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Um velho piano

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Um piano do século XIX foi encontrado na Academia Paulista de Letras. Esteve lá, ignorado, durante todo esse tempo. Supõe-se que tenha sido usado em saraus durante a Semana de Arte Moderna de 1922; há suspeitas de quem tenha sido o doador de vez que o piano não faz parte do ativo de compras da Academia.

Um piano que passa despercebido durante quase cem anos lembra os versos de Manuel Bandeira no poema “Última canção do beco”: intacto, suspenso no ar . Um afinador que o examinou identificou a procedência alemã e surpreendeu-se com o bom estado das cordas e teclas. Ainda que emudecido, o piano conservou-se, esquecido, mas talvez pronto a devolver aos ouvidos humanos os sons para os quais foi preparado.

Imagino as gentes de 22 ao lado do piano, talvez Mário de Andrade a correr os dedos no teclado, tocando alguma modinha ou uma peça revolucionária. Mário ensinava música, mas terá sido bom intérprete?

Objetos antigos que permanecem são pedaços de passado que se intrometem no presente. Trazem consigo sombras de momentos vividos e terminados, evocando passos agora inaudíveis. O piano da Academia fez parte de histórias de vida encerradas e conserva delas segredos e emoções. Ao vê-lo identifica-se apenas um móvel que, quando afinado, será usado em concertos, assim se espera. Mas, com ele virá, ao presente, o som de outro tempo que embevecerá ouvintes com apelos do passado. Infelizmente o piano não trará de volta os homens e mulheres que estiveram ao lado dele na Semana de 22. Os poetas, músicos, romancistas e ensaístas de 22 já não podem ser encontrados e retornar ao presente: ficaram lá, no palco de um teatro, sendo vaiados pelas plateias, como eles desaparecidas, fazendo história, transformando-se em fotografias e textos, eternizando-se como portadores de uma nova que atravessou décadas, intacta e definitiva.

Um velho piano, um mar de histórias.

Atrás da bola

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São dois gols, ambos tendo por traves pares de chinelos velhos. Entre um e outro poucos metros, as laterais do campo duas paredes acinzentadas.

Isso mesmo, o campo de futebol é um corredor, parte externa do apartamento onde mora o zelador, fundo do prédio, último andar. O jogador dos dois times é um menino que corre de um lado para outro com uma bola de borracha nos pés. No vai-e-vem, entre um gol e outro, ora ele usa a camisa de um time, ora de outro. Controlando a bola de repente ele é o craque de um dos times, depois do outro, dizendo nomes de jogadores que repete em voz alta, arfando o peito, correndo para fazer gols e mudar o placar.

Agora é o time da porta da cozinha que desce em direção ao gol do time da janela do quarto e faz um golaço; na volta o time da janela desconta, coloca a bola entre as traves do gol da porta da cozinha e o jogo está empatado. O menino corre de um lado para outro fazendo gols que soma, um a um. Até que chega ao 7×7 e se distrai com o cachorro que atravessa o campo, não sem protestos da torcida e dos jogadores. O menino, nesse momento juiz e locutor, expulsa o animalzinho do campo e prende-o enquanto irradia o fato em voz alta.

Os jogadores esperam o reinício da partida e voltam a correr. Os gols se sucedem, gol aqui, gol lá, num jogo que parece estar fadado a ficar sempre empatado. A coisa toda continua até que uma voz de mulher ecoa no estádio: é a mãe do menino que o chama para o jantar. É hora de acabar o jogo, justamente no momento em que o juiz marca um pênalti contra o time da porta da cozinha.

São 47 minutos do segundo tempo e o pênalti vai decidir o campeonato. O menino, jogador do time da janela do quarto, coloca a bola na marca de cal e olha para o gol à sua frente. No meio dos chinelos que demarcam o gol está um goleiro enorme que usa roupa preta e luvas.  O menino não se impressiona com ele. Vai para a bola, bate forte e é gol. Segue-se o ruído da torcida vibrando nas arquibancadas, o abraço dos jogadores e o apito final que dá a vitória e o campeonato ao time da janela.

