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A elite cubana

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Se há uma provocação que irrita profundamente pessoas comprometidas com algum tipo de ideologia é aquela do tipo “comunistas não resistem a um bom champanhe francês”. Afirmações dessa ordem, aparentemente banais e inconsequentes, na verdade visam deslustrar convicções e expor falsidades ideológicas.

É fato inegável que partidários de sistemas políticos que pregam igualdade entre seres humanos são generosos em tornar “mais iguais” os membros de cúpulas que chegam ao poder e seus apaniguados. A história é prodiga em casos assim, sendo a Revolução Russa um dos mais chocantes exemplos de como insurgentes se tornam ditadores, chefiando elites restritas que abarcam e dominam com mão férrea todos os setores da administração. Decorrem desse fato o cerceamento de liberdades, perseguições, repressões e mesmo o providencial desaparecimento de críticos do regime, tudo isso em nome de um processo que se divulga visar o bem-estar comum. Trata-se do Estado forte, intervencionista, contrário ao liberalismo. Nesses casos, como em outros, não por acaso pessoas vindas de camadas socialmente inferiorizadas ou excluídas habituam-se rapidamente às mordomias proporcionadas pelo poder. Hábitos como o de consumo de bebidas selecionadas e caras, de charutos feitos das melhores cepas de fumo, viagens constantes em aviões de luxo e outras benesses passam a fazer parte do cotidiano de pessoas antes muito simples a quem a capacidade ou a sorte distinguiu com rara oportunidade. Estabelece-se fina sintonia entre o poder e seus ocupantes, isso para se dizer o mínimo.

O que se quer dizer é que não importando a linha ideológica ou política adotada existe o risco de uma camada dominante gozar melhormente das prerrogativas e possibilidades. Por outro lado é indiscutível que situações dessa natureza chamem mais a atenção em países onde vigoram regimes fechados e onde o capitalismo é visto como um grande mal. O fato é que se espera que nesses países o sacrifício imposto pelos governos à população seja igualmente dividido entre todos sem a concessão de privilégios.

Talvez por isso soe estranha a notícia divulgada pelo The New York Times dando-nos notícia da existência de uma elite que vive muito bem em Cuba. Isso acontece apesar de ser claro que um regime comunista no qual não existem classes não tolera elites sociais e privilégios. De modo que, lembra-nos o Times, as imagens de um povo que utiliza carros velhos e usa roupas desbotadas não corresponde inteiramente à realidade. Nesse sentido o Times nos avisa que existe outra Cuba, a Havana na qual vivem artistas, escritores, modelos, cineastas, enfim membros de “classe social criativa”. Essa turma tem acesso ao Google, iPhones e outras engenhocas, e monta desfiles fashion. Tudo isso foi constatado e documentado em livro pelo fotógrafo Michael Dweck que fez várias viagens à ilha.

A notícia não deixe de causar estranhamento. Dadas as características impostas pelo regime de Fidel Castro ao povo soa estranha a existência de uma ilha de privilegiados dentro da ilha cubana. A notícia do Times termina afirmando que” o livro de Dweck é uma narrativa dessa classe privilegiada e retrata uma curiosa distorção em um grande arco histórico”.

O ministro e a verdade

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Há tempos assisti a um filme no qual no qual uma criança é sequestrada e morta. Não vou dizer o nome do filme para não estragar o prazer de possíveis cinéfilos que venham a assisti-lo. Quando a criança desaparece um detetive é contratado para encontrá-la. Como sempre acontece nesses casos a relação entre o detetive e a polícia é sofrível. No final o detetive descobre tudo sobre o sequestro e seu dilema é contar ou não a verdade. Revelar o que descobriu vai afetar a vida e a felicidade de muita gente, além do que ele estará condenado a ficar sozinho. No fim o detetive opta pela verdade ainda que isso represente prejuízo para as pessoas envolvidas. Para que se tenha ideia a própria mulher do detetive o deixa por não concordar com a sua atitude.

