Cotidiano at Blog Ayrton Marcondes

Arquivo para ‘Cotidiano’ Category

Navegando

escreva o seu comentário

Não sei ao certo como chamamos aos membros de grupos que se formam nas redes sociais. Comunidades? É que tantos são os neologismos ligados às vertentes que hoje se integram via internet que é preciso muita atenção ao caracterizá-los. Todo mundo navega.

Existem grupos de variados tipos e interesses. Pessoas se ligam segundo afinidades ideológicas, comportamentais, interesses, amizades etc. Há grupos reunidos em torno de algum saudosismo. Trata-se de ex-colegas de bancos escolares, universidades e mesmo aqueles que conviveram em trabalho nas mesmas empresas. Nesses casos os membros em geral têm mais idade de modo que se trata de reencontros nos quais se valorizam amarras do passado. E daí? – perguntarão. Todo mundo sabe disso e nenhum mal há nisso. Muito bom o florescimento e manutenção da fraternidade.

Pois é. Se você faz parte de grupos dessa natureza talvez tenha se habituado à rotina de seus participantes. Não será demais dizer que em muitos casos predomina verdadeira febre de enviar e reenviar mensagens. Aliás, no mesmo dia, em grupos diferentes e de pessoas que não se conhecem, encontram-se as mesmas mensagens. Alguém, em algum lugar do país ou do mundo, dispara um vídeo e esse mesmo vídeo passa ser repetido quase que universalmente. Assim, recebemos em nossos Whats uma enormidade de fotos, vídeos, textos etc, contendo informações que, na maioria das vezes, não oferecem o menor interesse. Isso quando não somos expostos a golpes bancários, anúncios publicitários, vírus de computador e mesmo correntes de fake news.

Por outro lado, há que se lembrar da existência de pessoas que parecem nada mais terem a fazer que passar horas de seus dias conectados, recebendo e enviando mensagens. Conheço gente que já ao amanhecer dispara seus bons dias, e-mojis etc. Mas há o lado pertinente da coisa que é o carinho entre velhos amigos, as saudações em datas como aniversários etc.

Acusam-se grupos de internet de fazerem muito mais mal que bem. De fato, são comuns participações nas quais uma só pessoa move todo um grupo contra alguma coisa, sendo que nem sempre a causa é verdadeira. Isso sem falar nos casos de difamação e inverdades com consequências morais e profissionais.

Há poucos anos não contávamos com a eficiência dos meios de comunicação hoje ao alcance da população. Impossível prever o futuro disso tudo num momento em que a tecnologia se desenvolve rapidamente e emergem novas propostas como veículos independentes e avançados robôs criados com auxílio da inteligência artificial.

Farol

escreva o seu comentário

Não sei se o gênero ainda persiste, mas eram comuns livros sobre curiosidades. Então não havia internet daí a dependência total de livros para a obtenção de cultura e informações. O Google é poderoso auxiliar na busca de qualquer tipo de informação. Não sei se cem por centro confiáveis, mas os textos do Google tornaram-se indispensáveis. Antes dele vigoravam as enciclopédias. A melhor delas, a Britânica, em inglês, comercializada entre nós, contava com inúmeros adeptos.

Hoje em dia o acesso a informação é instantâneo. Mesmo os assuntos de natureza técnica podem ser acessados ou buscados em livros dada a maior disponibilidade de obras em português ou traduzidas. Em meus tempos de faculdade a pesquisa era difícil. A bibliografia reduzida de alguns temas gerava dúvidas e confusão. Lembro-me bem de uma prova de patologia para qual me preparei num livro em espanhol. Fui bem na prova e recebi nota dois. Diante disso pedi revisão de prova. O assistente da matéria atendeu-me, gentilmente, mas desconsiderou respostas nas quais, inadvertidamente, misturei o português com o espanhol. De nada valeram minhas objeções sobre um texto que, afinal, estava correto. A nota permaneceu dois.

Em casa de meu pai havia um livro sobre curiosidades o qual devorei na minha infância. Se bem me lembro foi nele que minha atenção foi, pela primeira vez, dirigida à existência de faróis. Constava do livro um capítulo sobre as sete maravilhas do mundo antigo. Uma delas era o Farol de Alexandria que figurava ao lado do Colosso de Rodes e outras. O Farol de Alexandria foi construído, em 280 aC por ondem do faraó Ptolomeu. Encarregou-se da obra o arquiteto e engenheiro grego Sóstrato de Cnido. Feito de mármore o farol situava-se na ilha de Faros, próxima a Alexandria, no Egito. Em seu topo, à noite, ardia uma chama que, por meio de espelhos iluminava até 50 km de distância para guiar navegantes.