Mas, não há tempo para erguer a taça. A mãe vem ralhar com o menino e, em um minuto, ele está sentado diante do prato de comida, transpirando muito, mas feliz pela vitória do time da janela do seu quarto sobre o da porta da cozinha cujo técnico é ela, a mãe dele.

Escrito por Ayrton Marcondes

4 setembro, 2010 às 11:19 am

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Fim de carreira

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O tema é recorrente, mas não deixa de impressionar. Trata-se do encerramento de carreira de jogadores de futebol. Chega o tempo de parar e, em geral, a decisão vai sendo adiada, até que o desgaste físico se torna irreversível.

Talvez nenhuma atividade seja tão maldosa com os seres humanos quanto o esporte profissional. Grandes ídolos, habituados à badalação, quando não idolatria do público, da noite para o dia transformam-se em página virada, sendo condenados ao ostracismo. Afora uns poucos que, por uma razão ou outra, depois de parar conquistam algum espaço na mídia a maioria retorna ao convívio dos mortais comuns, longe dos holofotes.

O esporte profissional que agracia os melhores com fama e muito dinheiro é também um devorador de homens. A glória que se apoia em dotes físicos sucumbe na velocidade do envelhecimento. As exceções glorificadas como Pelé - o eterno ídolo - e alguns outros não passam de casos isolados.

Escrevo sobre isso após ler que David Beckham, agora com 37 anos e há cinco meses parado por conta de uma contusão, está de volta ao futebol. Beckham, um dos maiores jogadores de futebol, teve o seu ápice em 1999 quando conquistou vários títulos e recebeu premiações pelo seu desempenho. Outro jogador que tem chamado muita atenção pela proximidade do fim de sua carreira é o artilheiro Ronaldo, idolatrado pela torcida corintiana.

É verdade que nesta vida tudo tem um fim, o tempo não volta etc. Imagino que o período de transição que separa atletas do término de suas carreiras seja muito difícil. A situação envolve uma precoce, mas bem papável sensação de velhice precoce, de perda da força, talvez até de aniquilamento naqueles que não se preparam para a despedida.

O esporte profissional de que tanto gostamos e nos diverte reserva aos seus praticantes uma espécie de acerto de contas com o tempo que passa. Mas nem por isso deixa de ser belo, emocionante, um grande show que não pode parar ainda que ao preço do constante renovamento das suas peças.

Escrito por Ayrton Marcondes

3 setembro, 2010 às 12:14 pm

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O fenômeno Lula

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Ainda é cedo para uma análise retrospectiva do fenômeno Lula. Alicerçado em suas origens e despontando como alguém do povo que venceu, transformou-se ele num símbolo popular cujo significado maior é o de que, sim, é possível chegar lá.

Todo mundo sabe como é o presidente, homem para quem as convicções andam de par com as necessidades. Dotado de incomum senso de oportunidade não há que se negar a ele brilho: circula com desembaraço em todos os meios e mostra-se como um intuitivo capaz de fazer escolhas acertadas quando o que está em jogo são os interesses políticos. Agindo assim, irmanou-se ao povo que o elegeu e sua trajetória consiste em conquistar cada vez mais novos adeptos. Decorre daí sua imensa popularidade, os incríveis índices de aprovação e, mais que isso, o fato de lograr transferir a uma quase desconhecida seu legado transformando-a em sua sucessora, pelo menos nessa direção apontam as pesquisas de opinião.

Mas, que fenômeno é esse? De que natureza é essa trajetória impressionante? Para tentar responder a essas perguntas recorro a um artigo escrito pelo crítico José Veríssimo, em 1901. Sob o título “Duas Lendas” Veríssimo analisa, no aniversário da morte de ambos, os perfis do ex-presidente Floriano Peixoto e do Almirante Saldanha da Gama.