Espero não ter falado demais sobre o filme, comprometendo o suspense para pessoas que venham a assisti-lo.  Tenho um amigo, a quem não vejo há muito, que é um verdadeiro especialista em estragar filmes, dado que costuma relatar o enredo aos que o cercam. Ele adora cinema e simplesmente não consegue deixar de contar tudo. Por que o ouvimos? A desgraça é que o meu amigo é um bom contador de histórias. Ele fala sobre a trama dos filmes com tanta emoção e encanto que é como se estivéssemos no cinema vendo a fita passar na tela. A brincadeira que fazemos com ele é a de perguntar o preço do ingresso para pagá-lo, assim que termina o seu relato.

Lembrei-me do detetive do filme de suspense ao ler que o ministro Nelson Jobim declarou ter votado em José Serra nas últimas eleições. Sendo ele ministro do governo de Dilma Roussef é de se perguntar a quem interessaria a revelação de seu voto, justamente no candidato que concorria com a atual presidente na eleição passada. Afinal, vamos e convenhamos, o voto é secreto, que se saiba não existem câmeras nas urnas e ninguém está obrigado a declarar em quem votou. Somando-se a isso o fato de que entre a presidente e o ministro existe uma relação de confiança e, mais que isso, de identidade parece ao leigo meio despropositada e extemporânea a confissão de voto no candidato opositor.

Sendo esse assunto convite à mais que pura divagação não será fora de propósito imaginar  que Nelson Jobim talvez estivesse em crise de consciência relacionada a seu voto e o cargo que ocupa. Em assim sendo terá assumido, por necessidade, revelar algo de foro íntimo, tornando pública a sua anterior dissidência. A verdade é que ao votar em José Serra o ministro entendeu ser esse candidato melhor preparado para o cargo hoje ocupado pela atual presidente. Daí ser impossível passar ao largo do estranhamento entre o voto dado e revelado e a assunção do cargo com que o ministro foi honrado pela presidente.

O problema é que hoje em dia a confiabilidade no sacramento da confissão anda em crise. O mais fácil teria sido o ministro achar que cometera um pecado e confessá-lo. O padre entenderia afinal política é política. A pena seria a de rezar uma boa dezena de ave-marias e, depois disso, alma lavada e consciência tranquila, o ministro continuaria em seu cargo não se obrigando a revelação tão inusitada. Seria muito bom se tivesse sido assim, afinal competência não falta ao ministro.

Em torno da governabilidade

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Nem todo mundo sabe o que é governabilidade de modo que alguns políticos costumam explicar o significado dela quando a utilizam em suas declarações. Eles tratam a governabilidade como mal necessário dentro do sistema político em curso no país. Em suma, só é possível governar com a sustentação de uma base aliada composta por parlamentares de alguns partidos. Ocorre que o apoio desses parlamentares se faz em função do toma lá da cá. Troca de favores, portanto, na qual os parlamentares aprovam projetos do governo recebendo algum tipo de favorecimento. Isso representa que a máquina administrativa funciona sob os fluídos de uma eterna negociação. Não havendo outro jeito o que se pede é transparência e preservação de princípios de honestidade. Não se negociam princípios essa deve ser a regra que, infelizmente, nem sempre é cumprida.

O grande problema está no fato de que um sistema dessa natureza exige a presença de um gerente capacitado a comandá-lo. Há que ser firme, impor respeito e apto para negociações para que os parlamentares não passem a exigir demais. São essas as qualidades que se esperam do presidente da República daí as críticas que se avolumam em torno do governo de Dilma Roussef. Dela se diz que governa dentro de gabinete, não dialoga e têm proporcionado momentos de perigosos recuos diante de seus aliados, submetendo-se às exigências deles. Posições que deveriam ser firmes não o são de fato e já se fala que a firmeza não é um dos atributos da presidente.

