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Questão ambiental

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Seguem as acusações, de lado a lado, sobre o desmatamento da Amazônia. O presidente Bolsonaro taxa de mentirosos os índices divulgados pelo Inpe. A Alemanha e a Noruega deixam de mandar os milhões para preservação da grande floresta. O presidente reage dizendo que querem é comprar a Amazônia, que cuidem de suas próprias agressões ao ambiente.

O Instituto Imazon acaba de divulgar relatório que aponta um crescimento de 66% no desmatamento na chamada Amazônia Legal no mês de julho de 2019, em comparação com o mesmo período no ano passado.

Nessa história toda fica claro que, afinal, existe desmatamento. Mas, não há como aceitar o tom impositivo com que os estrangeiros acusam o país. Apontam o dedo. No rádio um comentarista político afirma que Alemanha e Noruega nos tratam como se fôssemos selvagens ainda na pré-história. Fazem isso sem olhar para o próprio rabo, diz ele. Afirma que a Alemanha já quase não possui reservas. Da Floresta Negra alemã restam apenas 2%. A Noruega é responsabilizada pela chuva ácida.

A Alemanha se apressa em divulgar um vídeo, com legendas em português, mostrando suas reservas naturais. Busca contradizer as acusações que a ela fazem.

A questão ambiental preocupa. Embora o presidente norte-americano negue o aquecimento global é um fato. O verão europeu, por exemplo, caracterizou-se por temperaturas extremante altas e preocupantes. O degelo nas calotas polares é inegável.

O que se publica na mídia é que a imagem do Brasil anda em baixa no exterior. Não se pode negar certa conduta de superioridade das nações de primeiro mundo em relação ao Brasil. No fim das contas, o que se pede é prudência e entendimento. Mas, ao que parece, com a radicalização de posições, o entendimento custará a vir, se vier. Enquanto isso vamos vivendo sem olhar para a frente e sem imaginar que mundo será legado aos que vierem depois de nós.

Amigos e política

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As redes sociais mais destroem do que constroem. Para muita gente isso é mais que verdade. Mas, não significa que as redes não consigam mais e mais participantes. Para o bem e para o mal.

Nas redes o que está em jogo é a exposição. Num momento em que as polarizações estão ativadas os prós e contras são acelerados. Daí ser difícil entender porque algumas pessoas seguem na trilha, recebendo agressões tantas vezes desmedidas.

Semana passada um padre que conta com grande número de seguidores decidiu suspender a sua conta. Ele havia afirmado que pessoas presas por terem cometido crimes contra os pais, ou filhos, não deveriam gozar a liberdade concedida no dia em que os pais são homenageados. Como sempre existem os prós e os contras. Ao deixar a rede o padre alegou depressão por ter recebido agressões ao divulgar a sua opinião.

Quando o assunto é política as coisas se tornam mais complicadas. É comum que pessoas ligadas por laços de amizade se reúnam através das redes. Diariamente postam mensagens, comemoram datas, comunicam falecimentos etc. Mas, o caldo entorna quando alguém se dispõe a dar sua opinião sobre o jogo político.

Ano passado presenciei furioso embate nesse sentido. Amigos que se conheceram no antigo Ginásio - hoje Ensino Fundamental – reencontraram-se depois de garimpo atrás dos velhos colegas. Localizados, identificados, logo se puseram em uma rede na qual passaram a postar mensagens. O problema surgiu quando um deles passou a defender Lula que teria sido injustamente condenado e preso. De repente ouviram-se vozes dissonantes. Não demorou para que surgissem os defensores da Laja-Jato. De uma discussão pouco amistosa no início a situação evoluiu para troca de mensagens ofensivas.

A certa altura alguns dos participantes do grupo alegaram sair porque não aceitavam o petista. Por outro lado, o petista não poupou agressões que, aliás, brotaram de lado a lado. Foi assim que velhos colegas do tempo escolar, gente que não se via há 50 anos, desentenderam-se, irremediavelmente.