Embora a imagem de Floriano seja bastante diferente da de Lula, une-os a origem simples que emula e comove a massa popular. Sobre Floriano diz Veríssimo:

“Ele é bem o homem representativo do povo brasileiro, que se embevecia de saber que ele a si mesmo se chamava de caboclo, orgulhando-se da humildade da sua origem, de ser o “legítimo brasileiro”, segundo o velho erro, irradicável da opinião popular de que o Brasil é o bronco e ruim selvagem que o habitava”.

Mais à frente Veríssimo afirma que Floriano venceu e que o povo prefere, salvo casos raros, o vencedor ao vencido. E completa, buscando explicar a lenda em que se tornou Floriano:

“Em almas simples e honestas a devoção por Floriano foi grande, intensa, completa e sincera; um pouco mais e o adoravam. Não esqueçamos que foi o medo o criador os deuses. Certo que na massa florianista havia, como há ainda, especuladores de todo o gênero, gente de má fé que explorava a situação, em que o governo era forte, mas não podia ser escrupuloso; mas fora destes era grande o número de convictos, dos desinteressados, dos arrastados no arrastamento geral que levava as massas para o soturno e singelo ditador do Itamaraty.”

Seria primarismo superpor fatos históricos e plasmar perfis em si tão diferentes. Entretanto, o texto de Veríssimo é esclarecedor no tocante à idolatria popular em relação a alguém reconhecido como igual pelo povo.

Entre o atual presidente da República e a grande massa existem identidades e ligações profundas que com certeza contribuem para a imensa popularidade dele. Esse, talvez, grande fantasma a assombrar a oposição que luta para chegar ao governo. Vencer um sentimento arraigado e adubado com promessas e benesses talvez seja mesmo tarefa impossível de Brasil de hoje. Quanto ao fato de Lula se tornar uma lenda, como o foram Floriano de Saldanha da Gama, só o futuro dirá.

Escrito por Ayrton Marcondes

2 setembro, 2010 às 12:49 pm

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O caminho dos votos

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Não há como se evitar o horário político. Ainda que tentemos ignorá-lo, volta e meia damos de cara com pelo menos uma parte da programação dos partidos. É assim que somos contatados pelos candidatos e tomamos ciência da existência deles.

A pergunta que se faz é a seguinte: são os candidatos a cargos eletivos retrato da atual classe política do país?

Descontadas algumas presenças importantes, o horário político é um festival de horrores, mormente na parte em que se apresentam os candidatos a cargos eletivos estaduais. Pessoas que adquiriram popularidade em suas atividades fazem uso de seu destaque para arrebanhar eleitores. Jogadores de futebol, boxers, palhaços e até a Mulher Pera apresentam-se com mensagens que, no fundo, não passam de descaso à importância do cargo que assumiriam caso eleitos. O interessante é que o modo, digamos exótico, de algumas apresentações acaba caindo no gosto popular daí candidatos que em nenhum momento parecem levar suas candidaturas a sério correrem o risco de vir a ser eleitos.

Não sei como as coisas se passam em outros países, quem sabe de modo semelhante ao que entre nós acontece. É bom lembrar que em eleições anteriores os brasileiros tiveram oportunidade de manifestar, através do voto, a sua insatisfação com a classe política. As expressivas votações consagradas ao rinoceronte Cacareco e ao macaco Tião são muito ilustrativas nesse sentido.

Se prevalecer a forma de protesto que se mostrou tão eficiente no passado poderemos assistir, no pleito de outubro, à vitória de candidatos que parecem nada ter a ver com os interesses políticos do país.

Mas, que não se enganem os analistas: Mulher Pera, Tiririca, Agenor Bisteca e alguns outros são, sim, candidatos fortes e a eleição deles não será, de modo algum, surpreendente.

