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Fim de novelas

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Disse a um amigo que as novelas têm fins semelhantes. Os tradicionais vilões são desmascarados e o bem acaba suplantando o mal. Há casos em que malandros terminam com pequenas vantagens, mas não passa disso. Isso quando no capítulo final casais que passaram por toda sorte de vicissitudes finalmente têm suas cerimônias religiosas sob a benção do padre e dos céus.

O amigo ponderou que as novelas copiam a vida. Também os casos reais terminam do mesmo jeito. No fim das contas as pessoas se ajeitam, a lei permite que as coisas andem mais ou menos nos trilhos.

Na verdade não concordo com a visão do amigo. Talvez ela fosse válida tempos atrás. Mas, hoje em dia? Acho que não. A realidade tornou-se escandalosa demais, os malfeitos são praticados à luz do dia e em níveis diferentes. Você imaginaria no passado um sujeito declarar numa CPI que devolveu 182 milhões de reais que recebera como propina em negócios escusos da Petrobrás?182 milhões! E disse isso de cara limpa, sem nenhuma vergonha, como se um “desviozinho” desses fosse a coisa mais natural do mundo.

A novela real demonstra que aqui, fora das telinhas, o mal vai vencendo o bem e de goleada. Para quem não concorda basta prestar um pouquinho mais de atenção nos noticiários. Onde as boas notícias? É só crime, desgraças, safadezas, espoliação e por aí vai.

De modo que os tais vilões das novelas precisam ter seus perfis melhorados. Hoje em dia aqueles que se dedicam a prejudicar casos amorosos, revoltados padronizados, bandidinhos etc, estão fora de compasso. Atente-se para o fato de que os vilões reais são muito mais engenhosos, mais venenosos e capazes de causar maiores estragos que os das novelas.

Talvez por isso muitas novelas tenham baixos índices de audiência. Quando a realidade supera a ficção urge repensar a trama. Aliás, que bom seria se pudéssemos melhorar um pouco a trama da realidade.

Personagens do mal

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A verdade é que os maus são mais interessantes que os bons. Bondades integrais são tediosas e correm o risco de passar por fictícias demais. Dostoievsky narrou, em algumas das suas cartas, as dificuldades para a criação de personagens bons dotados de verossimilhança. Lembra-nos ele que os verdadeiramente bons só são aceitáveis quando engraçados.

Quem acompanha as novelas televisivas de toda noite sabe que as tramas alongadas são sustentadas por grande dose de malfeitos. Em toda novela há pelo menos uma grande personagem do mal, capaz de inúmeras artimanhas e que se mostra imune aos castigos. Tais personagens são dissimuladas, enganadoras, e suas atividades consistem em tramar contra as pessoas de bem. É assim que desencontros se sucedem e o sofrimento agudo de pessoas injustiçadas comove a plateia televisiva. A duração do mal é um dos pilares das novelas, nos vilões que impedem que as coisas deem certo reside boa parte do fluxo das histórias.

Nas novelas o mal é levado ao paroxismo e a imunidade dos vilões mostra-se quase sobrenatural. Para que os excessos não pareçam por demais artificiais, por vezes os vilões são submetidos a situações estressantes nas quais suas ações correm o risco de serem descobertas. Muitos capítulos de novelas terminam com situações dessa natureza, deixando-se a solução para o capítulo seguinte. A partir daí passa a reinar uma espécie de acordo entre as partes: as pessoas que acompanham novelas sabem que a expectativa de revelação das ações dos vilões será fraudada ao custo de, se esclarecidas, imporem um fim mais rápido à trama.

Em quase todas as novelas existe uma moral da história que envolve a vitória do bem sobre o mal. Essa é a expectativa do público, sendo temerário contrariar aquilo que pode ser descrito como apelo popular. No fim o mal é exposto, as personagens do mal são punidas e o bem triunfa. Não por acaso a maioria das novelas é encerrada com cenas de casamento: pessoas separadas pela maldade alheia finalmente descobrem a verdade e se unem, seguindo um ritual de felicidade que se propõe eterna. O mal se eclipsa nos últimos momentos e tudo aquilo em que se crê está, finalmente, a salvo. A cerimônia do padre unindo casais sacraliza a prática do bem e infunde certeza de justiça nos espectadores.