surge o trânsito praticamente para. Curiosos se agrupam para vê-lo e assistir ao desenrolar dos acontecimentos. No fim tudo dá em nada. A moto não causara dano ao veículo contra o qual se apoiava. Então, Keanu senta-se na moto, que demora a pegar, depois parte. Vida de celebridade.

A nova Babel

escreva o seu comentário

Pelo Gênesis, primeiro livro da Bíblia, somos informados que os descendentes de Noé, após o dilúvio, passaram a construir a Torre de Babel. A obra seria uma forma de comunicação com Deus. O Todo Poderoso, entretanto, destruiu a torre por não aprovar a soberba dos homens. E não ficou só nisso: o Senhor castigou seu povo, confundindo sua língua e o espalhando pela Terra. Seria essa a origem das diferentes línguas faladas pelos homens.

Babel é sempre citada quando se fala em confusão, quando as pessoas não se entendem. É provável que isso aconteça desde que o homem é homem. Faz parte da natureza humana a diversidade de espíritos, parcelas diferentes de vaidade, ausência de solidariedade e defesa de interesses. O mundo é como é, os homens são como são e inexiste a perspectiva da existência sem conflitos. As regras sociais funcionam como barreiras dentro das quais cada um se vê obrigado a amoldar-se às exigências da vida em sociedade. Obviamente, muita gente descamba para ações que infringem os códigos de conduta tidos como aceitáveis. Deriva daí a multiplicidade de crimes aos quais assistimos tantas vezes estarrecidos. Ainda nos surpreende o fato de que seres humanos sejam capazes de atos inaceitáveis que atentam contra não só a vida como à dignidade das pessoas. Exemplo recente são os desvios de recursos destinados ao socorro de milhares de vítimas da pandemia provocada pelo Covid-19. Enriquecimentos ilícitos se dão às custas de milhares de vítimas cujos óbitos se dão por falta de atendimento, equipamentos médicos e assim por diante. Desvios de milhões por bandidos engravatados.

De que o mundo tenha sido sempre assim não restam dúvidas. Entretanto, com a atual sofisticação dos meios de comunicação passa a existir maior celeridade na divulgação de notícias. De fato, a cada minuto nos chegam informações de todo o mundo, sempre atualizadas. Talvez justamente por isso escancara-se aos nossos olhos essa que pode ser caracterizada como uma nova Babel. Fato é que ninguém se entende. Bipartidarismos, racismos, fobias e a adesões a teorias que até a pouco pareciam em vias de esquecimento, ressurgem com muita força. Daí estarem em voga os adeptos do nazismo, do fascismo, a ressurreição dos ultras, as negações do óbvio, os regimes totalitários, as fake news etc.

Os homens de hoje falam-se através de códigos conflitantes. Líderes mundiais governam em acordo com interesses restritos aos países que governam, estimando conflitos com quem deles discorda. A harmonia entre países fica seriamente prejudicada.

A Babel bíblica nunca deixou de existir. No mundo que parecia escolado após duas grandes guerras erguem-se vozes discordantes que, volta e meia, beiram inícios de novos conflitos. E esses acontecem. A Síria é só mais um triste exemplo.

A nova Babel é o mundo, o futuro cada vez mais incerto.

Bom humor

escreva o seu comentário

As pessoas andam carrancudas e não sem razão. Cinco meses após o início da pandemia no país, vivendo sob confinamento e perigos de contaminação, é de se esperar que não exista bom humor que resista a tanto.

Fato é que o mundo vai perdendo a graça. Muita gente procura a alegria fugaz de trocas de mensagens que parecem se esgotar pouco depois das postagens. Quem faz parte de grupos no whats está habituado a encontrar toda sorte de mensagens amigáveis a cada dia que começa. Orações, imagens de flores, dizeres estimulantes, vídeos com músicas orquestradas, votos de felicidade e todo um arsenal de recursos são utilizados no endereçamento de mensagens de solidariedade. As pessoas se procuram quando o futuro é incerto e a humanidade sente-se ameaçada.

Mas, não há que se ignorar que mesmo nesse contexto sobressaem-se as características próprias de cada temperamento. Assim, os naturalmente mais alegres e participativos se esforçam para manter o ritmo habitual de suas bonomias. Já aos mais carrancudos a ocasião se configura mais propícia ao aprofundamento de seu caráter menos bem humorado.