Escrito por Ayrton Marcondes

1 setembro, 2010 às 5:49 pm

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Lá se vai agosto

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Agosto é o mês do cachorro louco – diz-se. Muita gente não casa em agosto por medo de desgosto. O fato é que o mês que termina é considerado azarento, daí ser ligado, por muita gente, a superstições, simpatias e coisas do ofício esotérico.

Li num site o que o nome agosto foi dado ao oitavo mês pelos romanos que o tinham como azarento. Como se percebe de lá para cá a humanidade não mudou muito. É verdade que no Brasil agosto é sempre lembrado por acontecimentos históricos fatídicos: Getúlio Vargas suicidou-se em agosto de 1954, Jânio Quadros renunciou em agosto de 1961, Costa e Silva teve um derrame cerebral em agosto de 1969 e Juscelino Kubitscheck faleceu num acidente em agosto de 1976.

Os fatos que acabo de relacionar tiveram, obviamente, grandes repercussões políticas no Brasil. Mas a sina de agosto não é restrita apenas ao país dos brasileiros. De fato, uma rápida pesquisa na internet nos traz casos fatídicos ocorridos no mês de agosto em todo o mundo. Só para lembrar a bomba atômica sobre Hiroshima foi lançada em agosto de 1945, o muro de Berlim começou a ser construído em agosto de 1961 e por aí vai.

Deste agosto vou guardar como acontecimento fatídico a chacina ocorrida no México. Há muitos outros, pungentes, como essa monumental enchente no Paquistão. Ocorre que a chacina mexicana, na qual imigrantes tentavam entrar ilegalmente nos EUA pela fronteira com o México, é dessas coisas que não descem goela abaixo.

De ontem para hoje confirmou-se a existência de dois brasileiros entre os mortos. O corpo de um deles já foi identificado, do outro foram encontrados apenas os documentos. Gente simples, pobre, oriundos de cidadezinha do interior de Minas Gerais, jovens que imaginaram tentar a sorte nos EUA, vítimas do sonho americano.

Repórteres das grandes redes de televisão entrevistaram as famílias dos dois jovens. A simplicidade de do lugar onde moram, a pobreza e falas nas quais se destacava empréstimo de para a viagem dos dois e a promessa de que enviariam dinheiro assim que começassem a trabalhar compunham um quadro de enorme tristeza e choro. Aos familiares dos jovens, gente pacata do interior, soava incompreensível que traficantes houvessem matado os rapazes por motivo tão fútil qual seja a recusa de trabalharem para o tráfico.

Quem sabe agosto não seja o mês azarento na proporção em que é considerado. Provavelmente no mundo atual onde acidentes e crueldade são cotidianos, os demais meses se igualem a agosto. Mas, não se pode falar em azar quando o assunto em pauta é a chacina ocorrida no México. Lá o que acontece é um desgoverno, a ruptura do Estado numa região sobre a qual se perdeu o controle. Esse descontrole está expresso no assassinato, nas últimas horas, de um prefeito de cidade próxima ao local onde ocorreu a chacina dos imigrantes. Estava com ele uma filha de 4 anos de idade que foi ferida e encontra-se internada, em estado grave.

Escrito por Ayrton Marcondes

30 agosto, 2010 às 9:19 am

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Cenas de uma manhã de domingo

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São duas cenas, ambas tendo como palco uma feira-livre. A primeira rola quando um casal chega à feira e passa a andar no corredor entre as barracas. A mulher tem cerca de 30 anos de idade e corpo escultural. Não chega a ser bela, mas os dotes físicos pronunciados através do tipo de roupa que usa se destacam e atraem olhares masculinos.

Passa o casal de mãos dadas e o feirante da barraca de frutas diz:

- Olha, olha… Que mulher! Mulher assim custa muito dinheiro.

Duas senhoras que escolhem frutas olham para ele algo indignadas. Ele se explica:

- Vocês acham que um careca feio desses tem uma mulher assim sendo pobre? Pode apostar, o careca tem dinheiro. Para ter uma mulher dessas o cara precisa dar para ela um cartão de crédito e dizer: pode gastar. Se não for assim ela não fica.

