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O ipê-roxo

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Minha tia temia muito o câncer. Consequência da vivência dela com o câncer que levara sua mãe, minha avó. A avó tivera um câncer de mama. Eram os anos setenta do século passado e a terapia contra esse tipo de tumor nem de longe se aproximava de recursos hoje disponíveis. Operada, submeteu-se à radioterapia num hospital da capital. A aplicação resultou em grandes queimaduras em seu tórax. A partir daí muito sofrimento. Lembro-me de minha avó sempre gemendo. Triste fim de vida para uma descendente de italianos que nascera juntamente com o advento da República no país, em 1899.

A geração anterior à de minha avó chegara ao país por iniciativa de D. Pedro II. O imperador trouxe imigrantes italianos para alojá-los na Serra da Mantiqueira, a maioria na região de São Bento do Sapucaí. A ideia do imperador seria a de estabelecer na região cultura de frutos conforme acontecia na Itália. O clima frio da montanha seria favorável a esse tipo de atividade agrícola. Vieram, assim, os Chiaradia, os Reale e tantos outros. Minha avó pertencia ao clã Chiaradia.

Depois do falecimento de minha avó minha tia tornou-se atenta a notícias sobre o câncer. Lembro-me de que ainda nos anos setenta circulou a notícia de que da árvore ipê-roxo se extraia uma espécie de suco que seria valioso na terapia cancerígena. Não sei se me falha a memória, mas, naquela ocasião, passaram-se a comercializar, informalmente, garrafinhas cujo conteúdo seria o extrato do ipê. Minha tia lamentou que sua mãe não tivesse alcançado essa possibilidade de cura de seu câncer.

É sabido que, de tempos em tempos, foram surgindo hipóteses, quase nunca apoiadas no meio médico, para tratamento de diversos tipos de câncer. De lá para cá tem-se verificado grande evolução nos meios cirúrgico, quimioterápico e radioterápico. Terapias paralelas com indução de combate direto a células cancerosas têm sido testadas, publicando-se alguns bons resultados. Entretanto, o câncer segue como desafio. Diagnósticos precoces da doença contribuem para que se logre a cura de processos que se complicariam com a passagem do tempo.

Mas, lembrei-me de minha tia por causa do ipê-roxo. Eis que hoje se divulga um estudo que foi finalista no prêmio Octavio Frias de Oliveira, na categoria inovação tecnológica em oncologia. Trata-se de projeto em que atuam, juntas as Universidades Federais do Ceará e de Minas Gerais. Um grupo de professores isolou do ipê-roxo substância análoga à beta-lapachona que é testada em droga para o tratamento do câncer de próstata. A patente já foi registrada nos EUA com ajuda da Universidade do Texas.

Recupera assim o ipê-roxo, árvore comum na Mata Atlântica, sua credibilidade na contribuição para o tratamento do câncer. Mas, minha tia não receberá a boa-nova. Ela faleceu em consequência de acidente automobilístico. Na ocasião seu corpo foi atirado pela janela do veículo em que estava tal a força do impacto durante a colisão. Operada em seguida, não resistiu, falecendo poucos dias depois, ainda no hospital.

Juízes

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O fato é: não sabemos em quem acreditar. Tamanha disparidade de opiniões deixa confusos pobres mortais não conhecedores das letras da lei. Quando o presidente do STF determina a suspenção de determinado tipo de investigação surge a pergunta do cidadão comum: mas, isso é correto? Quando o STF se põe a discutir a prisão em segunda instância o cidadão comum, acossado pela insegurança, se pergunta se isso não tornará o país mais perigoso. Que dizer de um procurador geral da República que, após deixar o cargo, publica livro no qual faz confissões estarrecedoras?

Isso sem falar na Lava-jato. Fomos convencidos da grande obra de procuradores que identificaram monstruosos desvios de dinheiro naquele que se tornou o maior caso de corrupção da história do país. Agora surgem comentários nos quais os mesmos procuradores são acusados de usos indevidos da lei, prejudicando envolvidos nas maracutaias.