Faróis são constantemente utilizados em obras de ficção. Funcionam muito bem em tramas situadas em ilhas distantes onde faroleiros vivem isolados. Acossadas por mares revoltos e fornecendo ambientes sombrios as ilhas onde existem faróis servem muito bem ao desenrolar de tramas nas quais homens são submetidos a situações estressantes que, não raramente, os conduzem a delírios e atitudes tresloucadas.

O filme “O farol” estrelado por Willian Daffoe e Robert Pattinson faz parte da galeria de obras descritas no parágrafo acima. Dirigido por Robert Eggers a narrativa é o relato de acontecimentos envolvendo um marinheiro e seu ajudante destacados para um período em que devem tomar conta do farol. Filmada em preto-e-branco e desenvolvida numa atmosfera propícia à perda da razão a trama mostra como a solidão e o isolamento permitem aflorar fantasmas até então soterrados no espírito dos dois homens.

Em Colônia do sacramento, Uruguai, existe um farol. Se não me falha a memória talvez seja este o único farol de que me aproximei até hoje.

Desengavetando

escreva o seu comentário

Existem acumuladores compulsivos. Vivem em meio a uma total bagunça, em muitos casos caracterizando-se a Síndrome de Diógenes. Essas pessoas mostram-se incapazes de se desfazer de qualquer coisa. Em casos extremos os lugares onde vivem assume o jeito de um lixão. Na televisão há um programa que trata de acumuladores compulsivos. Certas cenas são exasperantes. Como é possível alguém viver naquelas condições? Para quê?

Mas, falar dos outros é fácil. E você? Desengaveta com facilidade? Aquela camisa que não usa há muito e talvez nunca mais venha a usá-la, que tal desfazer-se dela? E as roupas de quando você pesava dez quilos a menos, até quando pretende deixá-las na gaveta?

O problema é criar certo amor nos próprios pertences. Verdade que, por vezes, é muito difícil desfazer-se de algumas coisas. Mesmo que inexista qualquer possibilidade de tornar a utilizá-las.

No meu caso isso se dá em relação a certos componentes eletrônicos. Superados por modelos mais recentes e eficazes não há porque mantê-los. Entretanto, na hora que jogá-los fora eis que vou deixando para depois. Muito depois. É o caso de um scanner daqueles que para ser configurado e funcionar gastavam-se algumas horas. O problema era o conflito com os IRQs aos quais estavam ligados outros componentes do sistema. Hoje em dia scanner tornou-se algo tão natural que não se dá a mínima para instalá-los. É o plug-and-play com o qual scanners, impressoras e demais componentes automaticamente se integram a sistemas computadorizados.

Mas, estou no assunto porque aconteceu-me de abrir um armário e nele encontrar uma antiga câmera fotográfica. Trata-se de um modelo digital, um dos primeiros que foram comercializados aqui. A maquininha, da marca Casio, era um estouro e vinha para substituir as câmeras que usavam filmes. Aquilo era inacreditável: nada mais de filmes na máquina, revelações etc. Agora criava-se um arquivo e podia-se ver a foto no computador. Imprimi-la em casa. Verdade que a Casio nem de longe chegava perto às câmeras digitais hoje disponíveis. Era lenta, número de fotos reduzido etc. Mas, representava o início de uma nova era.

O fato é que agora a Casio não passa de um pequeno trambolho, sem qualquer utilidade. O certo seria desvencilhar-me dela. Para que guardar algo com o que talvez nem mesmo venha a ter contato num futuro próximo?

Pois não tive coragem. Lembrei-me da Casio nas minhas mãos quando ela era grande novidade e da minha alegria em possui-la e utilizá-la. De modo que ela continua lá, bem guardadinha.

Serei eu um acumulador?