Para piorar um governo de apenas seis meses de duração já perdeu dois ministros acusados de corrupção. O primeiro, da Casa Civil, era figurinha carimbada do governo anterior ao qual teve que renunciar sob o peso de graves acusações; o segundo, dos Transportes, não resistiu a denúncias de superfaturamento de obras e ao crescimento de 86 mil por cento verificado em empresa de um filho dele, isso no prazo de dois anos.

O que nos conduz ao mentor desses arranjos, o ex-presidente Lula. Afinal, foi ele quem tirou da cartola a então desconhecida que hoje ocupa a presidência da República. Os dois ministros acusados de corrupção são, também oriundos do governo dele. Desses e outros fatos fica a impressão de que pode ter existido uma estratégia, agora em curso, de retorno ao governo. Um presidente bom e forte dificultaria a volta de Lula ao poder. Pode até ser que esse raciocínio não passe de pura elucubração diante de acontecimentos que preocupam a opinião. Mas que o caminho para o retorno vai ficando cada vez mais transitável, isso vai. Afinal, fazer-se necessário sempre foi o melhor meio de não ser esquecido.

A qualidade da programação da TV

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No prefácio de “O Mundo Moderno – Dez Grandes Escritores”, de Malcolm Bradbury, Melvyn Bragg fala da televisão como alvo de esnobismo. Nesse texto, de 1987, Bragg destaca o fato de a televisão ser considerada um meio de divulgação novo, ao qual praticamente toda gente tem acesso, mas em cuja tela se vê de tudo, do lixo ao mais sublime. Daí o esnobismo de setores culturais em relação à TV, repetindo-se aquilo que aconteceu entre a gente de teatro em relação ao cinema em seus primórdios.

Ao escrever o prefácio Bragg tinha em perspectiva a produção de uma série de programas de arte para a televisão, destacando a oportunidade de a TV proporcionar uma atitude compreensiva com os programas dirigidos às minorias. Importa destacar que o texto de Bragg refere-se exclusivamente a um momento em que a televisão britânica reunia condições de produzir programas a serem exibidos com alguma flexibilidade de horários e mesmo contando com pequenas audiências. Em todo caso, a premissa das equipes envolvidas na produção de programas de arte era fazê-los do modo mais escrupuloso possível, assemelhando-os a produções teatrais e documentários da melhor qualidade.

Quase trinta anos depois da publicação do prefácio ao livro de Bradbury a temática então abordada por Bragg ainda se impõe. Obviamente, muita água passou por debaixo da ponte nesse longo período. Novos meios de comunicação se expandiram e a evolução da informática abriu aos cidadãos do mundo uma infinidade de opções de contato. A televisão mudou substancialmente durante esse tempo não só pela revolução tecnológica de que se beneficiou, mas por ter se tornado possível a instantaneidade da informação, aliada à enormidade de recursos de produção com grande qualidade de imagem. Paralelamente, o mundo mudou e muito, sendo o foco de atenção, antes mais voltado para os países desenvolvidos, dividido com economias emergentes e mesmo com grande parcela nas minorias que tiveram acesso a aparelhos de TV e recepção de vários canais. Basta lembrar a verdadeira invasão das favelas por bens de consumo, antes inacessíveis a seus moradores, para se demonstra o quanto se ampliou a teia global de espectadores.

O que não se pode olvidar é a existência de uma imensa legião de espectadores de televisão distribuídos segundo nova estratificação social decorrente de mobilidade em sentido ascendente dos segmentos de menor renda. No Brasil destaca-se o crescimento da chamada classe C, imediatamente seguido pelo das classes D e E. Esse novo contingente de consumidores tem chamado a atenção de vários setores, obviamente interessados em dele aproximar-se visando a ampliação de seus negócios ou interesses diretos. No caso da política, por exemplo, trava-se nesse momento embate entre os partidos no sentido de direcionar seus discursos às classes emergentes, conquistando os seus votos. Recente artigo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso causou celeuma por ter ele dito que seu partido, o PSDB, deveria conquistar espaço entre segmentos das classes emergentes, deixando de lado o chamado povão. Ao que reagiram seus adversários, espertamente distorcendo o significado das palavras dele para, ao final, adotar junto aos seus partidários justamente a linha de propaganda sugerida pelo ex-presidente.