Talvez o largo espectro de personalidades seja útil para tentar explicar comportamentos incomuns que, com frequência, têm acontecido. De fato, revoltas aparentemente represadas diante do que se passa no mundo parecem ganhar fôlego para explosões momentâneas com consequências por vezes desastrosas. Um simples desentendimento no trânsito, por exemplo, proporciona reações descabidas e violentas que não raramente resultam em crimes. Veja-se o caso de uma senhora que ousou indicar ao motorista do carro ao lado a necessidade de ligar a seta. Ato contínuo, ao pararem no sinal, foi ela violentamente agredida pelo motorista que, jogando-a no chão, aplicou-lhe violento chute na face. Não deixa de ser interessante a declaração da mãe do agressor ao se dizer surpresa com a ação do filho.

O ar que se respira nesses dias está mais denso isso significando que as paciências andam bem mais curtas. Com a economia em frangalhos, empresas fechando, desemprego, falta de dinheiro e de esperança de dias melhores cresce muito o peso que se leva sobre as costas.

Na televisão um psiquiatra recomenda calma e muito cuidado. São novos tempos aos quais não estamos habituados. As crianças não vão à escola, os idosos não saem às ruas, o uso de máscaras e o distanciamento entre pessoas é necessário. Há medo e insegurança. Estatísticas sobre mortes são anunciadas a cada dia e, por enquanto, não existem perspectivas de que as coisas voltem aos eixos.

Portanto, cuidado e muita paciência.

Anos depois

escreva o seu comentário

Gostava de filmes de terror. Matando aulas do ginásio, assistia as sessões da tarde no cinema da cidade. Usava-se, então, a fardinha cáqui como uniforme escolar. Mas, havia um problema: ordem do juiz proibia a entrada de estudantes nas sessões da tarde. O jeito era trocar de roupa no banheiro da estação. Depois deixava-se o uniforme no bar da estação cujo dono era bom amigo.

Havia outro problema: a censura dos filmes. Menores de 14, por vezes 18 anos de idade, não podiam assistir a certos filmes. Aí entrava em jogo a camaradagem do porteiro. Obviamente, os documentos eram adulterados, mas tão mal feitas as rasuras que bastava bater os olhos para perceber. O porteiro, um gordote bonachão, fazia vistas grossas e ria. Vez ou outra perguntava pela idade. Os meninos se assustavam e custavam a se lembrar da idade escrita no papel. O porteiro ria. Os meninos éramos eu e o Gilson, também mestre em faltar às aulas.

São passados sessenta anos desde aquelas tardes no cinema. O Gilson já morreu há uns dez anos. Fumava muito e não se aguentou durante crise cardíaca inesperada. Toda vez que eu encontrava o Gilson falávamos sobre as sessões da tarde. Gostávamos dos filmes de vampiros. Drácula com Christopher Lee era simplesmente demais. O branco-e-preto na tela acentuava o clima de horror que envolvia o pequeno público presente.

Os vampiros dos filmes antigos eram especialistas em toda sorte de maldades. Viviam em castelos escuros para os quais atraiam donzelas por cujo sangue ansiavam. Seres sinistros os vampiros metiam os dentes nos pescoços de toda gente e sugavam. Mas, tinham suas fraquezas: passavam as horas de luz do dia dentro de caixões porque a luz os destruiria; crucifixos e alho eram a eles insuportáveis; para matá-los o caçador de vampiros deveria fincar em seus corações estacas de madeira.

O medo é sentimento negativo, mas que pode ter seus atrativos. Eu morria de medo de vampiros, mas a existência deles provocava-me algum frenesi. Essa sensação dúbia, envolvendo horror e prazer faz parte da natureza de muita gente e talvez explique a estranha atração pelas histórias de terror. Basta ver, hoje em dia, a enorme quantidade de filmes de terror produzidos fato que demostra o grande número de aficionados do gênero.

Sessenta nos mais tarde suponho ter perdido a tal natureza que balança entre o medo e o prazer de senti-lo. Aconteceu-me não mais gostar de filmes de terror. Aliás, toda história que envolve situações trágicas causa-me repulsa. Mas, por que terá o aluno do ginásio mudado tanto ao longo dos anos?