Enfim, em quem devemos acreditar para colocar a cabeça no travesseiro e dormir sossegados porque existem pessoas cuidando da manutenção da lei no país?

Juízes. Aceite-se que são pessoas como as outras, expostas a erros e acertos. Há bons e maus juízes. Há aqueles que são acusados de corrupção. Mas, no geral, espera-se que ao optar por carreira tão importante o homem que se torna juiz empreste dignidade ao cargo. Isso aprendi com um tio que foi juiz em cidades do interior de São Paulo.

Eu era estudante, cursando o que hoje se chama Ensino Médio, quando fui morar em casa do meu tio. Pude acompanhá-lo no exercício de sua profissão, observá-lo nas muitas horas em que se debruçava sobre processos, analisando-os cuidadosamente. Certa ocasião eis que veio ele ao meu quarto, em meio à madrugada. Precisava conversar com alguém. Importunava-o sentença que deveria proferir, acossava-o a dúvida. Naquela madrugada expôs-me o caso, perguntando-me sobre a minha opinião. Sabia ele que, em verdade, eu não teria nada a acrescentar. Falava o juiz consigo mesmo, aclarando suas ideias. Não imagino qual terá sido a conclusão do caso. Mas, tenho certeza de que o juiz terá agido com a máxima correção.

Meu tio orgulhava-se de suas sentenças, muitas deles publicadas como modelo na Revista dos Tribunais. Quando surgia uma delas, publicada na Revista, ele me chamava e dizia: seu tio não tão pouco assim.

Talvez por ter convivido com um juiz tão sério eu tenha formado opinião bastante respeitosa em relação à categoria que decide sobre a vida de tanta gente. Por esse mesmo respeito tenho grande dificuldade em entender - e aceitar - tantas marchas e contramarchas de opiniões dadas por pessoas cuja função á fazer valer a lei e garantir o bem-estar comum.

Mas, esses são outros tempos.

Amigos

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Amigo é coisa pra se guardar, diz a letra da música. Há quem faça amigos com facilidade. Também há os que parecem espantar pessoas. Enfim…

De repente o telefone toca e surge uma voz que não ouvia há muito tempo. É ele. Convivemos muito no passado. Distanciados pela vida não mais nos vimos. Agora ele reaparecia como que surgido do nada. Avisou-me que morava na cidade, queria me ver, matar saudades.

Marchas e contramarchas vencidas eis que, finalmente, marcamos nosso reencontro. Antes da ocasião tentei recompor na memória detalhes sobre o amigo. Mas, como estaria ele agora? De que assuntos trataríamos? Agora que sucumbimos ao avanço dos anos estariam em pé coisas em que ambos acreditávamos e professávamos?

Marcamos num bar. Cheguei antes, arranjei-me numa mesa, chamei o garçom, pedi um chope, enfiei a cara no celular. De repente uma mensagem: o amigo iria se atrasar um pouco, demorara a sair de casa.

Quando ele chegou abraçamo-nos efusivamente. Estava mais velho, claro, mas era ele o companheiro de tantas. E nos debruçamos sobre o passado. Voltaram nossas noitadas de moços, namoradas que tivemos, tempos nos bancos da faculdade, destinos de ex-colegas etc. Fez-me bem lembrar-me de tanta gente de quem não mais ouvira falar. Então Fulana seguira seu plano de se mudar para os EUA depois de formada. Aliás, casara-se com um americano, seus filhos eram americanos. Aquele mulherão da nossa turma… Ela mesmo. Mas, Fulano de quem éramos mais ou menos próximos, esse morrera. Como? Ora, num acidente de carro, na Via Dutra. Ia para o Rio. Montara negócio lá. Deixara viúva e um filho que tentara manter os negócios do pai sem resultados.