Mas, o nosso assunto é TV e com tantos arrazoados já não nos resta muito espaço. O fato é que as emissoras de televisão, atentas à nova estratificação social, procuram condicionar suas programações aos anseios do público predominante que as assiste. Isso ficou muito claro em recente entrevista do Diretor Geral da Rede Globo, Sr. Octávio Florisbal, quando falou sobre s mudanças de programação, visando atingir a classe C. Sempre atenta à mobilidade social, envolvendo as classes C, D e E, a Globo tem detectado nelas mudanças de comportamento e valores. Em decorrência disso e novos hábitos de consumo a Globo tem mudado a sua programação de modo a atendê-las. Segundo o diretor tanto na dramaturgia quanto no jornalismo o imperativo é a necessidade de aproximação desse novo público, deixando-se de lado algo mais geral em favor de produções mais específicas. Nesse sentido as palavras do diretor são contundentes:

- Eles têm que ver a sua realidade retratada nos telejornais. Eles querem ter uma linguagem mais simples, para entender melhor.

Diante disso a questão que se impõe é possibilidade de maior banalização da informação e perda de qualidade artística da dramaturgia. Se levarmos em conta a competição entre os canais da TV aberta associada à necessidade de conquista de maior audiência – destaque-se que as classes C, D e E constituem-se em 80% da população – evidencia-se o afastamento da programação de TV de critérios educativos e artísticos. Trata-se da produção em massa e para as massas, distanciando-se da premissa de oportunidade de a TV proporcionar uma atitude compreensiva com os programas dirigidos às minorias, citada anteriormente.

O Brasil vai bem, é com satisfação que se assiste à mobilidade social ascendente cuja tendência é a redução da disparidade econômica da população, afastando as camadas menos favorecidas da pobreza. Por outro lado, abre-se uma grande discussão nacional sobre como lidar com a revolução social em trânsito. É grande o papel dos meios de comunicação a desempenhar nesse momento de transição, cabendo a eles responsabilidade em relação ao aprimoramento cultural da população. Esse fato não pode ser ignorado e reveste de enorme responsabilidade social a linha de trabalho a ser adotada pelos veículos de comunicação de longo alcance no país.

A força das palavras

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Está na ordem do dia o texto do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC) no qual propõe novos caminhos para a oposição no Brasil. Tem razão FHC ao pronunciar-se contra o marasmo oposicionista ao qual falta articulação e, mais que isso, discurso que empolgue a grande massa de eleitores. Nas últimas eleições o que vimos foi um PSDB receoso de falar sobre as suas próprias conquistas e escondendo o próprio FHC como se sua sombra pesasse demais ao partido.

Acontece que entre as considerações de FHC está aquela em que propõe um direcionamento para as novas classes ainda não em completa sintonia com a política petista. Entretanto, não foi feliz o ex-presidente ao dizer que ao PSDB não interessa tentar conquistar o chamado “povão” porque esse, ideologicamente ou não, está fortemente ligado ao petismo.

Do que se aproveitou o ex-presidente Lula para um comentário sarcástico no qual alfinetou aquela que é a sua maior diferença com FHC, ou seja, a sua falta de estudo perante a formação universitária do sociólogo. Aliás, o embate entre Lula e FHC - mais decretado por Lula que por FHC, diga-se – baseia-se no desencontro entre a esperteza e o conhecimento. Ao ególatra Lula não desce pela garganta as duas derrotas frente a FHC. Mas, não há como não se considerar a agilidade do comentário de Lula identificando-se com o “povão”. Boa tacada do petista disso não resta dúvida, com bons dividendos ao PT e prejuízo para o PSDB.