Noutra rede de colegas ao tempo de faculdade alguns dos participantes postam mensagens de teor político. Alguns dos participantes solicitam, com frequência, que os antigos companheiros falem sobre tudo, menos política. Mas, é preciso considerar a natureza de cada um. A política pode funcionar como espécie de ópio que apaixona. O homem é um ser político. De modo que para aqueles que tem a oportunidade de divulgar suas tendências a rede surge como oportunidade imperdível. Há que se doutrinar, convencer os outros… A ver no que vai dar.

Uso as redes para comunicações familiares. Ou contatos e comunicações necessárias. Trata-se de um excelente meio que agiliza procedimentos do dia-a-dia. Não sei dizer se as redes mais destroem que constroem.

Heróis

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Na mitologia o herói é filho de um Deus e um ser humano. Daí ser capaz de atos que humanos comuns não conseguem. Na sua condição intermediária, entre um Deus e um mortal, é movido por ideais nobres embora por vezes pratique atos como a vingança, mas agindo com justiça. Hercules é um herói desse tipo cuja vida, repetidamente, tem motivado filmes nos quais a tremenda força do personagem interpretado torna-o superior aos adversários que o enfrentam.

Mesmo seres humanos podem ser considerados heróis. São pessoas que eventualmente praticam atos interpretados como heroicos. É o caso de Joana D´Arc , até hoje considerada heroína francesa pela suas ações durante guerras de sua época. No Brasil considera-se Tiradentes como herói pela sua participação durante a Inconfidência Mineira, tendo sido enforcado por ordem do império português.

Outra categoria é a dos super-heróis criados nas histórias em quadrinhos e filmes. Os super-heróis são dotados de grandes poderes os quais utilizam em prol do bem-estar comum. De grande sucesso a série de filmes “Vingadores” na qual vários super-heróis se reúnem para combater o mal que ameaça destruir os seres humanos e a própria terra. Mas, há a recente Capitã Marvel, Aquamen e muitos outros.

Vez ou outra, vozes se levantam para eleger algum herói humano calcadas em atos considerados sugestivos para tal classificação. Mas, há também possíveis equívocos os quais despertam reações quanto ao que é considerado falso heroísmo, ou mesmo, atitudes não merecedoras do título de heróis.

No momento discute-se o fato do presidente da República abertamente classificar como herói um homem acusado e condenado por realizar torturas no período da Ditadura Militar. O Coronel Brilhante Ustra foi reconhecido e condenado por torturas por ele comandadas e realizadas. Mas, o presidente insiste na falsidade dessas acusações e, mais que isso, o tem como verdadeiro herói.

A disposição do primeiro mandatário do país em eleger como herói um homem sobre quem pesam acusações e provas de suas ações em casos de tortura tem despertado reações em vários níveis. De fato, seja pelo que for, Ustra não reúne características que permitam rotulá-lo como um herói nacional. Daí a impressão de que o presidente a cada dia se enreda num caminho difícil, constrangedor e, talvez, sem volta.

O BR-800

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João Augusto Conrado do Amaral Gurgel teve e realizou o sonho de produzir um carro genuinamente nacional. Assim, em 1988, iniciou-se a produção do BR-800 ancorada na venda de ações. Os investidores pagavam 3000 dólares pelo carro e metade desse valor no investimento em ações.

Pode-se ler na internet detalhes da histórica aventura de Amaral Gurgel. A mudança dos valores de IPI, realizada em 1990, prejudicou a Gurgel e favoreceu a Fiat. Com a nova tributação - passou de 5 a 10% - o preço do BR-800 ficou muito próximo ao do Uno Mille, carro melhor e mais espaçoso. Em 1993 verificou-se a derrocada da montadora brasileira que, um ano depois, encerrou suas atividades, deixando enormes dívidas.

