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Roberto Carlos no Maracanã

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Não sei precisar a data, mas a primeira vez que ouvi Roberto Carlos foi na casa da tia de um amigo. Havia um rádio na cozinha e quando aquele que seria chamado de Rei começou a cantar, a dona da casa disse:

- Esse rapaz vai longe.

E ele foi longe, muito longe, tanto que está celebrando os seus 50 anos de carreira com vários shows. O último deles aconteceu no sábado à noite, no Maracanã, com a presença sessenta e oito mil pessoas.

Não é tarefa simples entender e explicar a empatia de Roberto Carlos com seus milhares de fãs, mas o show do Maracanã nos oferece algumas pistas. Uma é a imagem profissional do cantor, sempre ele com a gesticulação que todos conhecem e esperam, o emblemático terno branco, o eterno sorriso e a voz que diz e canta exatamente as músicas que as pessoas querem ouvir; a outra, a impressionante carreira de sucessos cujas letras são de domínio público e que todos repetem de cor: a um simples gesto do artista milhares de pessoas imediatamente cantam o verso seguinte da música introduzida por ele. É esse fato que faz de Roberto Carlos um ente familiar, alguém cuja vida se conhece, um parente que vemos de vez em quando, artista que deu e dá voz a prazeres, mazelas amorosas e desgraças cotidianas acontecidas com as pessoas. De fato, é no drama, no desconsolo das idas e voltas do amor, nas perdas irreparáveis, que o artista imanta o seu público fazendo-se parceiro de sua dor. Roberto não esconde que sofreu, fala sobre a sua vida de homem comum e tão igual a de tantos: trata-se de um Rei que pode se dar ao luxo de desmitificar-se para atingir o coração de seus súditos, verdadeiro Pã sabedor de que ninguém pode resistir aos encantos de sua flauta mágica.

Num show quase sempre irrepreensível e marcado pela grandiosidade, Roberto teve tempo para repassar inúmeros de seus sucessos nem sempre obedecendo à cronologia das épocas em que foram lançados. Entre uma música e outra conversou com o público bem a seu modo, dizendo muito com poucas palavras. A temperatura emocional elevou-se na parte final quando seus antigos parceiros, Erasmo Carlos e Wanderléia, foram chamados ao palco. Erasmo veio com o seu jeito gauche de tremendão mas nem tanto, ele que sempre foi o outro de Roberto, tão diferente do cantor em tudo, mas de alguma forma sua alma gêmea. Cantaram chorando a música “Amigo” e o público com eles indiferente à chuva forte que caía sobre o Maracanã.

No final não foi possível evitar o confronto entre as imagens dos três artistas quando participavam da “Jovem Guarda” e as de agora. Certa melancolia de passado, de cinqüenta anos depois e da irreversibilidade do tempo somou-se à grande emoção do momento.

Roberto Carlos entrou no palco dirigindo um calhambeque azul e foi-se embora no mesmo veículo. Deixou atrás de si um público ainda magnetizado, cantando a música “Jesus Cristo”. Pessoas choraram com ele episódios de suas próprias vidas datados pelos sucessos do cantor em cada época.

A noite terminou com um show de fogos de artifícios disparados das marquises do Maracanã cujo brilho efêmero parecia nos advertir sobre brevidade de cinqüenta anos decorridos, ainda que coroados de êxitos e comemorados em plena glória.