Escrito por Ayrton Marcondes

13 janeiro, 2020 às 6:15 pm

escreva o seu comentário

Sinais de rádio

escreva o seu comentário

De que a Terra não passa de um minúsculo corpo celeste em meio a imensidão do universo todos sabemos embora nossa atenção não se dirija para isso. O que verdadeiramente nos aflige é a quietude desse infinito espaço que nos cerca. Estrelas, planetas e outros corpos celestes compõem paisagem inescrutável ao conhecimento humano. Entretanto, torna-se cada vez mais impossível acreditar que estamos sós no universo. Será que apenas neste planeta que orbita em torno do nosso sol tornou-se possível o surgimento de vida? Então para que todo esse amontoado de galáxias que nos brindam com imagens tão interessantes nas noites sem nuvens?

Na medida em que a tecnologia avança cresce a inquietude humana diante do espaço que nos cerca. Telescópios de longo alcance, sondas especiais que avançam em direção ao desconhecido trazem-nos fotografias que despertam nossa curiosidade. Eis que aa NASA acaba de identificar um planeta, do tamanho da Terra, situado em zona habitável. Trata-se do TOI 700 d, encontrado pelo satélite TESS. O TOI 700 d está consideravelmente próximo da Terra, a apenas 100 anos-luz.

Por outro lado, astrônomos estão rastreando sinais de rádio, vindos do espaço, cuja origem é misteriosa. Segundo os mesmos astrônomos o estranho é que o sinal identificado provém de uma galáxia diferente de qualquer outra atualmente conhecida.

É bastante improvável, exceto por milagre, que os contatos imediatos de terceiro-grau se realizem nos próximos anos. Enquanto isso saciamos a nossa curiosidade com obras cinematográficas nas quais o homem adentra o espaço. Está nos cinemas o filme ‘Ad Astra” no qual Brad Pitt encarna um astronauta que parte em direção a Saturno em busca de seu pai. As imagens espaciais projetadas na telona são sedutoras. Mas, trata-se de ficção. Gerações futuras talvez vivam em épocas em que as conquistas tecnológicas permitam maiores conhecimentos sobre o universo.

Recomeço

escreva o seu comentário

O sino da Igreja de São judas não dobrou hoje às sete da manhã. Pelo menos não o ouvi. O pároco de São Judas celebra a primeira missa justamente às sete. Senhoras e senhores, fiéis de todas as manhãs, não deixam de comparecer. A maioria deles idosos. Aposentados. Donas de casa. Avôs e avós. Rezam para si e pelos seus. A devoção os ajudará na dura travessia dos derradeiros anos de vida.

Nunca fui à missa das sete. Ocasionalmente, acompanho minha mulher à igreja. Nas raras missas em que estou presente incomodam-me os sermões. Existe hoje a tentativa de gerar ambiente descontraído entre os fiéis. Já não se buscam os ensinamentos dos antigos sermões nos quais o texto do evangelho sobressaia-se ao restante das falas. A vida de Jesus plasma-se à experiência comum do hoje em dia. O mundo está mudado, outras são as inquietações. O que se busca é manter a fé a todo custo.

Mas o ano recomeça. Hoje, sexto dia de janeiro, é o Dia de Reis. Comemora-se a visita dos três reis magos ao recém-nascido menino Jesus. Melchior, Gaspar e Baltazar vieram do Oriente, trazendo presentes ao menino Deus. A data serve ao encerramento dos festejos natalinos. Desmontam-se as árvores de natal e presépios, guardam-se os enfeites que só voltarão a ser vistos no próximo natal.

Em meus tempos de menino o ritual do Dia de Reis era sagrado nas famílias. Não sei como se passam as coisas nos dias atuais. De todo modo frequentava-se a igreja, rezava-se aos reis magos convertidos em santos.

Não dá para falar em natal e Dia de Reis sem relembrar pessoas da família que a muito se foram deste mundo. Posso vê-los, na distância do tempo, seguindo os ritos em que acreditavam. Então a vida talvez parecesse a eles infindável. Não havia prenúncios de morte num ambiente caracterizado pela boa saúde e força para seguir em frente. Eis que aí estão suas faces, suas vozes perdidas que me alcançam aqui nesse ano que começa. E dizer que se foram, não existem mais. Deles restam pálidas lembranças às quais raramente volto, em ocasiões como essa.

Inaugura-se o novo ano e nada abemos sobre as surpresas que nos são reservadas. Cabe-nos imitar nossos antecessores, acreditando na vida infindável e sem prenúncios de tragédias. Um dia, no futuro, alguém talvez se lembre de nós e escreva coisas muito semelhantes a essas que compõem esse texto. Alguém se lembrará de nossas vozes?