O garçom estimulava a conversa, substituindo os copos vazios de chope. Até que saímos do passado e chegamos ao presente. Então, como estava o amigo? Não muito bem, contou-me. Avalizara um parente que não saldara o compromisso. A dívida, enorme, recaíra sobre ele. Agora estava mal das pernas. A mulher bem que o avisara, não assinasse nada pelos outros. E dera no que dera.

Aos poucos fui entendendo que o amigo não me procurara por ter saudades. Ele precisava de socorro, de dinheiro. As contas estavam atrasadas. Certamente eu me lembrava de um favor que me fizera quando me ajudou a pagar o mês de aluguel da república de estudantes em que eu vivera. Agora, chegara a minha vez de retribuir o favor, ainda mais com ele me contando sobre a doença da mulher, a urgência de certos pagamentos etc. Claro, não esperava que eu o salvasse, apenas que o ajudasse na emergência de momento.

A conclusão foi simples. Acuado, não tive como fugir. Preenchi um cheque com valor considerável e dei a ele. Depois disso ele alegou pressa. Tinha compromissos urgentes. Mal pegou o cheque foi se despedindo. Pela janela eu o vi atravessando a rua e desaparecer. Não cumpriria jamais a promessa de me devolver o dinheiro. Nunca mais o veria.

Sem perceber o meu copo estava vazio. O garçom me trouxe mais um chope que engoli devagar. Depois paguei a conta e sai. No metrô imaginei a decepção do amigo ao constatar que o cheque que lhe dera não teria fundos. Culpa da crise. Ela pegara todo mundo, ele, eu também.

Escrito por Ayrton Marcondes

14 outubro, 2019 às 1:19 pm

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Prêmio Nobel

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Era um rapazote quando encontrei, entre os livros de meu pai, um exemplar de “A ilha dos pinguins”. Li o livro do escritor francês Anatole France (1844-1921) em poucos dias. Achei interessante a sociedade dos pinguins, naturalmente arremedo da humana. Mas, com peculiaridades. Uma delas o fato de filhos, na hora do parto, serem perguntados se queriam vir ao mundo. É descrito o caso de um pai que faz a pergunta ao filho e recebe resposta negativa. O filho se justifica, explicando que justamente não quer viver por receber características semelhantes às do pai, na opinião dele um sujeito confuso etc.

Na capa de “A ilha dos pinguins” havia breve nota sobre Anatole France. Antes de ler o livro perguntei a um tio se conhecia o escritor, enfim se era bom. Ele me disse: bem, ele recebeu o Prêmio Nobel. Foi essa a primeira vez em que me preocupei com a imagem do Nobel. Afinal, qual o significado de alguém ser agraciado com um prêmio oferecido por uma academia sueca?

A história da criação do prêmio por Alfred Nobel, inventor da dinamite, é conhecida. Mas, o fato é que a cada ano eis que aguardamos os nomes dos agraciados em várias áreas. Mais que isso: afinal, o que fizeram para receber tal honraria?

Imagino que cada pessoa se interesse mais pelos agraciados cujos trabalhos se relacionem com suas áreas de atividade. No meu caso o interesse maior é dirigido aos prêmios de literatura e medicina. Neste ano ainda não foi divulgado o nome do escritor a receber o Nobel de Literatura. Divulga-se que cinco mulheres são as mais prováveis contempladas, naturalmente só uma delas. Entretanto, o Nobel por vezes nos surpreende com a premiação de alguém que não estaria entre os mais cotados.

O Prêmio Nobel também é conhecido por ausências notáveis. Na área de literatura grandes escritores foram negligenciados, não recebendo o prêmio. James Joyce, Émile Zola e Jorge Luis Borges, por exemplo, não foram agraciados.

A existência de um prêmio que eleja destaques da inteligência humana é importante. Confere ao nosso dia-a-dia segurança em relação ao tipo de ser que domina o planeta e dispõe de capacidade para contribuir com o bem-estar comum.

A vida é superação. Alfred Einstein nos alertou sobre isso quando afirmou: quando aceitamos nossos limites, conseguimos ir além deles.