Uma das senhoras diz, não sem uma ponta de irritação:

- Você não acredita no amor. Ela pode muito bem gostar dele, não há dinheiro que segure a relação sem amor.

O feirante toma ares de quem conhece a vida e sentencia:

- Pode escrever, o cara tem muito dinheiro para bancar uma mulher dessas.

A discussão prossegue sem que se chegue a acordo. O dinheiro é confrontado com o amor, sem nenhuma piedade pelos sentimentos. No fim o feirante vai atender outras pessoas e a conversa termina quando um rapaz que trabalha na banca diz a outro:

- Não adianta, mulher bonita acompanhada de homem feio dá nisso. Os homens não aceitam e pronto.

Mais à frente desenrola-se a segunda cena da manhã de domingo. Um japonês conversa com uma senhora, provavelmente sua conhecida, e, de repente, sai-se com essa, falando alto para as pessoas ouvirem:

- É o que eu sempre digo: primeiro a gente come a carne para depois comer os ossos. Estamos casados a 45 anos. Ela é tudo para mim.

A frase intriga as pessoas próximas que observam o japonês sem dizer nada. Em seguida a mulher o japonês, que estava afastada, aproxima-se dele. Ele a envolve com o braço e os dois seguem carinhosamente.

Das muitas formas de se dizer que se ama alguém a relação entre comer carne e ossos é, de fato, inusitada. Mas, como entrar numa história de 45 anos de casados, nos diferentes modos com que as pessoas se declaram a outras segundo a capacidade de entendimento que desenvolveram entre si ao longo de toda uma vida?

Em relação à primeira cena duas coisas precisam ser ditas: aquele a que o feirante alcunhou de “careca” não era um sujeito feio; vale lembrar a letra do samba que diz, taxativamente, que é dos carecas que elas gostam mais.

Escrito por Ayrton Marcondes

29 agosto, 2010 às 12:55 pm

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Notícias terríveis

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Que coisa! Há notícias que o melhor é não tomar conhecimento delas. De dias para cá dois assuntos ocuparam espaço na mídia, ambos traumáticos. O primeiro é o caso de mineiros chilenos presos em uma mina cujo acesso foi interrompido por um desabamento a 300 metros de profundidade.  São 33 homens que se comunicam com a superfície por um tubo pelo qual recebem água e alimentos. Eles ainda não sabem que só poderão sair do local após quatro meses, tempo necessário para uma máquina cavar um túnel pelo qual possam retornar com segurança.

Os jornais de ontem estamparam fotos 3X4 dos 33 mineiros.  Os retratos nos fazem mais íntimos desses homens antes sem face e considerados em bloco. Ali estão os seres humanos presos a 700 metros de profundidade, numa situação que dará margem a muitas narrativas posteriores. Não há como não se irmanar aos mineiros, não imaginar as agruras da situação em que se encontram e o longo tempo que resta para que retornem à superfície. Nesta manhã foi divulgado um vídeo no qual os mineiros aparecem sem camisa e aparentemente bem. Entretanto, uma longa espera os aguarda.

O segundo caso é a terrível chacina ocorrida no México quando 72 pessoas foram barbaramente assassinadas por traficantes de drogas. De várias nacionalidades, as pessoas assassinadas pretendiam entrar ilegalmente nos EUA, através da fronteira mexicana, auxiliadas pelos coiotes. O processo é bastante conhecido assim como a história dos imigrantes ilegais que visam tentar a sorte e melhores condições de vida em solo norte-americano. No momento está sendo realizada a autópsia dos cadáveres e a identificação deles.