Na virada

escreva o seu comentário

Sempre me emociono com as primeiras notícias da manhã nos dando conta que o Ano Novo já começou em ilhas da Oceania. Meia-noite em Auckland, em Welington, em Sidney. O mundo é redondo. Milhares de pessoas nas ruas para assistir à queima de fogos. O homem saúda o novo tempo que chega, apostando na virada como meio de deixar para trás tristezas, infortúnios e até mesmo alegrias fugazes.

É o momento das retrospectivas. Coleções de fatos importantes, mortes etc. Os profissionais da mídia esmeram-se na busca de detalhes, desta vez alongando-se no período da década que se encerra. Chama-me a atenção o artigo de um cronista elegendo a morte do jogador Sócrates como o maior acontecimento desportivo da década.

Cada pessoa tem sua história, seus feitos e acontecimentos em que esteve envolvido. Cada um terá opinião sobre o que mais disse a ele respeito nesse emaranhado de ocorrências, diárias, anuais, de década vivida. E talvez neste dia, exatamente nas horas que precedem a morte de 2019, talvez se pergunte sobre o que, afinal, terá o impressionado, marcado, ao longo desse tempo. Cada um será capaz de enumerar suas impressões e justificá-las. E eu? Que terá me parecido mais impactante no período que se encerra?

Para mim três constatações emergiram da primeira década do segundo milênio. A primeira delas a constatação da pequenez de nosso mundo no universo em que se situa. A Terra não é nada quando tomada em perspectiva com o bilhões de corpos celestes que compõem o universo. Eis aí um fato mais que sabido, mas em relação ao qual não nos damos o trabalho de prestar atenção. Do alto de sua empáfia os homens entregam-se a animalesca disputa permeada de interesses nem sempre razoáveis. Desnecessária a citação de guerras, miséria, fome e tudo o mais. Agigantam-se os esforços para viagens espaciais, Marte é a próxima meta. Um asteroide gigante passa perto de nosso planeta. Astrônomos e cientistas apressam-se a divulgar sobre a catástrofe caso ocorresse a colisão. Mas isso não nos abala. Somos o homem. Conquistamos o nosso pedaço, temos a segurança de nossas casas…

A segunda contatação é sobre algo que tem chamado a atenção dos observadores. O homem é animal cuja superfície é plasmada através de um verniz civilizatório que permite a ele a convivência em sociedade etc. Entretanto, nos parece que a capa de verniz começa a rachar. Tamanha violência, sectarismos, polarizações e desrespeito à vida humana figuram como indícios de que o verniz não esteja contendo a fera interior que se liberta para a prática de agressões, atrocidades. O homem tem medo do homem, essa realidade dos nossos dias.

A terceira e última constatação diz respeito à passagem da vida. Chega-se a uma idade na qual passamos a testemunhar o desaparecimento de tanta gente que conhecemos. Os jovens que um dia conhecemos e de quem privamos amizade envelheceram. As fotografias tiradas em reuniões de amigos de ontem trazem idosos a quem, por vezes, temos dificuldades em identificar. Olhamo-nos nessas fotos, mesmo que não estejamos nelas. Fazemos parte desse grupo cujos membros tornaram-se avós, alguns até bisavós. Os antigos colegas da sinuca e do pebolim, dos bancos das escolas, são esses mesmos respeitáveis senhores e senhoras que nos olham da foto, envelhecidos. Fazemos parte de um exército em rota de deserção.

Não há como não pensar na precariedade do futuro quando a soma de anos ultrapassa a média comum dos que deixam esse mundo. Mas, há, sim, alegria. E perseverança. Amanhã será o primeiro dia de um novo ano e a criança que nunca deixou de existir em nosso peito sorrirá feliz aos raios de sol da nova manhã.

Os tempos são chegados

escreva o seu comentário

A moça me diz que crê no espiritismo. Pergunto se ela acredita na existência de almas do outro mundo. Tudo é criação de Deus - responde. O sofrimento não teria sentido se não houvesse nada após a morte - acrescenta.

Ela me conta que foi criada na religião católica. Casou-se em igreja católica e sempre rezou antes de dormir. Porém, há dois anos perdeu o marido, levado pelo câncer. Desde então professa fé espírita. Leu livros de Chico Xavier a quem chama de iluminado.