Penso que ao tempo da minha puberdade o mundo em que vivíamos era bem menos intenso e perigoso e isso condicionava nossas reações e modo de ser. Havia, sim, a maldade que ela é apêndice inseparável da natureza humana. Crimes hediondos ocorriam, assim como hoje. Mas, reinava a distância entre o homem e os acontecimentos que, de modo algum, chegavam a ele com a velocidade de hoje. Se um bandido esfaqueia um policial em Xangai, ficamos sabendo disso cinco minutos depois através dos telejornais e internet tão pressurosos na caça permanente de notícias. Assim, o mundo de hoje tem se tornado um tipo de flagelo que nos açoita dia e noite com notícias ruins sobre ocorrência que não param de acontecer.

Talvez em função disso, dessa exposição constante à desgraça cotidiana, o medo genuíno provocado pelas obras de ficção tenha se esgarçado no íntimo de muita gente, como no meu caso.

Dias trás reli um dos contos de Poe – “A queda da casa de Usher”. Em verdade não precisaria relê-lo dado que me lembrava da trama e seu desfecho. Mas, havia o prazer da escrita de Poe, o modo incrível de tratar o enredo de um caso horrível. Terminei a leitura e fechei o livro sem ânimo para iniciar outro conto.

Eu já não era mais o mesmo.

Fim de carreira

escreva o seu comentário

Sabe-se que, para os bens sucedidos, o esporte funciona como mina de ouro. Atletas famosos em vários esportes aposentam-se possuindo polpudas contas bancárias e outros bens. Ficamos boquiabertos quando temos acesso a fortunas amealhadas por alguns ícones do esporte.

Não é o que acontece com a maioria, sabe-se disso. Ser vitorioso em modalidades competitivas exige não só talento como conjunção de fatores que incluem oportunidades e, não raramente, boas doses de sorte. O fato é que muita gente bem dotada para o esporte acaba não se dando bem. Um amigo tem um filho que nasceu para jogar futebol. Nos tempos de colégio o rapaz destacava-se demais. Chegou ao aspirante de times grandes e mesmo vestiu a camisa do time principal num único jogo. Mas, parou nisso. O técnico da ocasião punha reparos no estilo do rapaz etc. Hoje, já aos cinquenta anos de idade, trabalha como engenheiro numa grande empresa.

Há casos de jogadores de futebol que ganharam muito dinheiro e conseguiriam arruinar seu patrimônio. Imóveis, veículos caros e mulheres de ocasião associam-se a trajetórias cujo final é quase sempre melancólico. Não faz muito conhecido jogador aposentado declarou-se insolvente, relatando ter gastado montanhas de dinheiro numa vida totalmente desregrada.

Personalidades do esporte chamam a atenção e arrastam atrás de si legiões fãs. A glória e a facilidade de ganhar dinheiro podem comprometer o modo de avaliar a realidade por pessoas tantas vezes oriundas de núcleos familiares empobrecidos. E dá no que dá.

O boxe internacional movimenta grandes quantias. Numa luta pelo título mundial em categorias de relevo há boxeadores que chegam a receber cerca de um milhão de dólares. Um milhão por doze rounds… Pelo que é de se imaginar que aqueles que circulam nesses altos meios tenham, após se afastarem dos ringues, tudo o que se pode ter em termos de vida confortável e bem sucedida.

Daí o estranhamento em relação ao que hora se divulga sobre esse fenômeno do boxe que foi Evander Holyfield. Peso pesado e campeão mundial, lutou ele contra os melhores de seu tempo, destacando-se os combates contra Mike Tyson. Em torno de Holyfield estabeleceu-se a legenda que só acompanha aqueles que de fato alcançaram o limite da perfeição em suas atuações.

Estima-se que, ao longo de sua carreira Evander Holyfield tenha chegado a amealhar a fortuna de 1,5 bilhão de dólares. Entretanto, no momento, mora num apartamento de dois quartos e consta estar ruim das finanças.

Mas, como o grande pugilista do passado pode perder tão grande fortuna? O fato é que Holyfield morava numa casa de mais de cem cômodos, tinha inúmeros carros…Pai de doze filhos Holyfield parece não ter se dado conta de que um dia o dinheiro pode acabar. Considere-se, nesse caso, que para dar fim a 1,5 bilhões de dólares foi preciso gastar cerca de 200 mil dólares por dia, durante 23 anos…

Evander Holyfield tem 57 anos e já não pode lutar.