A dimensão da barbárie ocorrida no México incomoda. Ela talvez comova mais que a notícia de uma bomba que explodiu no Iraque e matou mais de 50 pessoas. Isso porque as mortes no Iraque, embora horríveis e inaceitáveis, não têm o caráter de chacina.  O que se passou no México é algo que expõe a pior face do ser humano, a condição animalesca de que tanto procuramos nos afastar. A frieza de bandidos que mataram pessoas que se recusaram a trabalhar para  o tráfico ofende a própria natureza do homem e nos coloca diante de um espelho no qual se refletem os descaminhos da civilização, a subversão da ordem e a falência dos Estados. De repente é com se alguns liames que sustentam a civilização tivessem se afrouxado, senão rompido. Não foram mortes provocadas por razões ideológicas, diferenças étnicas ou o que quer que seja, também essas injustificáveis. Foram assassinatos em massa, frios, desnecessários, exercício de poder arbitrário e ocasional, bestiais, inaceitáveis, absurdos, desumanos e originalmente medonhos. Os criminosos mataram porque havia que se matar. Enquanto isso, a família de um equatoriano, único sobrevivente à chacina, recebe ameaças do traficante que levou o rapaz ao México.

Estamos habituados às notícias terríveis que nos chegam diariamente. Entretanto, algumas delas nos constrangem mais que outras pelo teor incomum, quando não insólito. Não há como não pensar nos mineiros presos na mina chilena e no tempo que terão que passar lá. A sensação é a de que estamos distanciados de alguns de nós, que algo precisa ser feito para restituí-los mais depressa ao mundo. Já em relação aos marginais mexicanos fica a impressão de que algo deu errado, senão na espécie, na civilização, que temos mentido sobre a verdadeira índole do homem, esse ser que suplantou outros seres e dominou o planeta, embora sujeito a recaídas à condição de bípede caçador.

Pobre língua portuguesa

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Quem trabalha em escolas conhece de perto o descaso das novas gerações em relação à língua portuguesa. O fato é que as novas gerações são, cada vez mais, proprietárias de vocabulário restrito e construções gramaticais erradas. Isso se percebe na fala e, com muito maior intensidade, em textos escritos. Redigir qualquer coisa é um problema! Nem sempre existe falta de imaginação: simplesmente as pessoas não conseguem expressar com coerência aquilo que querem dizer.

 Os professores de português conhecem o assunto em profundidade daí que o que se está a dizer não é novidade para ninguém. Por trás da insuficiência geral, a falta de leitura tão importante para o enriquecimento do vocabulário, ordenação de ideias, aquisição de cultura etc.

É pena. Talvez hoje se encontrem cada vez menor número de pessoas que tenham amor às palavras e não as tenham como simples serviçais a seu dispor para comunicação. Não falo da oratória empolada, dos discursos políticos, mas do sabor que o som de certas palavras tem, de construções gramaticais não só corretas como eficientes em termos de expressão e comunicação.

Lembrei-me desse assunto ao topar com um velho livro, o “Pequeno Dicionário de Assuntos Pouco Vulgares”, de autoria de Alfredo de Castro Silveira. Publicado em 1960, por J. Ozon Editor, trata-se de ‘”excertos e garimpagens nos domínios da literatura abrangendo todos os ramos do saber humano”, conforme é explicitado pelo autor.

Castro da Silveira reuniu inúmeras palavras, algumas de muito pouco uso, acompanhadas de seus significados. É assim que aprendemos que o termo certo para identificar algo danoso é “estropício” e não “estrupício” como se diz, palavra essa que tem o significado de “algazarra”. Isso sem falar na diferença de “bacamarte”, que é uma arma de cano curto e “bracamarte”, um tipo de espada curta, ou espadagão, que se brandia com as duas mãos. E inúmeras curiosidades como essa de que “camelô” também pode ser chamado de “bufarinheiro” e “contrabandista” de “entrelopo”.

Os exemplos acima parecerão supérfluos, detalhes para estudiosos ou quem tem paixão pela língua. Que seja. Ainda assim, permanece a necessidade de interação das pessoas com o básico do léxico, com um número mínimo de palavras que permitam a elas expressar-se de modo suficiente a defender seus interesses e exercer as suas cidadanias.