A conversa me fez voltar à memória a imagem do seu João. Era um baixinho, invariavelmente trajando um terno cinza muito puído. Mas, o que nele impressionava era o rosto no qual se desenhava expressão sempre grave. Barba por fazer, voz profunda. Seu João era um homem cuja presença fazia-nos pensar que talvez não pertencesse a este mundo.

Acontece que seu João era espírita. Kardecista. Lera o “Evangelho Segundo o Espiritismo” tantas vezes que talvez o soubesse decor. Falava com intimidade de Ramatis. Possuía um livrinho que era muito e seu agrado cujo título era: “Trabalhos Post-mortem do Padre Zabeu”.

Espírita convicto seu João assumia-se como doutrinador. Achava o catolicismo uma espécie de engodo cuja força econômica atraia fiéis. Daí seu João estar sempre procurando entre os fiéis quem o ouvisse, buscando atraí-los para as sessões que realizava uma vez a cada semana.

Seu João atuava num lugarejo de população pequena. Eu o vejo em sua incessante caminhada pela rua de chão de terra, sempre pronto a falar de sua doutrina. Era dele a sentença “os tempos são chegados”. Sempre a repetia quando encerrava sua conversa com alguém. Funcionava como advertência sobre a necessidade de aceitar o espiritismo numa época em que o mundo parecia a ele convulso, sendo grande o desencontro entre pessoas.

Seu João foi-se desse mundo há muito tempo. Estivesse por aqui talvez sua advertência tivesse mais força tal o descaminho do mundo nos dias que correm.

Escrito por Ayrton Marcondes

20 dezembro, 2019 às 2:28 pm

escreva o seu comentário

Vasto mundo

escreva o seu comentário

Não imagino o que possa estar acontecendo agora em Singapura. Posso entrar no Google e talvez satisfazer a minha curiosidade. Tudo o que sei é que Singapura é uma cidade-estado com pouco mais de 5 milhões de habitantes. O centro gira em torno de Padang. Estamos ao sul da Malásia.

Mais: Cingapura agora se escreve com S. A grafia correta é Singapura.

Mas, por que Singapura? É que há pouco ouvi falar de Padang. Meu filho esteve lá. Mandou vídeos de ruas empobrecidas e mal traçadas. Mas, esses vídeos parecem não refletir a realidade total de Singapura que é o quarto maior centro comercial do mundo e onde existem muitos cassinos.

O mundo é vasto. Esteja onde estiver não custa pensar que amanhã, quando você tiver saído de lá, as coisas seguirão do mesmo jeito presenciado durante sua estadia no lugar. Se você esteve no ano passado em New York e passou pela Times Square saiba que neste exato momento milhares de pessoas estão lá, compondo a mesma circunstância antes presenciada por você.

A continuidade de um vasto mundo que não para demonstra muitas coisas, entre elas o fato de que você, afinal, não fará falta em nenhum lugar. Se você atravessou a Broadway quando esteve em NY, nem por isso outros milhares de pessoas deixarão de fazer o mesmo.

O fato de ser apenas um e meio a bilhões de seres humanos é inquietante. Traz à luz a verdade de sermos invisíveis. Tão invisíveis que nossa presença não é notada nas multidões que seguem a mesma rotina, diariamente, em todos os lugares do mundo. Você parou na esquina, esperou o sinal abrir, atravessou, isso ontem. Antes de você, depois de você, milhares de outros fizeram e farão o mesmo, independentemente de quem sejam.

Anos atrás seguia em direção a Saturno uma cápsula espacial enviada para recolher dados sobre aquele planeta. O escritor Carl Sagan teve a ideia de girar a cápsula, permitindo que ela fotografasse a Terra. Eis que, de tão longa distância, o nosso planeta nada mais surgiu que um pequeno ponto de luz em meio à vastidão do universo.

A pequenez do lugar onde vivemos e atuamos, esse pontinho em meio ao nada, convida-nos a refletir sobre o que somos e o papel que desempenhamos em nossa curta estadia no planeta.

Escrito por Ayrton Marcondes

17 dezembro, 2019 às 3:59 pm

escreva o seu comentário

Temperamentos

escreva o seu comentário

Acabo de falar com um amigo de temperamento forte. Daqueles que vão do zero ao infinito em menos de um segundo. Boa alma, mas explosivo. O cara parece carregar nos bolsos bananas de dinamite com os pavios já acesos.

