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Vingança de Plutão

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A pandemia provocada pelo coronavírus avança. A cada dia mais pessoas são contaminadas e cresce o número de óbitos em todo o mundo. Para impedir a progressão da pandemia foi dado o toque de recolher: ninguém deve sair às ruas, comércio fechado, empresas paradas, férias coletivas, escolas sem aulas etc. Imagens de cidades do mundo mostram recolhimento. A ordem é ficar em casa. No Brasil trava-se batalha entre o presidente da República e governadores de estados que ordenaram a paralisação geral. Na contramão do mundo o presidente prega o retorno às atividades, isso para evitar a recessão econômica. Contra ele se erguem sanitaristas, inclusive a própria Organização Mundial de Saúde.

Por outro lado, correm por aí as mais diferentes hipóteses para explicar o aparecimento do vírus, algumas interessantes. Uma delas é a que propõe ser o vírus consequência do uso da tecnologia 5G pelos chineses. O uso do 5G teria proporcionado o aparecimento do vírus e a doença cujos primeiros casos ocorreram em território chinês.

Mais interessante é a hipótese de que o povo de Plutão teria enviado o vírus para a Terra. Essa hipótese corre por aí e tem muito adeptos. Não há que se negar alguma lógica nessa hipótese. Como se sabe o povo de Plutão, de tempos para cá, tem sólidas razões para estar muito revoltado com os terráqueos. Hão se lembrar da grande humilhação infligida ao povo de Plutão quando da decisão de destituir aquele corpo cósmico da categoria de planeta. Foi rebaixado à triste condição de planeta-anão. No passado o sistema solar contava com nove planetas, agora só oito com a exclusão de Plutão. Nas escolas da Terra as crianças aprendem sobre oito planetas com total desprezo a Plutão que não passa de um anão.

Como se vê o povo de Plutão, humilhado como foi pelo rebaixamento, tem, sim, forte razão para alimentar ódio em relação aos terráqueos. Daí seus mais eminentes cientistas terem preparado esse terrível vírus que ora paralisa o mundo e tanto sofrimento tem causado por aqui.

Novas hipóteses aparecerão, tenho certeza. De minha parte creio estar resolvida a origem do coronavírus: trata-se de vingança de Plutão…

Medo e insegurança

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A percepção do perigo gera o medo. Pandemia declarada, medidas restritivas instauradas, as pessoas têm a liberdade de ir e vir restringida. As aglomerações estão proibidas. Fronteiras fechadas, viagens canceladas. Restaurantes, bares, casas noturnas, shows, cinemas, competições esportivas, tudo, tudo mesmo, suspenso por prazo indeterminado. Ambiente severo, marcado por medo e insegurança, caldo de cultura para crises depressivas.

De repente o mundo vai parando. Nas ruas pouco trânsito. Quase ninguém circula na cidade deserta. Cidades litorâneas fecham praias, hotéis são impedidos de receber turistas, chega-se a propor o fechamento de estradas. Escolas sem aulas, famílias em casa. A situação simula novelas fantásticas nas quais o surrealismo surge como fato acontecido.

As notícias chegam através de jornais. televisão ou pelo rádio. Não há outro assunto que não a pandemia e suas consequências. Bolsas de valores de todo o mundo despencam. O dólar atinge patamares nunca observados. A crise mundial assusta. O comércio fecha. Fábricas de veículos param a produção e dão férias coletivas. Fala-se em demissões em massa de trabalhadores. O mundo desanda.

No varejo das relações vigora o medo da transmissão da doença. A pessoa com quem se encontra, estará ela infectada e em situação de transmitir o vírus? Devo entrar no elevador com alguém que não conheço? O álcool gel deve ser usado a todo transe? As crianças não correm risco? Os idosos…

Medo e insegurança. Com tudo parado os trabalhadores se veem acuados pela crise. Não se fala abertamente, mas como a economia informal é grande muita gente vai enfrentar a fome. Pessoas que se sustentam de pequenos negócios simplesmente não têm para onde recorrer. Essas pessoas não ficarão em casa. Recomendações para evitar contaminação talvez não surtam efeito quando o assunto é falta de tudo, mormente de alimentos. Um colaborador que trabalha na empresa me contou sobre seu conhecido, proprietário de um mercadinho no centro da cidade. Segundo me disse o colaborador o proprietário foi avisado por fregueses, para que fechasse o estabelecimento porque em poucos dias correria o risco de saques. Quando a fome falar mais alto sabe-se lá o que poderá acontecer. Alarmismo? Quem sabe…