Infelizmente, na prática não assistimos a exemplos dignificantes, bastando ver o verdadeiro show de horrores da atual campanha política em exibição nos horários gratuitos pela televisão. Outro dia vi o Tiririca pedindo aos eleitores para votar no palhaço. Não sei se ele mesmo disse, mas corre que o mote da campanha dele é “Vote no Tiririca, pior não fica”.

Sei lá o que acrescentar a isso.

Escrito por Ayrton Marcondes

26 agosto, 2010 às 3:30 pm

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Acidentes aéreos

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Não com frequência, mas com certa regularidade, os acidentes aéreos continuam acontecendo. Ontem mesmo um avião de fabricação nacional acidentou-se aos pousar na pista, na China, com vítimas fatais e outras em estado grave.

Conheço gente que não entra em avião nem que a vaca tussa. Outros temem os navios. Já ouvi discussões sobre o que seria pior, um avião caindo ou um navio afundando depressa. O fato é que aviões e navios conferem às nossas vidas alguma atemporalidade. Dentro deles experimentamos a sensação de perda de contato com a Terra e, principalmente, de nossa liberdade. Nada mais exemplar que o alto mar ou as grandes alturas para estarmos em situação que nos escapa ao controle e nos faz dependentes das máquinas e homens que as pilotam.

É no vácuo de nossa inação contra ocorrências sobre as quais somos impotentes que se baseia a indústria do cinema para produzir tantos filmes sobre desastres aéreos, sequestros em pleno ar e naufrágios. A técnica consiste em explorar medos latentes dos espectadores que veem a si mesmos nos atores em dificuldades tantas vezes sem remédio. Quem não se lembra das cenas do filme Titanic, aquelas nas quais o navio fica na vertical e as pessoas escorregam em direção aos abismos marinhos? Que pode um homem, a força humana, contra algo terrivelmente maior que escapa totalmente ao seu controle e o faz joguete de uma situação onde a morte é inevitável?

Não sei dizer se chego a ter medo de viagens áreas, mas confesso que elas me preocupam. Recentemente estava num avião e fomos avisados de que enfrentaríamos turbulências. Foi quando uma aeromoça afirmou que turbulências não derrubam aviões. Fiquei mais tranquilo ao ouvir isso, mas será verdade? E quanto às tempestades? Não é que dias atrás um avião caiu porque foi atingido por um raio?

A verdade é que não se pode pensar nisso tudo senão babau viagens. Mas, o que me move a falar sobre esse assunto é a entrevista de uma mãe que perdeu seus dois filhos no grande acidente ocorrido há mais de um ano no aeroporto de Congonhas: ao pousar o avião não conseguiu brecar e chocou-se com um prédio, ocorrendo a morte de todos os passageiros.

Posso dizer que as palavras dessa senhora me colocaram diante da dimensão exata das consequências de acidentes aéreos porque, na verdade, quando eles ocorrem, assiste-se às cenas meio como a algo que nos diz respeito, mas de longe. Fica-se sim constrangido, com pena, mas, ainda que acontecimento muito doloroso, distante.

A mãe que perdeu dois filhos falou sobre uma dor simplesmente inimaginável. Ela descreveu o seu horrível sofrimento ao ver o prédio em chamas, sabendo que os seus filhos queimavam em meio ao enorme desastre.

Não há o que acrescentar a algo assim, exceto rezar para que jamais aconteça com as pessoas a quem amamos. Resta torcer para que sejam tomados cuidados máximos em relação à manutenção de aeronaves e segurança em aeroportos. Isso é o mínimo que se pode fazer num momento em que o tráfego aéreo no país encontra-se em ritmo crescente, com maior número de pessoas fazendo uso de aviões diariamente.

Escrito por Ayrton Marcondes

25 agosto, 2010 às 12:55 pm

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