A saúde na doença

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O Bernardo é um sujeito interessante. Sempre gostou de esportes daí o físico de quem malha pelo menos duas vezes por semana. Não faz o tipo entrão. Nem é muito falante. É daqueles que preferem ouvir antes de dar a opinião. Em geral se sai melhor quando o assunto é esporte. Apaixonado por futebol, torce para o Santos. Vez ou outra acompanha o time, vai ao estádio. É fervoroso e sofre nas derrotas.

Não via o Bernardo a algum tempo. Desta vez encontrei-o na rua e paramos para breve conversa. Mas, apague-se tudo o que foi dito no parágrafo anterior. A pessoa que encontrei não era “aquele” Bernardo. O homem diante de mim perdera o viço. Muito magro, abatido, mesmo sua a voz parecia gerada em profundezas pulmonares. Não chegava a assemelhar-se a gemidos, mas fazia-me lembrar deles.

Afinal, o que acontecera ao Bernardo? Onde a força e a disposição de outrora? Não tive coragem de perguntar. Conversamos e nos despedimos rapidamente. Mas, a imagem do Bernardo de agora calou-me fundo.

Foi o Fonseca quem em esclareceu o que acontecera ao Bernardo. Tempos atrás fora diagnosticado com a doença miastenia gravis. Nessa doença o sistema imunitário ataca a bainha de mielina que reveste os neurônios. Com o sistema nervoso afetado começam os sintomas. Incialmente cansaço que evolui para perda de força, fraqueza, dores, alteração do raciocínio e dificuldades motoras. Como a doença não tem cura os sintomas pioram. O diagnóstico se faz com exame de líquor, extraído da medula espinhal, e ressonância magnética. A doença é tratada com medicamentos, exercícios e descanso.

Pessoas que sofrem de miastenia costumam esconder a doença. O receio é que venham a perder seus empregos. Estatísticas mostram que 40% dos pacientes com miastenia estão desempregados.

O Bernardo sempre foi funcionário de um banco estrangeiro. Certa ocasião esteve por três anos nos EUA, trabalhando na matriz do banco. O Fonseca não soube me dizer se o Bernardo comunicou a doença à empresa onde trabalha. Aliás, disse isso e emendou: ele diz que goza de muita saúde na doença.

O garoto de 12 anos

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Crimes sempre impressionam. Alguns mais que outros por conta dos detalhes de sua execução. Vive-se a época de ascensão da criminalidade. Há medo. A próxima vítima pode ser você é tão real que cada um teme de fato ser o próximo.

A incontrolável sede de violência parece incontornável. Miséria, pobreza e déficits de educação compõem fértil caldo para ebulição de criminosos. Não há dia em que não se recebam notícias sobre assaltos, latrocínios, assassinatos, balas perdidas etc. E mortes. Inexplicáveis mortes que poderiam ser evitadas caso houvesse melhora das condições sociais e mais segurança. Mas, se mesmo as forças policiais são acuadas e cresce, entre elas, o número de suicídios de seus integrantes… O horror pode não ter limites.

Dias atrás um crime despertou a atenção pelo requinte de quem o realizou. Ao sair de uma sessão de exercícios físicos uma jovem, 19 anos, encontrou seu carro com o pneu furado. Um homem, solícito, ofereceu-se para ajudá-la. Do meio-fio o carro foi levado a uma chácara defronte, local onde se realizaria a troca do pneu. Mas, eis que o tão solícito homem era um criminoso há pouco saído de reclusão. O restante do caso soubesse depois. A moça despareceu. Em desespero a família acionou a polícia e puseram-se a procurá-la. Encontraram o corpo da moça enterrado na chácara. Depois prenderam o criminoso. Ele premeditara o crime, esvaziando o pneu para pegar a moça. Inenarráveis as cenas do pai da moça, inconformado com a brutal perda da filha.