Fui usuário de um BR-800 que recebi de parente próximo, um dos investidores da Gurgel cuja fábrica ficava em Rio Claro. Por ocasião do lançamento oficial do carro fomos convidados à fábrica. Naquele dia preparou-se em Rio Claro, na sede da Gurgel, evento para lançamento do carro. Os novos proprietários receberam as chaves de seus veículos e participaram de um almoço junto a outros investidores. Foi nessa ocasião que conheci Amaral Gurgel, também presente, e orgulhoso por produzir um carro 100% nacional.

Impossível, naquela ocasião prever os dissabores que viriam pela frente em período tão próximo. Mas, voltei de Rio Claro dirigindo o BR-800 e posso dizer que mantive o carro por cerca de dois anos.

A bem dizer o BR-800 era de fato econômico, mas carecia de conforto e mostrava-se aquém das necessidades em estradas. Bastante compacto, o carro fora desenhado de modo que os vidros de suas portas não permitiam boa ventilação interna. Mas, era um carrinho muito útil para circulação nas cidades, fácil para estacionar em pequenas vagas.

Isso não quer dizer que não tenha realizado com ele algumas viagens. Numa delas, entretanto, as coisas não ficaram muito bem. Naquela época eu me deslocava semanalmente entre Santos e São José dos Campos. Fiz esse trajeto sem problemas algumas vezes com o BR-800. Entretanto, certa ocasião, trafegava pela Via Dutra quando ouvi barulho estranho no motor. Com dificuldade cheguei a São José onde levei o carro a uma oficina. Danificara-se uma peça do motor e, a partir daí tínhamos um problema pela frente.

A questão era de que a tal peça não existia no mercado e estava em falta na própria fábrica da Gurgel, conforme fui informaram em contato que fiz com os fabricantes do carro. Nesse caso a solução foi produzir a peça, serviço que tomou dois dias do trabalho de um torneiro mecânico. Muitos testes foram feitos quanto à adaptação da peça produzida até se conseguir resultado satisfatório.

Naquela oficina entendi a dimensão do sonho de Amaral Gurgel e as dificuldades de sua realização. Fabricar um carro 100% nacional e disponibilizar serviços ainda que no próprio Estado de São Paulo mostrou-se tarefa de difícil realização.

João Augusto Conrado do Amaral Gurgel faleceu em 2009, aos 82 anos. Sofria do mal de Alzheimer. Destaque-se seu empenho e coragem ao assumir um empreendimento de grande envergadura na indústria automobilística brasileira. Foi um homem de visão que atuou num mercado dominado pelas empresas multinacionais, sem poder vencê-las.

Escrito por Ayrton Marcondes

7 agosto, 2019 às 4:07 pm

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Medalha de ouro

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Brian Yang conquista medalha de ouro para o Brasil nos Jogos Pan-americanos. Ele venceu um canadense na final de badminton. Badminton? Não é esporte muito conhecido no país. Se bem entendi assemelha-se ao tênis, mas ao invés da bolinha faz-se uso de um volante ou pena que é rebatido com as raquetes. Pode ser jogado individualmente ou em duplas.

O esporte das multidões no país é o futebol. Vôlei e basquete são importantes, mas não tanto quanto o futebol. Aliás, futebol diferente daquele jogado pelos norte-americanos. Trata-se, aqui, do onze contra onze e Deus nos ajude a conter as nossas paixões.

Há outros esportes para os quais nem sempre se dá a devida atenção. No campeonato Pan-Americano de Cheerleading, Evelyn Apolinária e Gabriela Cruxên, de 19 e 18 anos, respectivamente, trouxeram o bronze de Lima, no Peru, para o Brasil. Cheerleading? Cheerleaders são as animadoras de torcida. Nos EUA existem animados campeonatos de Cheerleading. Música, dança e elementos de ginástica são usados para animar as torcidas durante jogos de suas equipes. E o cheerleading já foi reconhecido como modalidade esportiva pelo comitê olímpico.

É conhecido que os atletas nacionais não contam com grande apoio em suas carreiras. Os resultados pouco expressivos obtidos pelos atletas do país em competições internacionais ficam na dependência do esforço e dedicação individuais. Medalhas de ouro surgem, mas não com frequência. Assim, o destaque conferido aos que conseguem conquista-las é mais que merecido.