O problema do artigo escrito por FHC é que, tendo foros de ensaio, não circulou em meios acadêmicos aos quais mais parece destinado.  Ao saírem na mídia as palavras do ex-presidente soaram sob a forma de manifesto e isso, obviamente, conferiu a elas outro valor. Em assim sendo não têm lá grande expressão as tentativas de defesa do texto por partidários do PSDB, dizendo que a parte em que o ex-presidente fala sobre o “povão” está sendo descontextualizada e assim por diante.

Do fato tira-se a velha lição de que é preciso muito cuidado com as palavras. Esse cuidado torna-se imprescindível quando o que dizemos ou escrevemos envolve questões delicadas. O uso de expressões infelizes pode servir a respostas e retaliações indesejadas que comprometem atos futuros. De resto FHC tem um histórico pessoal suficientemente grande para que dele se diga que exclui o “povão” de suas preocupações. Mas, infelizmente nessas horas histórico não conta muito, gravando-se nas memórias o  que se escreveu e comentou no calor da hora.

A vez do Egito

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Confesso que me emocionei quando vi cidadãos egípcios de mãos dadas, abraçando o Museu do Cairo para protegê-lo contra intrusos e saqueadores. Homens do povo erguiam-se em meio a desordens e arruaças para proteger um patrimônio cultural da humanidade.  Pouco antes, imagens do interior do museu mostravam peças milenares destruídas, fato que tem preocupado pesquisadores e gente de cultura em todo o mundo.

De todo modo assiste-se a uma varredura de sonhos de democracia em países do norte da África. Ditaduras que persistem há décadas ameaçam ruir. O que se busca é liberdade e, até certo ponto, rompimento com o passado para que sociedades mulçumanas entrem no século XXI.

Os paralelos da crise egípcia com a onda que varreu a Europa e pôs fim à Cortina de Ferro têm sido apontados por vários analistas. Nesse sentido a crise de 1989 que culminou com a queda do Muro de Berlim é um marco a ser lembrado.  Entretanto, não se consegue identificar com clareza o estopim da crise atual embora se tenha dito que informações publicadas pelo WikiLeaks tenham influído no processo.

Agora se diz, não sem certo espanto, que os jovens egípcios, mesmo tendo nascido sob a ditadura de Mubarak, sabem o que é democracia. De todo modo o futuro político do Egito é incerto e preocupa o mundo. Milhares de pessoas continuam protestando nas ruas e as forças de repressão têm feito vítimas. A internet foi cortada e a imprensa sofre represálias. Mubarak se diz disposto a se afastar do governo, mas crê que sua saída repentina mergulhará o país numa crise ainda pior. Nesse jogo de forças estão envolvidos, além do governo e do povo, o Exército – fiel da balança -, os líderes da oposição, a irmandade mulçumana e seitas radicais do islamismo. Como não poderia deixar de ser os interesses dos EUA contam, e muito, de vez que o país tem praticado a política de apoio a ditadores da região, inclusive o próprio Mubarak.

No fogo que se alastra os EUA já andam às voltas com problemas na Tunísia e o Iêmen. Não custa lembrar o bom entendimento dos EUA com as ditaduras da Arábia Saudita, Jordânia e outros países da região. De todo modo, na crise egípcia, os EUA estão numa sinuca de bico: apoiar Mubarak é fria; é preciso apostar na hipótese mais provável para a sua sucessão. O problema é que, pelo menos por agora, parece não haver hipótese mais provável. Analistas têm ensaiado possibilidades, todas elas partindo da saída de Mubarak. O que se quer no Egito são eleições livres, mas até chegar a elas há um caminho a percorrer. Num ponto todos concordam: caberá ao exército papel primordial no futuro do Egito. Caso o exército venha a se omitir estará aberto o campo para a intervenção de radicais e há quem veja a possibilidade de um governo religioso como aconteceu no Irã. Outra preocupação é com a possibilidade de esfacelamento do Estado como aconteceu ao Iraque devido à intervenção norte-americana naquele país. Não existe democracia sem instituições e há que se preservá-las no Egito se o que se quer são a própria democracia e eleições livres.