Tratamos de assunto de interesse comum. Tudo com muito cuidado. Cada palavra bem escolhida e colocada no momento certo. Todo cuidado é necessário quando se trata da presença de explosivos prontos a serem detonados.

Um conhecido, já falecido, pertencia ao bloco dos temperamentais. O mundo funcionava bem quando dentro da lógica dele. Na impulsividade a força de seu caráter. Era ele uma força da natureza. Excelente coração, participativo, mas proprietário de uma calma a ser administrada com rédeas muito curtas. Atravessava a fronteira do bom senso num piscar de olhos.

Existem pessoas para tempos de paz. Outras se dão bem em épocas mais violentas. Vem-me à memória o personagem Rambo que não se adapta a tempos de paz. A guerra está no sangue dele. É lutando que Rambo se justifica e realiza. De forma alguma se ajusta ao cotidiano sem aventuras. Gosta da violência, atrai a violência. Parece estar sempre próximo ao lugar onde algo terrível está para acontecer.

Na vida real existem pessoas meio ao jeitão do Rambo. Conheço um sujeito de temperamento exasperado para quem qualquer diferença se figura motivo para confronto. É do tipo nervoso. Passa o tempo contendo-se para se adaptar à vida em sociedade. A discussão, quase sempre gratuita, é a mola que o move.

Não será demais lembrar aos mais afoitos que estes não são bons tempos para valentias. Marginais erram por aí, armados e sem dar qualquer valor à vida. Reagir a abordagens de bandidos é risco ao qual ninguém deve se sujeitar. Ontem um caminhoneiro reagiu a um assaltante. Em luta corporal acabou ferido e grato por manter a vida. Em outros casos, infelizmente, as consequências são bem piores, sendo frequentes os homicídios.

O que não significa que esse seja um mundo para os amorfos. Pessoas amorfas são cansativas e sem brilho. Em relação a temperamentos o que se pede é pelo menos um pouco de equilíbrio.

Escrito por Ayrton Marcondes

16 dezembro, 2019 às 1:12 pm

escreva o seu comentário

Fim da linha

escreva o seu comentário

Há quem compare com o embarque num trem em viagem sem volta. Na estação final a morte espera pelos passageiros. Na mitologia grega o barqueiro Caronte ocupava-se da travessia do rio Aqueronte que separa os mundos de vivos e mortos. Sob a vigilância do barqueiro as almas dos recém-mortos a deixar o mundo que conhecemos.

O enigma da morte permanece. De modo algum se pode saber se, de fato, existe algo para além do momento em que alguém fecha, definitivamente, os olhos. Morre-se e ponto final. Simplesmente.

Ao observar a face do morto em seu esquife choca-nos o fato de tudo cessar. Não se trata apenas da imobilidade do corpo sem vida. Aquele cérebro que ainda há pouco comandava pensamentos e atitudes silencia-se, irremediavelmente. É o deixar de ser do morto que nos agride. Ele que tão bem conhecíamos deixa de existir. Tudo o que fora e acreditara apagara-se de repente. Por isso o observamos com cuidado e temor. No morto que se nos apresenta figura-se a imagem de nosso próprio destino. Ele, o morto, sou eu amanhã.

O homem que sofre com doença pulmonar levanta-se e vai ao banheiro. Move-se com dificuldade, apoiam-no a mulher e a filha. Quando volta reclama de fraqueza, tontura, falta-lhe o ar. As mulheres o fazem sentar-se por um instante. Ele fala com elas, está lúcido. Pede que o devolvam à cama, sendo atendido. Já deitado, roga pelo oxigênio que é colocado em seu nariz. Mas, é chegado o momento do embarque. O último olhar grava na retina a imagem da mulher e da filha. A morte chega assim, mansa e implacável.

Os detalhes de como tudo aconteceu me foram passados pela família do falecido. Não pude ir ao velório. Ainda agora, passados dois dias do desenlace, pesa-me o estranhamento provocado pelo fim da vida de alguém a quem queria tanto.

A vida é assim. A morte, imprevisível.

Escrito por Ayrton Marcondes

11 dezembro, 2019 às 2:13 pm

escreva o seu comentário