O que se espera é maior atenção ao esporte brasileiro que, à carência de patrocínios, tem ficado aquém em relação aos resultados obtidos por atletas de outros países.

Dívidas

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Contas a pagar. Todo mundo tem. O problema é pagá-las. Pessoas de baixa renda podem supor que os mais abastados vivam com folga financeira. Nem sempre é verdade. A máxima de que se gasta dinheiro proporcionalmente ao que se ganha faz muito sentido. Há quem ganhe muito e gaste mais ainda. Talvez por isso cause tanto estranhamento saber que tal e tal pessoa está a dever milhões. Mas, não é ele que…

Recentemente, noticiou-se que um ex-jogador de futebol tem dívidas da ordem de 7 milhões. O ex-campeão de automobilismo deve aos bancos cerca de 22 milhões.

Não dá para imaginar como será receber um ou mais milhões por mês. Artistas norte-americanos vivem em mansões milionárias. Há quem tenha aviões a jato. Helicópteros e iates são comuns no mundo das pessoas abastadas. Mas, como se diz, dinheiro é vendaval. Escorregadio. Se não for bem cuidado esgota-se. Isso pode acontecer na fase em que o gastão já não tem de onde arrancar novos milhões. Acontece, por exemplo, a pessoas que se aposentam após rendosos anos de atividades esportivas. Não faz muito conhecido esportista confessou ter ido a bancarrota. Alegou passado no qual possuía muitos veículos e gastos com mulheres. Agora, aposentado do esporte, solicitava ajuda.

Cifras enormes sempre impressionam. Entre nós a Operação Lava-Jato trouxe à luz desvios gigantescos de dinheiro. Contas no exterior com cifras de milhões em nome de uma só pessoa nos deixaram boquiabertos. A pergunta sobre o que uma dada pessoa faria com aquele dinheiro todo permanece. Segundo o ex-governador do Rio, ainda preso, a continua apropriação de grandes somas se deveu ao fato de o poder ser muito perigoso e haver muito dinheiro. Pelo que ele não conseguiu se conter. Enfim, perdeu-se na promiscuidade da avalanche de dinheiro, corrompeu-se.

Cada um organiza sua vida em acordo com a realidade em que está inserido. Num país onde existem 12 milhões de desempregados e a pobreza existe falar em milhões roubados é inaceitável. Cabe às autoridades pronta resposta no combate à pobreza, ao desemprego e a punição dos que dilapidam os cofres públicos.

Presidentes

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O presidente dos EUA é o homem mais poderoso do mundo, não importa quem seja ele. Ainda assim corre riscos tal como outros mortais. Abraham Lincoln foi assassinado num teatro por um dos atores da peça a que assistia. Na noite de 15 de abril de 1985 John Wilkes Booth baleou a cabeça do presidente que se destacara por alcançar a abolição dos escravos em terras norte-americanas.

John Kennedy foi assassinado, em Dallas, em 22 de novembro de 1963. Seguia em carro aberto, ao lado de sua mulher, quando recebeu o tiro que tirou sua vida. Richard Nixon renunciou em 1974 em consequência do escândalo de Watergate.

No Brasil a República, proclamada em 1889, deu início à uma série de presidentes. Deodoro da Fonseca, o primeiro, governou até 1891 quando foi substituído por Floriano Peixoto. De lá para cá o cargo, como não poderia deixar de ser, foi ocupado por pessoas de variadas inclinações políticas, sociais e econômicas. Algumas dessas pessoas foram amadas polo povo, outras até odiadas. Getúlio Vargas tornou-se um ícone da classe trabalhadora, embora ditador na maior parte do tempo em que esteve no poder. Juscelino Kubistchek ousou deslocar a sede do governo para o Planalto Central e passou à história como o construtor de Brasília. Jânio Quadros renunciou ao cargo, traindo a confiança de milhões de brasileiros e lançando o país em interminável crise. Jango foi apeado do poder no golpe de 1964. Os ditadores militares só devolveram a democracia ao país em 1985.