Uma menina de 9 anos está na fila de um pula-pula. É uma festa escolar. Atrás dela um menino que mora na mesma rua que ela. Os dois costuma brincar e estudam na mesma escola. Ela tem dificuldade em se socializar. Há um ano foi diagnosticada com autismo e segue tratamento. Num momento a mãe deixa a menina na fila e vai, com o outro filho, comprar pipoca. Quando retorna já não encontra a filha.

Mais tarde o menino de 12 anos conduz a polícia até um lugar onde a menina é encontrada morta, amarrada a uma árvore. Está desfigurada. Apanhou muito e sofreu pauladas no rosto. Num dos braços traz amarrada uma meia masculina. Crime horrível, violência descabida, ato inumano contra uma criança. Mas, nos interrogatórios o menino acaba confessando ser o autor do crime.

Agora o garoto de 12 anos está na Fundação Casa, deixando, atrás de si, enormes questionamentos. Por que uma criança cometeria tal barbaridade? Será este um caso de desequilíbrio mental? O que fazer com um garoto de 12 anos que poderá, ficando livre, tornara cometer crimes tão hediondos?

O melhor é não ficar a par de acontecimentos como os aqui narrados. Eles nos tornam medrosos, ainda mais inseguros. Tememos por nós e pelos nossos. Pelos filhos, pelos netos, pela família. Pelas pessoas que conhecemos. Por aqueles que não conhecemos e nunca conheceremos. Pelas crianças. Pelo medo de que andem por aí outros garotos de 12 anos dispostos a cometer crimes.

Primavera

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Do que mais se fala? Da morte. Na mídia, articulistas abordam o assunto. Nas primeiras páginas notícias sobre mortes ganham destaque. Mas, que tipo de mortes? Afinal, do que mais se morre hoje em dia?

Morre-se de todo jeito, como sempre. Mas, o que ganha espaço no noticiário são as mortes devidas à violência. No Paraná um ex-marido vinga-se da mulher que não quis reatar com ele. Para isso sequestra o próprio filho e o leva numa viagem sem volta. Mete-se numa rodovia e joga o carro que dirige numa carreta. Pai e filho morrem. A promessa de morrer, levando consigo um pedaço da mulher, está cumprida. Resta a dor.

No Rio a tragédia envolve a menina Ágatha. Ela tem oito anos. É atingida por bala perdida. Levada ao hospital, não resiste. Em torno desse assassinato levanta-se a opinião. Protestos surgem de toda parte. A morte inaceitável gera, mais ainda, desconforto e medo às famílias. Hoje Ágatha, amanhã não poderá ser o meu filho?

Em meio ao sofrimento e discussões a primavera chega devagarinho às nossas casas. Veio mansinha, chegou ao alvorecer, sem ruído, quieta, sem estardalhaço. Abriu-se numa manhã chuvosa em que mesmo os pássaros talvez tenham decidido a se recolher.

Na rua em vão procurei por sinais da primavera. Onde as flores? Onde a alegria da nova estação que começa? Teria o mundo se congelado numa cena interminável de inverno?

Mas, eis que nem tudo está perdido. No sinal de trânsito, aí está a velhinha com um cesto de flores a oferecê-las aos sisudos motoristas. De repente, o milagre: flores na manhã cinzenta, trazidas por um anjo a nos lembrar que é primavera e a vida prossegue.

À hora do almoço imagens do enterro de Ágatha na TV. Flores sobre o pequeno caixão. Tributo a uma criança tão cedo levada pela morte. Muito triste.

E dizer que já é primavera.

A face

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Lembro-me sempre de Gregory Peck. Era, nas telas, o tipo de herói ideal. Inesquecível sua atuação como advogado em “O Sol é para todos” no qual defendia um negro acusado de estupro.

O cinema preserva imagens. Assim Gregory Peck sempre será lembrado em seu aspecto de jovem ou já na maturidade, homem alto, feições fortes e bem definidas. Mas, fora das telas Peck envelheceu como outros mortais. Observar a face do ator envelhecido nos traz o desconforto da constatação de que mesmo aqueles que tínhamos como heróis, os mais fortes, também eles sucumbem. É a lei da vida, a imposição da natureza, nada escapa a isso.