As grandes derrotas

escreva o seu comentário

Fingimos que não sabemos, mas é impossível ignorar a existência de certos baús incógnitos e fechados que nos acompanham ao longo da vida. Estão conosco, mas os ignoramos na esperança de que nunca se abram.

As grandes derrotas abrem baús dos quais são libertados fantasmas. No momento em que surgem instala-se o espanto. O impossível acaba de acontecer e deixa-nos atônitos, sem rumos. Nossas crenças são abaladas, tudo aquilo em que acreditávamos torna-se nada mais que poeira. A realidade nos atinge, frontalmente. Já não é possível ignorar o quanto até aí estávamos enganados, viajando dentro de um sonho que nada mais era que imagens que acalentávamos, alimentando nosso orgulho.

Foi assim na Copa do Mudo realizada no Brasil. No momento em que a seleção nacional se alinhou para o toque do hino éramos todos um só em nome da brasilidade e da herança futebolística acalentada por gerações vitoriosas. Aqueles onze homens, vestindo o uniforme da seleção nacional, não eram quaisquer uns: eram herdeiros e representantes de uma tradição arraigada nos corações de um povo sofrido que sobrevivera ao desastre de 1950 e acabara por se superar a partir de 1958.

Mas, os novos heróis fardados com as cores nacionais, não eram verdadeiros. Entregaram-se aos alemães que os humilharam pelo placar de 7 x 1. Abria-se o terrível baú, fantasmas libertos apregoavam aos quatro ventos a nossa vergonha. E, de lá para cá, nada mais fazemos que tentativas, infrutíferas, de recuperação. A pátria de chuteiras havia naufragado no jogo contra a Alemanha e ainda permanece submersa, esperando pelo milagre de nova vida e conquistas.

Hoje realizou-se, em Lisboa, jogo entre o Bayern de Munique e o Barcelona, da Espanha. A expectativa de que os espanhóis fizessem frente aos alemães viu-se fraudada através de um resultado de oito gols contra dois. Mas, entre os espanhóis humilhados havia um mestre, rei dos estádios, o argentino Lionel Messi. Tudo o que se escreva sobre Messi nada mais será que repetição de algo já gravado antes. A internet coloca à disposição de quem queira ver as maravilhas realizadas por Messi ao longo de sua carreira.

Mas, foi triste ver o grande Messi perdido em campo ao lado de seus companheiros que sucumbiram ao volume de jogo do Bayern. Acontece, ainda, que o grande Messi já chega aos 33 anos de idade e, diz-se, já não é o mesmo. Daí que após a derrota apressaram-se alguns jornalistas a decretar o fim da carreira desse grande mago que é Messi. Houve até que dissesse ser Messi merecedor de um fim de carreira mais digno.

Hoje foi o dia em que Lionel Messi viu abrir-se o baú do qual foram libertados os seus fantasmas. É possível que a essa hora o argentino esteja em luta contra eles. Mas, talvez se enganem aqueles que se apressam a decretar o fim de Messi. Magos são magos, é bom que ninguém se esqueça disso. Grandes derrotas abrem baús e libertam fantasmas, mas existem casos em que a força dos homens logra devolvê-los ao encarceramento. Daí que por tudo o que Lionel Messi já fez deva-se considerar não ser impossível o seu retorno e com a glória de sempre.

A vacina russa

escreva o seu comentário

E o povo segue em sua trilha de não ter como fugir às imposições da epidemia. Verdade que as coisas devagar, muito devagar, vão tornando à normalidade. O que há é um “não se aguenta mais essa situação”. Perdas irreparáveis no mundo dos negócios, quebradeira de empresas, mães presas em suas casas, cuidando dos filhos porque as escolas seguem fechadas.

