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Pernóstico?

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Leandro Karnal nunca lerá esse blog de modo que posso falar mal dele à vontade. Mas, não é essa a ideia. Ora, falar mal… Quem penso que sou para andar por aí falando mal dos outros. Ainda mais de um professor universitário cujo talento é mais que reconhecido. Mas, vamos lá.

Eu nunca ouvira falar de Leandro Karnal até a semana passada quando ele apareceu no programa “Roda Viva” da TV Cultura. Confesso que minha primeira reação foi a de mudar de canal. Mas, me contive. Quem era aquele sujeito de fala algo monocórdica, alinhado, engravatado, que se dispunha a falar sobre qualquer assunto, mostrando uma erudição bastante incomum? De que túmulo se levantara aquela alma que me remetia a outros tempos nos quais a cultura fazia parte de conversações à mesa de jantar? O homem citava Platão, Sartre, a Bíblia, Shakespeare e tudo o mais com a naturalidade de irmão conhecedor. Nada escapava ao universo de seus conhecimentos os quais expunha com clareza didática. Mas, repito, de onde saíra esse “antigo” que se perdera em demoradas pesquisas sobre o mundo passado e integrara-se ao presente da velocidade das informações, plasmando tudo numa conversa não despida de orgulho e, talvez, algum pedantismo?

Em seguida eis que Karnal aparece na TV Globo News, sendo entrevistado por Roberto D’Avila. Mas, quase que não era uma entrevista. D’Avila mal tinha tempo para intrometer-se no discurso do professor, tal sua eloquência e facilidade de falar sobre o que quer que fosse. Mais uma vez o entrevistado colocava à disposição dos ouvintes sua fantástica memória, fazendo questão de frisar que memória não deve ser confundida com inteligência. Memória é colecionamento de dados, inteligência é o modo como esses dados são relacionados, disse.

A verdade é que Leandro Karnal incomoda e positivamente. Proprietário de um discurso incomum, orgulhoso de si e sem negar a vaidade por ser intelectual, conhece os limites da intelectualidade a ponto de afirmar que o mundo precisa cada vez mais de intelectuais. Entretanto, seria uma temeridade caso fosse governado ou comandado por eles.

Mas, seria Karnal um pernóstico? Bem, nele se identificam o orgulho, a extremada confiança, o uso de expressões incomuns, enfim algumas características de pernósticos. Mas, que fazer quando se é um intelectual e se dispõe de inteligência e conhecimentos que o levaram ao lugar onde atualmente está?

Leandro Karnal começa neste domingo sua atividade como colunista de jornal. No primeiro artigo fala sobre si e as variantes que enfrentou para aceitar o convite de trabalho. A ver como seguirá no novo ofício.

Mas, que se diga, Leandro Karnal surge na mídia num momento de grave escassez cultural em nosso país. Seja benvindo a esse mundo de imagens e sons no qual a intimidade é exposta e devassada, irremediavelmente.

Cultura e incultura

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Dias atrás li que uma popular vedete brasileira afirmou que, por gostar de humor e piadas, iniciaria a leitura da “Divina Comédia”. Gafes a parte, o fato infelizmente reflete a incultura que grassa nas plagas de nosso vasto país.

 

Já se disse que o brasileiro é um povo que não lê, para isso sendo apontadas várias causas. De fato, não se tem neste lado do Atlântico um vínculo sólido com a cultura. Embora honrosas exceções, o que mais se detecta é a tal cultura de almanaque com frequentes emissões de opiniões sobre assuntos aprendidos “por alto”. O restante consiste, infelizmente, em puro desconhecimento que se subdivide em quase analfabetismo e no analfabetismo declarado. Isso representa que uma imensa maioria está no mundo, mas não faz parte efetiva dele mostrando-se incapaz de compreender os complexos processos que fazem da vida hodierna um quebra-cabeça de solução nem sempre fácil.

 

Um dos problemas da cultura do Brasil é a ausência de tradição cultural. Na minha infância e juventude fui aluno de escolas públicas e vivenciei na pele as falhas do sistema de ensino do país. Talvez por isso eu nunca tenha desenvolvido sensibilidade arguta para a música clássica e tenha experimentado dificuldades em apreender as características e belezas da pintura e artes plásticas. Foi desse modo que gente como Picasso, Gauguin e Van Gogh acabaram sendo descobertas algo tardias da minha embotada sensibilidade estética.

 

As afirmações que faço não nascem de acaso ou suposição. Antes, foram geradas por constatações que, ao longo do tempo, compuseram a visão genérica de que hoje sou possuidor sobre a valorização da cultura no Brasil. Creio que um dos mais reveladores impactos sobre o meu modo de ver a arte se deu na primeira vez que tive oportunidade de visitar Paris. Deixando de lado certa admiração pueril pela cultura francesa e tudo o que ela foi capaz de produzir, o fato é que a visão de obras originais e não cópias – esse contato magnético que se estabelece entre aquele que olha e o mestre aprisionado nos traços que imprimiu na tela – conferiu realidade, ainda que póstuma, a nomes até então conhecidos apenas através de livros. Mais que isso, impressionou-me, durante visitas a museus, o fato de escolares, ainda pequenos, assistirem a aulas diante de telas famosas. Aqui crianças ouvindo explicações sobre uma tela de Monet; ali mais crianças aprendendo sobre a arte de Manet; e assim por diante.

 

Não tivemos, nem temos coisas assim aqui. Nossa formação cultural é outra. Ainda assim é triste constatar o descaso e a posição secundária a cultura no país. A leitura poderia ser uma alavanca para a melhoria do padrão cultural do povo, mas esbarra nas dificuldades de obtenção de livros. A escassez de boas bibliotecas, livros caros e até a falta de tempo de um povo que trabalha e gasta inúmeras horas se locomovendo em sistemas de transporte que não acompanham o ritmo acelerado de desenvolvimento do país constituem-se em barreiras para o crescimento de um público leitor.

 

Mas, que não se perca a esperança. Não se pode olvidar que o Brasil ainda é uma nação jovem quando comprada às velhas matrizes européias. Daí que se está plantando, devagar é verdade, mas plantando. Um dia se colherão os bons frutos desse plantio e certamente existirá no país um padrão cultural mais democrático e aceitável.