A cada manhã nos vemos no espelho ao cuidar da higiene pessoal. As muitas faces que tivemos sucedem-se, quase imperceptivelmente. Muitas vezes não nos damos conta de que, dia após dia, passo a passo, a juventude se desconstrói e a velhice se impõe. Mas, há um momento em que se torna impossível fugir à constatação do envelhecimento. É quando a face que o espelho nos devolve apresenta-se tão mudada e já não há como enganar-se a respeito.

Narciso era belo e as ninfas apaixonavam-se por ele que as rejeitava. O adivinho Tirésias dissera à mãe de Narciso que ele jamais poderia ver seu reflexo pois isso seria sua ruína. Eco, ninfa apaixonada por Narciso e também rejeitada, entristeceu-se e definhou. Dela se apiedou a deusa Nêmeses que puniu Narciso, fazendo-o ver o próprio reflexo. Então o jovem enamorou-se de si mesmo, sentou-se à beira do rio, observando-se e definhou.

Tudo passa. Seres humanos passam. Juventude e velhice compõe um quadro sombrio quando de comparam as duas fases da vida. Na internet é comum a publicação de fotos de pessoas famosas, comparando-as em sua juventude e em tempo atual. Envelheceram. Perderam a jovialidade e beleza. Aquela linda mulher de formas tão perfeitas como terá ela se transformado nessa senhora que em quase nada faz-nos lembrar do que um dia ela foi?

O espelho nos devolve a cada dia imagens que não prevíramos. Não há razão para desespero. Trata-se apenas do “cumpra-se o destino” para o qual fomos gerados.

Suicídios

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Foi na madrugada em um hospital. Eu acabara de receber a notícia da morte de minha filha e faltava-me o chão sob os pés. Ali iniciavam-se os terríveis procedimentos do post-mortem. Minha mulher foi ao Serviço Funerário da prefeitura para tratar dos mecanismos legais. Liguei para a empresa funerária para o traslado do corpo e entrei em contato com o cemitério para a liberação do espaço para o enterro. Coisas duríssimas. Desesperadoras. Às quais se seguiria o terrível momento do reconhecimento do corpo antes que fosse levado do hospital.

Mas, minha filha não se suicidou. Foi levada pelo câncer, doença contra a qual lutamos por quase três anos, sem vencê-la. Entretanto, naquele momento, logo após saber sobre minha filha morta, eis que me vi na recepção do hospital a esperar a chegada do pessoal da funerária. Seriam umas quatro da manhã. Ali, sentados a um sofá, estava um casal. O senhor, percebendo a minha aflição, acercou-se de mim, perguntando-me o que acontecera. Disse a ele que acabara de perder a minha filha. Para consolar-me ele relatou que dois meses antes também perdera uma filha. Foram, ele e a mulher, surpreendidos ao encontrar a moça morta em seu quarto de dormir. O fato fora surpreendente. Nada nos dias anteriores revelara qualquer intenção da moça despedir-se da vida. Ela não deixara nenhum bilhete, nenhuma explicação. Caso estivesse depressiva nos últimos tempos, escondera isso muito bem. De modo que os dois ali estavam, ainda combalidos, à espera de um filho que no momento passava por cirurgia.

De certo modo o caso da moça que se suicidara devolveu-me um pouco e equilíbrio. Aquilo funcionara com compartilhamento de um dor insuportável. Dor essa que, passados quatro anos desde aquela noite, ainda me incomoda bastante.

Se bem me lembro a primeira vez que ouvi falar em suicídio foi na minha infância. Um parente metera um tiro na cabeça por conta de ter perdido a mulher para outro homem. Apaixonado, não suportara a dor da perda. E se matara.