O setor de turismo terrivelmente abalado. O comércio em luta pela sobrevivência. Tudo conspira e o vírus parece rir do desespero humano. Tanto que o vírus vai fazendo a sua parte. Diariamente são divulgadas notícias sobre o número de óbitos e novos infectados. No país a média diária de óbitos pelo Covid-19 está sempre em torno de mil a cada dia. Tanto se fala sobre isso que se ouve como se fosse coisa normal. Trata-se da contingência do sofrimento ao qual vai-se habituando. A dor real só se instala quando as perdas atingem pessoas queridas. Uma senhora declara ter perdido o pai, a mãe e uma tia, os três pela virose. Não há como safar-se de tanta dor e aceitar o vazio de tão grande perda.

O óbvio é que tudo isso só terá um fim se uma vacina eficiente for produzida. Em alguns países pesquisas se desenvolvem em torno da produção de vacina eficiente. No meio disso eis que surge a Rússia, divulgando ter obtido a vacina e estar pronta para cedê-la ao mundo.

Entretanto, a vacina russa chega ao mercado crivada por dúvidas. Não se sabe muito sobre testes de sua eficiência. A OMS não recebeu, até agora, informes que permitam recomendar a vacina russa. Mas, eis que surge em nossas casas a imagem de Putin, chefe de governo, respaldando a vacina que, aliás, foi aplicada em sua própria filha.

Será maravilhoso se os russos tiverem realmente encurtado o prazo de obtenção de uma vacina eficaz. Mas, por hora trata-se apenas de uma hipótese a ser confirmada. Entretanto, a vacina russa, eficaz ou não, surge num momento de desespero pelo fim da epidemia. Daí alguns governos se apressarem em negociar com os russos a utilização da vacina. No Brasil, o governo do Paraná já está em contato com os russos, dispondo-se a adquirir doses para a população daquele estado.

Bem, você concordaria em receber a vacina russa? Ser vacinado? Eis aí uma questão ainda em aberto. Até o momento não se sabe sobre efeitos colaterais dessa vacinação. De modo que, ao que parece, seguimos no escuro.

Mas, que a vacina de Putin seja boa. O mundo clama e espera por isso.

O inesperado

escreva o seu comentário

Ninguém sabe o dia em que vai morrer. Pessoas jovens e muito bem de saúde tomam, calmamente, o café da manhã sem que passe pelas suas cabeças que, horas depois, estarão mortas. A morte surpreende mesmo quando é esperada como no caso de doentes terminais.

Certa vez, numa estrada, presenciei um acidente. Era noite e dois carros colidiram violentamente. Tive a sorte de poder parar antes que meu carro viesse a colidir com os outros dois. Parado presenciei cena que grandes atores não conseguiriam desempenhar, mesmo sob o comando de diretores competentes. De repente de um dos carros envolvidos no acidente surgiu um casal que se entregou a um longo abraço, beijando-se. Homem e mulher agradeciam ali a sorte que os premiara com a continuidade da vida. Escaparam ilesos. Comemoravam a vida.

Acidentes acontecem e com vítimas. Inesperadamente. Improváveis parecem acontecer por puro capricho como se coisas inanimadas se revoltassem e passassem a expor suas energias armazenadas.

Foi assim em Beirute. A vida na região do porto da capital libanesa seguia a rotina diária a que os habitantes da cidade estão habituados. Até que algo rompeu, dramaticamente, o equilíbrio de forças disponíveis no lugar. Inesperadamente verificou-se grande explosão, imediatamente seguida por outra de grande magnitude. Tão violenta foi a segunda que teve como consequências a morte de mais de uma centena de pessoas, milhares de feridos e enorme destruição de prédios, automóveis etc. O próprio porto, fundamental para a vida econômica do país foi arrasado. Hoje publica-se que metade de Beirute foi destruída.

As imagens do terrível acontecimento correm o mundo e nos assustam. Não só por perdas humanas e materiais estamos assustados. Perguntas sobre as razões de tamanho acidente pairam sobre as nossas cabeças. Fala-se no armazenamento descuidado de substâncias que, de hora para outra, poderiam causar a grande tragédia a que assistimos.

Em Beirute o inesperado entrou em ação, provocando perdas de muitas vidas e enormes prejuízos a um país que já atravessa difícil momento em relação à economia. Inesperado esse que talvez pudesse ser evitado fato esse ainda mais constrangedor.

É certo que as pessoas que morreram em decorrência da explosão não fariam ideia de que, naquele dia, suas horas de vida estariam contadas. Foram vítimas, talvez, do descaso no controle do armazenamento de substâncias de grande poder explosivo.