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José Mindlin

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Tudo o que sei sobre o José Mindlin chegou até mim através de noticiários. Há cerca de dois anos assisti a uma entrevista dele concedida a um canal de televisão. Era, então, um homem de muita idade falando sobre livros com ardor juvenil.

De Mindlin sei que era membro da Academia Brasileira de Letras, advogado, empresário e jornalista. Mas, todas as vezes que li ou ouvi referências a ele não foi em relação a esses títulos: Mindlin era mesmo conhecido como bibliófilo.

Soa estranho ouvir falar sobre um grande bibliófilo no Brasil, país que não tem lá grande tradição em termos de bibliotecas. Frequentar bibliotecas não é habito comum a brasileiros, embora se encontrem muitas pessoas que as procurem para pesquisas ou simples leitura. Por outro lado, todo mundo sabe da carência de bibliotecas no país a isso se podendo acrescentar a desorganização de muitas das existentes. Recentemente procurei por uma biblioteca que já havia visitado no passado, em Santos.  Soube que ela tinha sido transferida para outra e fiquei pasmo ao saber que a parte do acervo que eu procurava ainda não fora catalogada ou simplesmente desaparecera. Se apenas isso não é o bastante, que os paulistanos nos contem há quanto tempo está fechada a nossa querida e essencial Biblioteca Mário de Andrade que passa por um interminável período de reformas.

Livros antigos é uma paixão da qual jamais nos livramos. Existe um prazer misterioso em folhear páginas de obras antigas as quais não raramente nos surpreendem pelo seu conteúdo. Além disso, obras esgotadas quase sempre são essenciais para pesquisas, servindo àquilo que se chama construção do conhecimento a partir do conhecimento acumulado.

Disso tudo se depreende que as pessoas que gostam de ler em geral mantêm em suas casas bibliotecas, pequenas, mas essenciais. E elas crescem em atração e gosto quanto se tem a rara oportunidade de adquirir essa ou aquela obra, rara ou esgotada, mas fundamental sob o ponto de vista de seu possuidor.

Foi esse amor aos livros e o prazer da leitura que José Mindlin elevou a grau superlativo. Desde muito cedo ele colecionou livros, chegando a possuir uma biblioteca com quase 40 mil títulos. Trabalho hercúleo, obra de amante inveterado e incurável. Não bastasse isso, Mindlin doou a sua esplêndida biblioteca à Universidade de São Paulo, para isso enfrentando e vencendo todas as dificuldades burocráticas que se interpõem ao que seria uma simples doação. Assim, a USP recebe uma formidável biblioteca da qual fazem parte obras raríssimas, várias delas primeiras edições.

Note-se que as dificuldades relacionadas a doações, quando não o descaso pelos livros recebidos, têm levado algumas pessoas a doarem suas bibliotecas a outros países. Exemplo clássico é o de Oliveira Lima que doou a sua biblioteca, formada durante o século XIX, à Biblioteca do Congresso Norte-americano, em Washington.

José Mindlin, cujo falecimento acaba de ocorrer, deixa uma lacuna irreparável. Seu interesse pela cultura em nosso país e o exemplo de amor aos livros deve e precisa ser transferido aos mais jovens, hoje na iminência de passarem ao uso de livros eletrônicos.

Aliás, nada contra os livros eletrônicos; acontece que livros em papel envolvem uma questão de tato, de odor, de sensibilidade. José Mindlin sabia muito sobre isso e fez o que pode para preservar a memória cultural do país.

Villa-Lobos, intérprete do Brasil

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O jornalista Gilberto de Mello Kujawski publicou em seu site um belo artigo sobre o maestro Villa-Lobos. O endereço eletrônico é:

http://www.gilbertokujawski.com.br/

Para Kujawski a lição maior de Villa-Lobos é a possibilidade de “integrar todas as contradições na unidade deste país que “tem a forma de um coração”, o Brasil de todos nós.”

Tom Jobim contava que, certa vez, foi visitar Villa-Lobos e o encontrou trabalhando em meio a muitos ruídos: rádio ligado, pessoas falando etc. Diante disso, Jobim perguntou ao maestro se o barulho não o atrapalhava. Ao que ele respondeu:

- O barulho é para o ouvido externo; o interno é o que ouve e compõe.

Villa-Lobos ouviu o Brasil, país que traduziu em sua música. Sua obra é monumental de vez que, através de sons, logra representar toda a diversidade do país sobre a qual nos fala Kujawski em seu artigo.

Com frequência estudiosos publicam livros sobre escritores considerados intérpretes do Brasil. Os nomes variam de um autor para outro, mas as listas sempre incluem Euclides da Cunha, Joaquim Nabuco, Oliveira Viana, Sérgio Buarque de Holanda, Gilberto Freyre e alguns outros. Tem-se esquecido de incluir Villa-Lobos nesses estudos: o maestro interpretou o país com outra ferramenta, a música, e o fez de forma magistral.