Depressão

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Um amigo está confinado a alguns aposentos de sua casa. Meses antes foi internado em hospital com diagnóstico de doença pulmonar. Em alta, voltou à rotina diária. Agora está sob a ameaça da pandemia causada pelo coronavírus. Acaba de ser orientado pelos médicos para não se expor a nenhuma possibilidade de contágio.

Em conversa telefônica o amigo me diz que se sente deprimido. Isolado da família e recluso por conta da doença as horas demoram a passar. A situação figura-se insolúvel por tempo indeterminado. Na despedida fiquei à disposição dele para qualquer necessidade de contato.

Pelé dá entrevista à CNN e nega que esteja deprimido. Tempos atrás o filho do Rei afirmou que o pai se deprimira face aos problemas relacionados à mobilidade. Na entrevista Pelé negou a depressão e disse que, entretanto, preferiria ter comparecido sem ajuda do andador.

Jornalista conhecida que comanda programa televisivo de entrevistas declara voltar aos telejornais para afastar a depressão.

Muita gente anda por aí com sintomas de depressão sem se dar conta disso. Dores pelo corpo, irritabilidade, falta de sono ou dormir em excesso, sentimento de culpa, desânimo, falta de energia e outros sintomas despertam o alerta em relação à possibilidade de crises depressivas. A depressão se caracteriza quando os sintomas se arrastam por algum tempo.

Quando o assunto é depressão inevitável não trazer à memória o caso de um rapaz que atravessou ciclo depressivo com final infeliz. Casado, teve a infelicidade de descobrir-se traído pela mulher a quem amava profundamente. A descoberta tornou-o infeliz e depressivo. De nada valeram tentativas de fazê-lo recuperar o equilíbrio perdido dado que não suportava a ideia de a amada viver com outro. Eis que se suicidou. Andava pelos trinta e poucos anos, jornalista promissor e acabou metendo uma bala na cabeça.

No olho do furacão

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A Lua é um ponto do espaço frequentado pelos seres humanos. Habitado, o satélite também serve como ponto de conexão para outras viagens especiais. Pode-se ir à Lua com alguma facilidade dada a existência de naves que diariamente fazem o percurso, levando e trazendo passageiros. Estamos no mundo do filme “Ad Astra” no qual o ator Brad Pitt faz o papel de um astronauta em missão para encontra seu pai, também astronauta, desparecido há mais de 20 anos.

Estivéssemos no futuro - e as viagens espaciais fossem realidade - teríamos opções de sair da Terra, temporariamente ou não, fugindo de problemas como o da pandemia provocada pelo coronavírus. Mas, como isso ainda é impossível, o jeito é seguir as recomendações das autoridades sanitárias e proteger-se.

Na iminência da explosão de grande número de casos no país chamam a atenção os alertas para os grupos de risco, destacando-se idosos e pessoas doentes. Em particular aos idosos a situação se desenha como a presença de uma espada sobre as cabeças. Pessoas mais velhas correm mais perigo se infectadas devido ao sistema imunitário mais fraco em decorrência da idade. Esse fato, alardeado de mil maneiras, repetitivamente, torna-se assustador como não poderia deixar de ser. Em consequência instala-se certa crise de confiança nas possibilidades de sobrevivência entre as pessoas mais velhas.

O fato é que, a essa altura, aproximamo-nos do olho do furacão. A despeito de todos os pronunciamentos e previsões o número de casos começa aumentar. Daí esse olhar preocupado que se estampa nas face de muita gente, mormente na dos idosos. Na portaria do prédio ouvi de uma senhora a pergunta sobre se sobreviveríamos a mais essa ameaça. Ao que outra senhora lembrou de que já passamos por tantas, e dobramos bem, que não será desta vez que seremos pegos.

Os próximos dias serão tensos com o agravamento da crise que se inicia. O presidente da República ignora ameaças e aparece em público mesmo estando em período de observação. Nos estados governadores apressam-se na adoção de medidas rumo à paralização. Nos próximos dias, com a escalada da epidemia, a paralisação total talvez venha a ser inevitável.