Fernando Collor, eleito em 1990, renunciou em 1992. Fernando Henrique, sociólogo, esteve no poder por oito anos. Lula, metalúrgico, também governou por oito anos.

Costuma-se contar a história através da divisão em períodos presidenciais. Sob o comando deste ou daquele presidente tais e tais acontecimentos ocorreram. O futuro se encarrega de estabelecer julízos sobre a atuação de cada presidente nos períodos em que estiveram à frente do país.

Embora não exista novidade em nada do que foi escrito neste texto o fato é que nunca é demais nos remetermos ao passado no sentido de buscar, senão comparações, possíveis ensinamentos sobre erros e acertos na condução do país. Há quem diga que a história nada ensina, que vasculhar o passado é inútil. Entretanto, olhando de longe talvez se possa, pelo menos, ponderar sobre a personalidade de homens públicos que encantaram seus eleitores e chegaram ao mais alto cargo público do país. Goste-se ou não de alguns, lembramo-nos deles segundo o que vivenciamos durante seus governos. Impossível, por exemplo, esquecer as cenas de desolação e o silêncio das ruas quando da renúncia de Jânio.

É olhando para o que já vivemos, buscando elementos de comparação que nos consolidem a opinião, que observamos a atuação dos homens que atualmente ocupam a presidência de seus países. Trump, Macron… Mais especificamente nos interessa a atuação do atual presidente de nosso país dado que dele emanam medidas que afetam o cotidiano de nossas vidas. Entretanto, mesmo sob o crivo de observações das mais genéricas, eis que nos vemos diante de um impasse. É que, em nossa história republicana, nenhum dos ocupantes da presidência mostrou-se com características comparáveis ao do atual presidente do país. De tal modo destaca-se ele de seus antecessores que se torna difícil, senão impossível, avaliar ao que terá vindo ao assumir o poder. Diante disso muito se especula em todos os meios de informação. Aos poucos a esfinge vai se desnudando, embora ainda não seja possível dizer com certeza se, afinal, fará ou não um bom governo. Bolsonaro ainda é uma incógnita.

Gabriela

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São passados quatro anos desde o dia em que deixamos você na campa do cemitério. Difícil entender como a vida de repente deixa de existir. Voltamos para casa sem você, capítulo encerrado. Encerrado? Jamais! A morte leva as pessoas, mas não apaga em nossos corações e memórias o transe da perda. Assim, você continua presente. O diálogo com os mortos permanece ativo. Não há dia em que eu não me lembre de você. Agora mesmo, olhando para cadeira vazia defronte a minha mesa, posso ver você na plenitude da juventude depois rompida pela doença que a levou.

Nunca saberemos se de fato existe alguma coisa depois da morte. O “outro mundo” afinal existe? A alma sobrevive ao corpo conforme nos garantem as religiões? Se assim for você estará por aí, em algum lugar, vagando no éter. E de lá poderá constatar que ainda sofremos com a sua perda.

Pois é. Os anos passam, entretanto, é como se tudo tivesse acontecido ainda ontem. Não foi há pouco que você me enviou aquele e-mail com o resultado da biópsia no qual se diagnosticava o carcinoma? E a ida ao médico? Lembra-se de que, no fim da consulta, pedi para você esperar fora da sala, alegando que precisava me consultar sobre um problema de saúde que na verdade não tinha? Pois naquele dia, naquela hora, naquela terrível hora, ouvi a sentença sobre o seu futuro entre nós: você vai perder a sua filha - garantiu o médico.

Dai para a frente foram três anos de luta permanente contra o câncer. Estive com você a cada passo, lembra-se? Sofrendo quieto. Assistindo ao avanço da doença que medicamentos e a cirurgia não lograram impedir. Quantas horas passamos juntos nas sessões de quimioterapia. Lembra-se daquele programa sobre emagrecimento que assistíamos nas tardes enquanto os soros corriam, lentamente, para dentro das suas veias?