Nos primeiros dias as notícias vindas do Egito não chamaram tanto a atenção do cidadão comum. Hoje o assunto está nas ruas e preocupa a opinião. Egito, Tunísia e Iêmen presenciam levantes populares pró-democracia. Estaremos presenciando um efeito dominó que levará ao fim as grandes ditaduras africanas?

As críticas ao ex-presidente

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Basta correr os olhos nos jornais para encontrar textos que condenem as atitudes do ex-presidente da República. Ora se fala sobre a herança maldita que legou a sua sucessora, herança essa na qual se destacam enormes contas a pagar que chegam a um total de 137 bilhões; ora se critica o ex-presidente pelo fato de ele se sentir dono do país, tanto que, embora apeado do poder, encontra-se descansando com a família em instalações do exército, no Guarujá; de outra vez fala-se sobre as regalias dos filhos do ex-presidente que receberam passaportes diplomáticos a isso se acrescendo o fato de que ambos eram pobres no início do governo do pai e agora são sócios de várias empresas; e por aí vai, jamais se deixando de lado o fato de que o ex-presidente é adorado pelo povo.

O que não se sabe é se está em andamento um lento processo que visa a erosão da figura do ex-presidente.  Se assim for trata-se de um trabalho que exige paciência e cujo resultado é imprevisível. O fato é que o público que lê essas letras miúdas dos jornais é restrito e está mais que careca de conhecer o modus operandi do ex-presidente no sentido de endeusar a si próprio. Para a grande massa e brasileiros, aquela que se fia no palavrório dos governantes e passa a ter acesso a bens antes inatingíveis, pouco importa o que a tais cabeças pensantes dizem. O povo deu o seu recado nas urnas, elegeu uma desconhecida para a presidência, isso a mando do líder que os comanda, e o resto não passa de conversa fiada.

Mas, é nesse ponto que as coisas se confundem. Qual deve ser o comportamento da imprensa no caso Lula? Entregar-se a críticas e acusações, embora reconhecendo o valor merecido de aspectos do governo dele? O que parece é que a imprensa não consegue se livrar do fantasma de Lula. O homem deixou a presidência, hora de deixá-lo em paz, senão ignorá-lo. Estamos no início de uma nova década, uma nova presidente está em exercício, o futuro nos chama. Para aqueles que se comprazem em criticar o ex-presidente, para os que não o suportam, vale lembrar que justamente o que ele precisa é de luzes e ribalta. Pois que deixem de mostrá-lo acenando de varandas, de falar dele, das caixas de pertences pessoais que estão sendo entregues na casa dele, dos aparelhos de ginástica que tiveram que ser devolvidos à presidência, dos 100 ternos que ele usava enquanto presidente, do cabelo da primeira-dama, do craque que está no banco de reservas da Dilma e assim por diante. Pelo amor de Deus, chega.

Está mais que claro que esse início promete ser o período mais difícil para o governo que começa. Rubens Ricupero elencou, em artigo publicado na “Folha de São Paulo”, os gargalos que o novo governo terá que enfrentar todos eles decorrentes do engajamento do governo Lula na vitória eleitoral da candidata do planalto. São eles: inflação de mais de 6%; dólar a R$1,60; déficit em conta corrente de mais de 50 bilhões; superávit primário de menos de 1% do PIB.

Então há muito que pensar e fazer, cada um no seu papel, a imprensa noticiando e comentando, o governo tomando medidas de interesse coletivo. Enquanto isso, o governo anterior  vai se tornando a cada dia mais passado e seus personagens incorporando-se à paisagem, como, aliás, acontece a todos os que deixam governos, em todo o mundo.

Brasil desbotado

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Na esquina da rua em que moro há uma bandeira do Brasil. Ela está no alto, presa por cordas, junto à rede de fios elétricos.