Resta-nos acompanhar a marcha dos acontecimentos.

A epidemia

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Não se fala em outra coisa que não a epidemia pelo coronavírus. É o assunto do momento, em toda as rodas. Em bares, restaurantes, festas, reuniões familiares, enfim todo lugar onde mais de uma pessoa esteja próxima. Ao que parece que se está diante de uma hecatombe do tamanho de que houvéssemos recebido a notícia de que um fenômeno atmosférico houvesse alterado a trajetória da Lua, agora em rota de colisão com o nosso planeta. Enfim, há medo. Medo de que com tantas reiterações sobre cuidados para evitar a disseminação do vírus talvez exista algo muito grande de que não fomos informados. Isso é o que se diz, a boca pequena, diante do reduzido número de casos da doença no país - até agora, é bom que se diga.

As autoridades fazem a sua parte. Estabelecem normas, suspendem aulas em escolas, impedem manifestações nas ruas, qualquer reunião acima de 500 pessoas está proibida. O Estado se previne: se a coisa desandar, se de repente o número de casos explodir poderá se dizer: as medidas de prevenção foram tomadas corretamente.

Entretanto, grande parte da população parece fazer ouvidos moucos a tudo isso. Nas ruas não se respira o clima de uma ameaça real sobre as cabeças. O número de infectados até agora parece não impressionar. Daí que numa volta de carro pela cidade o que se vê é a absoluta normalidade esperada para uma noite quente de sábado. Bares e restaurantes lotados, trânsito lento nas avenidas, muita gente transitando nas calçadas.

Esse ambiente de calmaria, contrastante com tantos alertas sobre o perigo da expansão da epidemia, me faz pensar num conto de Edgar Allan Poe chamado “A máscara da morte rubra”. No Conto Poe narra sobre uma festa à fantasia num castelo enquanto fora dele graça grande epidemia de peste. Aos convivas, naturalmente, nada faz lembrar a grande desgraça que ocorre fora das paredes do castelo. É quando um estranho convidado se apresenta. Ele é a própria peste que se espalha entre os convivas.

Não será esse o caso do que deverá acontecer aqui nos próximos dias. Nenhuma peste invadirá nossas casas, nem seremos contaminados por um vírus que poderá provocar a morte de tanta gente. Mas, as autoridades insistem. Isso nos leva a pensar que talvez tenham eles conhecimento de dados que não divulgam, mas que de fato representam grande perigo iminente.

Será?

Pandemia e idosos

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De repente o mundo começa a parar. O pânico se espalha. Um novo vírus ameaça a humanidade e os homens se desesperam ante a iminência de serem infectados. Na Itália tudo está fechado. Aqui os casos avançam, mas ainda não se justificam grandes paralizações.

Para quem tem mais de sessenta e cinco anos o perigo é maior. A capacidade de resistência do organismo dos idosos pode não fazer frente ao ataque viral. Daí que para quem está nesta faixa as coisas não se pareçam tão tranquilas.

Tenho a impressão de que por mais que alguém se prepare durante toda a sua vida para a velhice ela sempre chegará como pacote fechado e duro de engolir. Não se trata apenas das marcas do envelhecimento sobre o aspecto externo. Há muito além disso. Em alguns casos chega-se à dificuldade em aceitar as limitações da nova condição. O corpo que já não responde facilmente a movimentes antes executados com tanta facilidade é apenas um dos tormentos que se agravam paulatinamente. Tormento ao qual se acrescentam as necessidades de doses diárias de certos medicamentos - ingerem-se pelo menos alguns comprimidos por dia quando não muitos em casos de doenças estabelecidas. E inúmeras coisas mais.

Mas, a velhice também traz certa mudança no modo de ver as coisas. Verdade que muitos chegam a ela enrijecidos, senão revoltados. Entretanto, um novo olhar não é incomum. Um pouco mais de paciência diante dos descaminhos das gentes e do mundo pode surgir. Há certa compreensão de que erros fazem parte da rotina dos seres humanos e devem, na medida do possível, serem tolerados.