E quanto à queda dos cabelos? Meu Deus, que triste. Os seus lindos cabelos caindo, arrancados pela brutalidade dos quimioterápicos. E as sessões de radioterapia que nos preocupavam porque àquela altura as metásteses haviam alcançado o cérebro?

Gabriela você lutou muito. Bravamente. Jamais ouvi de você uma só queixa. Enfrentou a doença e se submeteu ao tratamento sem jamais reclamar. Nem mesmo quando nos aproximávamos do final você fez uso de uma única palavra de revolta contra um mal que vinha ceifá-la em plena juventude.

Mas, o período final foi terrível. Aquela manhã em que fui buscá-la para irmos ao hospital e você me ligou, pedindo ajuda, porque não conseguia nem mesmo se vestir. O dia em que fomos à pneumologista para tratar das metásteses pulmonares que se espalhavam e já comprometiam a sua respiração. Ou a nossa ida a uma loja de materiais de construção na qual você, sempre guerreira, evitou o elevador e quis subir pela escada. Lembra-se? Pois não conseguiu passar do quinto degrau e tivemos - eu e o vendedor - que ajudá-la.

Repasso sempre os derradeiros dias em que você já não mais saiu do hospital. No último aguardávamos a sua inevitável partida. Você morreu na madrugada sem que eu estivesse ao seu lado. Cheguei minutos depois, gritei como um louco dentro do quarto. Abracei seu corpo ainda quente, mas já sem vida. Vi na sua axila a enorme bolsa gerada pela inflamação dos gânglios linfáticos. Chorei.

Você estava, finalmente, morta. Parara de sofrer. A estupidez da morte precoce abria um sulco incurável em nossos corações.

Lembro-me de seu rosto no último momento, antes que o caixão fosse introduzido na campa. Você estava linda. Parecia dormir. Dormira para sempre.

Saudades. Pai.

Escrito por Ayrton Marcondes

29 julho, 2019 às 12:12 pm

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De dentro do ovo

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Uma experiência realizada com ovos de gaivota de perna amarela tem resultado inesperado. Cientistas espanhóis separam ovos de uma mesma ninhada. Um deles permaneceu isolado. Os outros dois foram submetidos a situações estressantes como a possibilidade de ataque de algum predador. Depois os três ovos foram, novamente, reunidos. Os três demoraram mais tempo que o normal para se abrir, libertando os embriões. Quando aconteceu vieram os três na mesma posição de defesa como se estivessem ameaçados. A conclusão: embriões de aves, dentro dos ovos, trocam informações. A percepção de ameaças externas e o repasse de informações foi confirmado.

À primeira vista a experiência parece não ter maior significado. E daí? Daí que se torna impossível não se ponderar sobre a relação entre vida animal e a alimentação humana. No mundo 50 bilhões de aves são mortas por ano. Frangos são sacrificados com cerca de 45 dias de vida. Galinhas poedeiras vivem de um a dois anos quando sua expectativa de vida é de dez anos.

No veganismo propõe-se que o ser humano não é melhor, nem pior, que nenhum outro animal. Adeptos do veganismo boicotam empresas, organizações, atividades, etc. que usam animais. A dieta vegana é considerada por eles adequada para todas as fases da vida. Essa dieta é estritamente vegetariana, excluindo-se quaisquer alimentos de origem animal.

Vegetarianos também optam por dieta baseada em vegetais, mas, a diferença dos veganos, consomem alguns produtos de origem animal como lactáceos e derivados. Em suma os veganos são mais radicais que os vegetarianos. Trata-se de um estilo de vida que se contrapõe a toda forma de exploração e crueldade praticada contra animais.