A bandeira do Brasil foi colocada ali dias antes do início da Copa do Mundo de 2010. Torcedores da seleção, animados com a possibilidade de conquista da Copa, colocaram o símbolo nacional naquele lugar para que todos o vissem e vibrassem com ele. A intenção era a de, provavelmente, criar uma corrente cuja força ajudaria a seleção nos difíceis jogos da Copa.

O ano de 2010 caminha para o final. O Brasil perdeu a Copa, muita coisa aconteceu desde então. Também tem chovido bastante de modo que a bandeira nacional está perdendo a cor: os símbolos estão quase apagados, poucas estrelas – representantes dos Estados - persistem.

Passo diariamente pelo local e acompanho a inevitável deterioração da bandeira. Quando menino aprendi a respeitar e amar a bandeira do meu país. Mais tarde, soube da orientação positivista do símbolo nacional, nascido na grande indefinição dos primeiros dias do então novo regime republicano. Eram tempos de transição: à falta de hino próprio, cantava-se a Marselhesa em cerimônias oficiais; bandeiras diferentes competiam para tomar o lugar da bandeira do Império. De todo modo, a atual bandeira nasceu da imperial: mantidos o fundo verde, a esfera azul, o losango amarelo, retirados os símbolos do Império, transferidas as estrelas para dentro da esfera, chegou-se à bandeira que hoje temos.

Quero dizer que a bandeira ali da esquina me incomoda. Ela me passa a sensação de um Brasil desbotado, menos vigoroso, imagem de homens públicos que não têm primado pela correção naquilo que fazem. Aquela bandeira rota tem algo de profundo, de triste, de resistência. Parece estar ali para dizer que a Copa não foi vencida, mas que ainda temos força, mesmo combalidos por tanta desfaçatez e desenganos. Nela persiste a fé cega das massas que acreditam em milagres e se deixam enganar pelas falsas esperanças dos hábeis manipuladores que as conduzem.

Amigos, é preciso salvar a bandeira da esquina, devolver-lhe cores vívidas, restaurar a confiança que ela pode infundir nas pessoas que passam.

Informações sobre o Brasil

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Um argentino, motorista de táxi, fala-me sobre o seu país e o compara com o Brasil. È um homem interessante esse de quem logo se percebe ter vivido dias melhores. Não é difícil imaginar que esse senhor pertença ao grande contingente de argentinos que perderam quase tudo – ou tudo - na grande derrocada do país que agora, tenta se reerguer.

O motorista fala-me do Brasil com muita reverência. Ele conhece São Paulo e esteve no Guarujá de onde guarda boas recordações. Não fala sobre si mesmo, mas não consegue se calar em relação às duas paixões argentinas: política e futebol.

Sobre política chama a atenção para a escalada de preços na Argentina, aliás, camuflada pelo governo. Segundo informa, o governo fala em inflação anual de até 9% enquanto os economistas a estimam em 25%. Para o motorista têm razão os economistas, fato comprovado pela elevação dos preços de todos os gêneros no país.

Acrescenta o argentino que o seu país não precisa passar pela situação atual porque é autossuficiente e possuidor de grandes recursos naturais. A culpa é do governo corrupto, da falta de licitação para obras públicas e dos políticos que agora estão até mesmo sendo acusados de vender votos para aprovação de projetos.

É a essa altura que o argentino começa a falar sobre o Brasil, país que está no caminho certo e deu a sorte de ter um grande presidente chamado Fernando Henrique Cardoso. Foi FHC quem estancou a inflação com o Plano Real e estabeleceu bases para o crescimento do país nos governos futuros. Lula nada mais fez do que encontrar os alicerces prontos, daí o sucesso de seu governo que deverá prosseguir com a presidente eleita.

Enquanto o motorista argentino fala sobre o Brasil, com muita admiração, penso na oposição brasileira que, a todo transe, fez o possível para ignorar o governo FHC durante a campanha de José Serra. Sou interrompido quando o argentino diz que há coisas de que o povo não se esquece por isso não custa lembrá-lo. Creio que, na opinião do argentino, Serra errou e isso contribuiu para que perdesse a eleição.