Um amigo idoso me diz que aguarda pelo coronavírus sem grande preocupação, pelo menos por enquanto. Lembra ele que, afinal, o número de casos no país não é grande, mormente se lembrarmos que aqui vivem cerca de 240 milhões de pessoas. Afirma que a gripe espanhola de 1918 matou 100 milhões de pessoas no mundo, 35 mil delas no Brasil. Estamos muito longe disso. Completa, repetindo o que dizem as autoridades médicas: nas próximas três semanas saberemos se a pandemia de fato atingirá muita gente.

Digo ao amigo que, entretanto, alguns especialistas estão esperando pelo pior. O que me devolve aos anos 70 do século passado. Naquela ocasião uma epidemia de casos de cólera atingira a Itália. Temia-se a chegada do Vibrio colerae, bactéria causadora da doença, ao país. Em reunião, a portas fechadas, um corpo clínico de infectologistas estimava perto de 1 milhão de mortes caso a doença atingisse a cidade de São Paulo. Tal número baseava-se na precariedade das condições sanitárias da periferia da cidade, desassistida de sistemas de água e esgoto. Recorde-se que a cólera é adquirida por ingestão de alimentos e água contaminada pelas fezes ou vômitos de pessoas doentes. Mas, felizmente, a temida bactéria não apareceu por aqui e não houve a epidemia.

Não é o caso do coronavírus que já desembarcou no país. O que se pode fazer é seguir à risca as orientações de visam impedir a propagação do vírus. E torcer para que a doença não se espalhe.

Atahualpa e o jogo de xadrez

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No livro “História universal da Infâmia” o escritor argentino Jorge Luis Borges refere-se a Atahualpa, décimo terceiro e último imperador inca. Atahualpa era filho do imperador Huayna e tinha um meio-irmão, Huascar. Ao morrer Huayna deixou testamento, dividindo o império entre os dois filhos. Entretanto, Huascar queria todo o governo, estabelecendo-se a guerra entre os dois irmãos. A vitória final pertenceu a Atahualpa que, em seu retorno à capital, junto de um exército de 30 mil homens, recebeu convite do explorador espanhol, Francisco Pizarro, para um encontro numa pequena cidade.

Poderoso e proprietário de grandes tesouros Atahualpa compareceu ao encontro carregado em um trono de ouro, acompanhado por soldados desarmados. Ao chegar, um frade apresentou a ele uma bíblia exigindo o juramento de submissão ao rei Carlos V. Irritado, Atahualpa atirou a bíblia no chão. Nesse momento Pizarro mandou seus homens atirarem, tendo sobrevivido apenas Atahualpa que foi preso. A emboscada surtira efeito.

Durante o período de prisão de Atahualpa os espanhóis jogavam xadrez. Borges nos diz que Hernando Soto, um dos conquistadores do Peru, distraiu os meses de prisão do Inca Atahualpa, ensinando-lhe o jogo de xadrez.

Consta que durante uma partida entre os capitães Soto e Riquelme houve interferência de Atahualpa. Soto preparava-se para jogar quando Atahualpa tocou em seu braço, indicando-lhe escolher o movimento da torre. Alertado, Soto movimentou a torre e conseguiu o xeque-mate.

Tempos depois Pizarro reuniu seu conselho de 24 juízes para definir o futuro de Atahualpa que foi condenado à morte por 13 votos a favor e 11 contra. Entre os votos favoráveis estava o Riquelme, sendo impossível saber se fora por vingança à derrota no xadrez. A crença popular é a de que Atahualpa não teria sido condenado se não houvesse aprendido a jogar xadrez.

Atahualpa foi enforcado embora seus súditos tenham pago um resgate fabuloso em ouro.

O dólar

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Nos anos 70 e 80 o assunto era a dívida externa. O país devia bilhões de dólares e não tinha como pagar. Terminado o governo militar, já no governo FHC, as reservas brasileiras passaram a se equilibrar até superaram a dívida nos anos seguintes. A dívida ainda existe, mas quase não se fala sobre ela. O tema do dia é o PIB baixo e a desvalorização do real frente ao dólar.

Crises mundiais, queda nas bolsas de valores, ameaças de epidemias, tudo influi na variação do câmbio. E o dólar atinge patamares exorbitantes. Está-se na margem do cinco para um.