Quem teve a oportunidade de assistir ao sacrifício de milhares de aves ou à morte de animais para fornecer carne a frigoríficos e açougues sabe que isso não se passa na ausência de sofrimento. É chocante presenciar ao golpe fatal que tira a vida de um touro, de um carneiro etc. Obviamente, não se pensa nisso na mesa sobre a qual se serve suculento churrasco. Nem se pondera sobre a vida perdida por aquele frango assado que acaba de sair do forno para compartilhamento durante a refeição. Entretanto, a experiência na qual se constata que mesmo embriões de aves, ainda dentro dos ovos, são capazes de transferir informações, levam-nos a pensar. Os seres cotidianamente sacrificados em prol da alimentação humana não desaparecem sem sofrimento.

A espécie humana domina o mundo tal como hoje o conhecemos. Mas, os animais possuem inteligência e vidas sociais complexas. Galinhas têm noção de futuro. Vacas fazem amizades. Todos animais sentem dor.

Não há igualdade entre as espécies. Mas, o sofrimento precisa e deve ser evitado.

Depois da morte

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Há quem se preocupe demais com o que será de seu corpo após a morte. Para essas pessoas é como se, mesmo após a morte, a ligação com seu corpo permanecesse ativa. Uma senhora me disse, certa vez, sobre o horror que experimentava ao imaginar seu corpo preso dentro de um caixão e sendo devorado por vermes.

Quem já presenciou uma exumação sabe bem como as coisas se passam. Num cemitério do interior estive presente na exumação do cadáver de uma mulher que, suspeitava-se, falecera em consequência do esquecimento de ferramentas cirúrgicas em seu abdômen. Terra removia, caixão na superfície eis que, ao ser aberto, dele surgiram baratas e outros insetos que se fartavam dos restos mortais. O forte odor de matéria em decomposição e a cena desagradável presenciada foram e são inesquecíveis. No final constatou-se, infelizmente, a presença de material cirúrgico no decomposto organismo da mulher.

A preferência pela cremação tem conquistado muitos adeptos. Com ela desparecem resquícios físicos da passagem dos seres humanos sobre o planeta. Após a cremação familiares recebem as cinzas daqueles que partiram. O destino dado às cinzas varia de acordo com os desejos dos familiares, muitas vezes atendendo a pedidos dos que faleceram. Há pouco tempo um casal de idosos veio a falecer com diferença de intervalo de poucos meses. Os filhos optaram por depositar as cinzas dos dois no solo, junto a uma árvore, numa propriedade rural da família. Em outro caso as cinzas de uma senhora foram lançadas ao mar.

Laboratórios de faculdades contam com a presença de cadáveres que servem ao estudo da anatomia humana. São mantidos em formol para que se mantenham conservados. Há quem doe seus corpos para que sejam utilizados após a morte. Outros cadáveres pertencem a indigentes e pessoas não identificadas. Existem casos relatados de pessoas que desapareceram e, mais tarde, foram identificadas, casualmente, com seus corpos em laboratórios. Na internet se lê sobre o caso de uma estudante que iniciou a dissecação do cadáver da sua avó. Tendo a avó optado por ceder seu corpo para estudos relata a neta visitas periódicas para rever o cadáver.

Por outro lado, não devemos nos esquecer daqueles que acreditam ser possível o retorno à vida mesmo muito tempo depois da morte. Existem locais onde corpos são mantidos em cápsulas que os protegem contra a decomposição de seus organismos. Sob temperaturas baixíssimas e preservando as estruturas orgânicas pretende-se retornar à vida em momento futuro no qual a evolução da ciência permita a reparação das causas que provocaram a morte.

O fim da vida é inevitável. O destino dos restos humanos nem sempre um problema de fácil solução. Noticia-se que na cidade de São Paulo cemitérios contam com grande número de ossos em sacos plásticos, muitas vezes sem identificação. O Serviço Funerário do Estado está a merecer a atenção dos governantes.

A morte é certa. Melhor não pensar nisso ou decidir sobre o que será de nossos corpos quando deixarmos esse mundo.

Escrito por Ayrton Marcondes

25 julho, 2019 às 11:29 am

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