De lá para cá o número de suicídios tem aumentado. Há quem diga que, na verdade, hoje em dia o número de comunicados de suicídios aumentou, engrossando as estatísticas. Mas, o que se têm é a divulgação de cerca de 4,3 suicídios por dia no Brasil. Razões não faltam, entre elas a depressão. Há um aumento crescente do número de casos. Mais homens se suicidam, mas casos entre mulheres têm aumentado.

Por fim à própria vida é algo que foge à lógica de nossa preservação. Situações limítrofes levam pessoas ao ato extremo. Existem suicídios talvez explicáveis, ainda assim difíceis de aceitar. O caso do grande ator Robin Willians deu o que pensar. Doente e já sem perspectivas de cura ele enforcou-se em sua casa. Mas, ainda assim, fato que nos impressiona.

Há quem diga que o suicídio exige coragem. Outros o consideram ato de extrema covardia. O crescimento do número de casos em que pessoas tiram a própria vida é preocupante. São muitas os fatores que conduzem ao suicídio em geral ligados a quadros de depressão. Tentativas de suicídio envolvem o uso de medicamentos e venenos. Suicídios consumados resultam do uso de aramas de fogo, enforcamentos, etc.

A atenção a sinais que podem sugerir a tendência ao suicídio é importante. Diante do risco de alguém se suicidar devem ser empregados meios hospitalares e mesmo policiais diante de emergências.

Em cinco estados norte-americanos o auxílio médico à morte é permitido. Trata-se da assistência médica a pessoas que desejam por fim a suas vidas, em geral por portarem doenças incuráveis, evitando-se mais sofrimento.

Em boa hora os Ministérios da Saúde e da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos estão lançando, hoje, campanha de valorização da vida e combate à depressão com foco no público jovem.

Fake news

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A moda dos “fake news” segue adiante, confundindo as pessoas. Por vezes torna-se muito difícil separar o joio do trigo, a verdade da mentira. Deturpar as palavras de alguém virou rotina. Eis que o que teve seu discurso deturpado vem a público para desmentir o que não disse. Mas, é tarde. A fake já se espalhou a muitos crédulos passam a tê-la como verdadeira.

As redes socias são pródigas na divulgação das fakes. Alguém publica alguma coisa e, rapidamente, o texto é copiado, chegando a centenas de grupos. Acontece da fake ser tão bem elaborada, oportuna, que a adotamos como verdadeira. Daí os transtornos provocados.

Os meios de comunicação, em geral jornais, abrem sessões nas quais publicam desmentidos sobre “fake news”. Em épocas eleitorais as fakes são muito úteis para a condução dos mais desavisados a votos impensados. Há quem se eleja por conta de publicações favoráveis e nem sempre verdadeiras. Há candidatos que são muito prejudicados.

Mas as fakes sempre existiram, embora não tivessem esse nome. Em “O alienista” Machado de Assis descreve o modo de divulgação de notícias na cidade de Itaguaí. A coisa era feita através de um homem que percorria a cidade com sua matraca. Nas palavras do escritor:

“De quando em quando tocava a matraca, reunia-se gente, e ele anunciava o que lhe incumbiam, - um remédio para sezões, umas terras lavradias, um soneto, um donativo eclesiástico, a melhor tesoura da vila, o mais belo discurso do ano, etc.”

E Machado conta sobre um vereador da cidade sobre quem constava ser perfeito domador de cobras e macacos. Havia quem jurasse tê-lo visto com cascavéis dançando sobre o seu peito. Como o vereador mantinha sua fama? Machado explica dizendo que ele “tinha o cuidado de fazer trabalhar a matraca todos os meses”.

Enfim. Não sei se todos já ouviram o ressoar das matracas. Dos meus tempos de menino, no interior, lembro-me das matracas soando nos dias da Semana Santa. Um coroinha da igreja, devidamente trajado com sua túnica, seguia pela rua, matracando. Era um modo de lembrar aos mortais sobre os perigos do pecado e a importância da fé.

Cada época tem suas fakes, variando o meio de divulgá-las. O hábito de mentir também pertence ao homem.