Além das enormes consequências no meio dos negócios fala-se bastante sobre dificuldades enfrentadas por brasileiros no exterior. De repente lá fora ficou tudo muito caro. Um comediante relata que pagaram, ele e a mulher, oitenta dólares por uma refeição trivial. O troco a que tinha direito seriam vinte dólares, mas havia a taxa de serviços. Na piada ele conta sobre a garçonete que perguntou a ele se queria o troco. Mas, se o troco, vinte dólares, seriam cem reais…

Houve tempo, depois do fim do fim do governo militar, em que o dólar foi pareado a um para um com nossa moeda. Ir ao exterior, EUA por exemplo, era uma delícia. Então tudo parecia muito barato aos brasileiros. Hoje tudo é muito diferente. Uma migo acaba de voltar de Nova York e me relatou que lá se sentiu pobre. Olhe que ele está bem de vida. Disse a ele que parasse de chorar sem motivo. Mas, o que ele estava mesmo era indignado com a desvalorização do real. Contou-me que saiu com amigos americanos para um jantar em restaurante de nível médio, nada chique etc. Eram seis pessoas. Pratos individuais. De bebidas foram duas garrafas de vinho e duas doses de uísque. A conta veio salgada: 650 dólares. Isso vezes 4,5 chega a quase três mil reais. Entretanto, para os americanos, o custo foi de cem dólares por pessoa. Aqui seriam perto de quinhentos reais por cabeça, um absurdo…

De nada valeu usar com o meu amigo a conhecida máxima: quem converte não se diverte. A disparidade pesa e suas consequências sociais em nosso país vão muito além do relatado sofrimento de turistas ocasionais.

Falo sobre o assunto após ter lido artigo de jornalista no qual relata suas experiências ao tempo de sua juventude. Fala ele sobre viagens ao exterior, pouco dinheiro no bolso, hospedando-se em hotéis muito baratos, fazendo uso de transporte público e fazendo refeições triviais. Conheceu a Europa assim e diz que hoje em dia isso se tornou impossível aos jovens, fato que lamenta.

Inflação e custo nas empresas são efeitos da alta do dólar, afetando o dia-a-dia da população. Segundo consta não existe no horizonte perspectiva de que essa situação regrida, pelo menos em pouco tempo.

Praias

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Nunca fui adepto de praias. Nascido e criado nos altos da Mantiqueira só conheci o mar no início da puberdade. Além do que desde cedo fui desestimulado aos chamados esportes náuticos. Nadar, nem pensar. O fato de ter perdido dois irmãos por afogamento estabeleceu-se como barreira em relação a aventuras em rios e mares. Nem mesmo a pesca me atraiu. Havia sempre uma sombra de receio em relação aos perigos iminentes de vir a ser afogado. Talvez por isso mesmo as viagens em barcos ou navios de cruzeiros sempre me dessem nós na garganta. Em Salvador participei de passeio de barco às ilhas próximas. Retornávamos de Itaparica quando fomos colhidos por uma tempestade. Mar revolto, os turistas presentes na pequena embarcação puseram-se a rezar. Ondas altas levantavam-se, por vezes cobrindo o barco. Na ocasião não cheguei a temer pela vida. Assenhorado por confuso sentimento de eternidade decidi que não seria ali o meu fim. Não foi. Retornamos a Salvador sãos e salvos.

Noutra ocasião, a bordo de um navio de cruzeiro, fui surpreendido por grande tempestade no litoral de Santa Catarina. Tão grandes vagalhões levavam o navio a balançar muito. Assim o jantar não pode ser servido e ondas gigantescas atingiam mesmo as partes altas do navio. Pessoas passando mal, desespero de alguns, aquilo foi terrível. Na manhã seguinte, durante uma escala, grupos de passageiros decidiram desembarcar. Voltariam às suas casas por outros meios de locomoção, não seguindo adiante na viagem cujo destino era Buenos Aires.

Mas, às praias. A minha familiaridade com o mar aconteceu pelo fato de morar, justamente, em cidade do litoral. Ocorre que a par das belíssimas manhãs e entardeceres, proporcionados pela presença do mar, também se convive com momentos em que as águas invadem a areia. Perdas consideráveis acontecem quando as águas chegam aos prédios, invadindo garagens e danificando veículos.