Quando me despedi o argentino falou-me sobre viagens internacionais e a delícia das compras nos free shops. Falava ele com certa amargura e decerto saudoso de outros tempos. Referiu-se à mulher dele que adorava viagens.

Como dizia o grande sábio Chacrinha, tudo acaba quando termina.

Horário eleitoral

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Trânsito pesado, de vez em quando o motorista da van deixa escapar uma imprecação. São Paulo está cada vez mais terrível, caótica, vai chegar o dia em que haverá um nó insolúvel e tudo vai parar, talvez definitivamente.

Os passageiros viajam quietos. São dois homens que não se conhecem, ambos vão para o aeroporto de onde seguirão para destinos diferentes. O motorista liga o rádio e ouve-se um jornal da manhã que de repente é interrompido pelo horário eleitoral obrigatório. O locutor do jornal radiofônico não se faz de rogado ao anunciar o horário eleitoral: explica aos ouvintes que por determinação superior eles não poderão ouvir as notícias do dia e serão obrigados a participar das campanhas, exceto se desligarem os rádios.

Mal começa a arenga dos partidos antagônicos e o motorista protesta, dizendo que ninguém merece ouvir aquilo, tal e tal. É quando um dos passageiros se irrita e também protesta contra a imposição do governo. Então o motorista aquece a irritação geral com um comentário sobre a Hora do Brasil. A certa altura ele pergunta se alguém ouve a Hora do Brasil e o outro passageiro, um japonês, responde que às vezes ouve.

A partir daí fecha-se o circulo entre os três homens que passam a falar sobre as próximas eleições e o perfil dos candidatos. O japonês entra de sola na conversa, criticando os políticos a quem acusa de incompetência. Então o outro passageiro diz que candidatos a cargos públicos deveriam ser obrigados a fazer um curso no qual seriam explicadas a eles suas atribuições, caso eleitos. Como não poderia deixar de ser o nome de Tiririca vem à baila, afinal um palhaço é um palhaço e não serve para o Congresso. O japonês ouve esse comentário e apressa-se a expor a sua teoria a respeito de candidatos e competência. Ele diz:

- Em primeiro lugar um curso não daria muito certo porque nesse país o professor seria de encomenda, sabe-se lá comprometido com quem. Agora, não vejo a questão do Tiririca pelo prisma que se fala. Para mim o fato de ele ser analfabeto não muda nada. Ele não serve porque é palhaço, essa é a profissão dele e nada mais. O mesmo acontece com artistas, jogadores de futebol, essa gente toda cuja celebridade conquista votos. Então o Gilberto Gil, o Caetanto Veloso e os outros não serviriam porque o que sabem fazer é outra coisa, bem diferente das atividades legislativas. Aqui no Brasil basta um sujeito aparecer e já é considerado intelectual. Veja o Jô Soares que é muito bom no que faz, mas intelectual… As pessoas admiram muito o Jô porque ele fala sobre tudo, mas se esquecem do ponto que ele tem atrás da orelha, do sujeito que sopra no ouvido dele quando há dificuldade em relação a um assunto.  A mesma coisa pode-se falar do Paulo Coelho que para mim não é nem nunca vai ser um intelectual. O caso é que estão pegando no pé do Tiririca porque ele não sabe ler, mas o foco está errado, muitos outros sabem ler e escrever, mas simplesmente não servem para o legislativo e muito menos para o executivo.

O outro passageiro fala, concordando com o japonês, acrescenta que é por essas e outras que o Brasil é assim e coisa e tal. A conversa segue até que chegam no aeroporto. Os passageiros se despedem com um aceno de cabeça, por alguns minutos jogaram conversa fora, partem certos de que nada vai mudar, o Brasil é o que é e pronto.

Escrito por Ayrton Marcondes

30 outubro, 2010 às 10:09 am

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