No momento a Baixada Santista ressente-se do efeito de grandes tempestades que assolaram a região. Antes delas o mar bastante revolto cobriu a areia, chegando até mesmo à avenida em alguns pontos. As imagens da violência do mar impressionam. Como são impressionantes as imagens dos deslizamentos de morros que vieram abaixo, soterrando casas e roubando vidas.

Notícia de hoje, divulgada pela revista Nature Climate Change, informa que metade das praias de areia do mundo poderão desparecer até o ano de 2100. Isso devido ao aumento do nível dos oceanos em função das mudanças climáticas. Mesmo que se consigam significativas reduções de gases de efeito estufa, ainda assim mais de um terço da costa está ameaçado. Importante lembrar que as praias de areia se constituem num freio contra tempestades e inundações. Sem elas os impactos de fenômenos climáticos extremos seriam mais fortes.

O alerta publicado pela Nature Climate Change chega num momento em que políticas adotadas por governos de alguns países têm mostrado grande desprezo em relação a acordos climáticos. Esse fato, infelizmente, contribuirá para que tal previsão possa se concretizar.

Chuva

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Estrada interditada. Informa-se sobre a queda de barreira. Não há previsão para liberação do trânsito. Dentro do carro, em meio a gigantesco congestionamento, o rádio surge como único companheiro. Com ele o motorista dialoga, ouvindo informações e, talvez, um pouco de música. A chuva não dá tréguas. O ruído das gotas, martelando na lataria do carro, incomoda. Pelo para-brisas vê-se um pedaço do céu, escurecido pelas nuvens carregadas. No rádio uma repórter avisa sobre alagamentos. Casas com água na meia altura da parede, famílias que perderam tudo. A tempestade realça a miséria. Autoridades atribuem a desgraça ao volume excessivo de água caindo do céu em período curto. Explica, mas não justifica. Um político de oposição berra que, entretanto, em períodos mais secos nada se faz para, pelo menos, minimizar os efeitos das chuvas. Deslizamentos de morros, casas vêm abaixo. Pessoas soterradas. A cada hora anuncia-se a descoberta de mais uma vítima fatal. Um morador conta sobre o momento em que o chão do lugar onde mora tremeu. As árvores tremeram. Um casal de idosos, pressentindo a catástrofe iminente, decidiu sair de casa. Os dois estavam na escadaria quando a terra cedeu e veio abaixo. Foram colhidos pela avalanche. Até agora, diz o homem, os corpos não foram encontrados. O prefeito da cidade atingida vem a público para esclarecer sobre medidas de socorro aos que tiveram que sair de suas casas. Locais preparados para receber pessoas, igrejas… Muita gente, em desespero, agradece por pelo menos terem se salvado. A repórter volta para noticiar a morte de dois bombeiros. Tentavam salvar uma criança quando soterrados por um deslizamento. São heróis - repete o radialista de plantão no estúdio da rádio.

O trânsito segue parado e não há perspectiva de que venha a ser liberado. É quando a memória traz de volta um conto de Julio Cortázar cujo título é “A autoestrada do Sul”. No retorno a Paris, após o feriado, um grande congestionamento. Horas parados no mesmo lugar os viajantes descem dos carros e travam conversas. Um deles trava contato com a motorista do carro ao lado do seu. Nas horas que passam entre os dois se estabelece uma promessa de futuro relacionamento. É quando o trânsito reabre. As pessoas correm para seus carros e inicia-se o retorno a Paris. Em vão o homem tenta seguir o carro da mulher com quem se encontraria depois. Ele a perde, não pegou se endereço, tudo acabado.

Aqui, entre tantos carros, me pergunto se num deles não estará alguém como eu, alguém em busca de alguém. Tento ver pelo vidro molhado se nalgum carro próximo não estará uma mulher sozinha, alguém com quem eu pudesse entabular conversa que resultaria num encontro futuro, quem sabe ainda nesta noite. Mas, nada. Nada acontece exceto a chuva que não para. Não retorno de um feriado prolongado, não estou na autoestrada que conduz a Paris, nem há uma mulher com quem conversei e poderemos nos encontrar mais tarde. Só há esse enorme silêncio, cortado pelas gotas de chuva.