O Barco Ébrio at Blog Ayrton Marcondes

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Sem rumo

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Ouço de várias pessoas que, se pudessem, sairiam do Brasil. Aliás, os que podem estão justamente fazendo isso. Um comerciante abre-se sobre seu negócio. As vendas não cobrem as despesas. Cansado do Brasil pensa em se mudar para Potugal.

O Brasil faz lembrar de um poema de Arthur Rimbaud - O barco ébrio - no qual um barco é levado pelas correntezas, desgovernado. Ninguém o comanda: os marinheiros estão todos mortos. Assim, o barco erra nos caminhos das águas.

Nós estamos vivos. Mas dentro de um barco sem capitão que vislumbre a rota  a seguir. Assim, avançamos ao sabor do acaso, sofrendo na própria pele a força de indesejadas intempéries.

Está encerrada a greve dos caminhoneiros. Durante dez longos dias a categoria nos fez reféns de suas exigências. Sem combustível ficamos reclusos às nossas casas. Falta de gêneros de primeira necessidade, caos nos serviços básicos, escalada absurda nos preços. O governo curvou-se, cedeu. Voltamos àquela normalidade.

Há mais de setenta anos vivendo no país supunha já ter visto de tudo. Mas, o Brasil não é simples. O país é, de fato, uma grande caixa de surpresas. Aqui tudo pode acontecer até mesmo segundo a inpiração do próprio acaso.

É hora de repetir que o Brasil não é para principiantes. Um dia o nosso barco chegará o mar. Espera-se não ser recebido com maremotos.

Escrito por Ayrton Marcondes

3 junho, 2018 às 6:34 pm

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Arthur Rimbaud e “Le Bateaux Ivre”

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arthur_rimbaudJá se disse que é quase impossível ler a obra de do francês Arthur Rimbaud (1854-1891) sem levar em consideração a história de sua vida. Mas que fazer quando o que está em jogo é a trajetória de um poeta genial que escreveu apenas até os 20 anos de idade?

A biografia de Rimbaud apresenta-se como um desafio à racionalidade. Menino prodígio, aluno brilhante e estimulado por seu professor de retórica, ele venceu, em 1869, o Concurso Acadêmico de Douai de versos latinos. Em 1870 entrou para a escola Georges Izambard. A partir daí sua vida consiste numa sequência de fugas de sua casa localizada em Charleville, sua cidade natal. Na primeira delas foi de comboio a Paris, sendo preso e depois libertdo por intervenção de Izambard que o trouxe de volta a Charleville. Pouco tempo depois, fugiu novamente, desta vez a pé, passando por Bruxelas e chegando a Douai. A próxima fuga ocorreu no ano seguinte quando foi de comboio a Paris e voltou a pé. Nesse ano escreveu ao poeta Paul Verlaine e compôs o poema “Le Bateau Ivre”.

Paul Verlaine e Rimbaud mantiveram relacionamento muito difícil. Verlaine recebeu o jovem poeta em Paris, viajaram juntos e foram presos por conduta suspeita. Depois, foram a Londres de onde Rimbaud voltou a Charleville, a pedido de sua mãe. Os dois poetas reencontraram-se em 1873, em Londres, e viajaram a Bruxelas. Durante uma discussão Verlaine deu dois tiros em Rimbaud, lesando o seu punho esquerdo. Pouco depois desse episódio Rimbaud começou a escrever o poema “Une Saison em enfer”.

O espírito inquieto de Rimbaud nunca teria paz. Suas idas e vindas eram constantes. Andarilho, jovem mal visto pelos cabelos longos e roupas desleixadas, expulso de Viena, alistamento no Exército Colonial Holandês a caminho de Java onde deserta, intérprete de um circo em Hamburgo, comerciante na África, viajante no Egito e na Etiópia, atravessando o deserto a cavalo, traficante de armas, diretor de feitoria: a trajetória de aventureiro só termina com a morte do poeta em consequência de um câncer no joelho.

Arthur Rimbaud foi um dos maiores representantes do simbolismo no século XIX. Interessa-nos por ora o poema “Le Bateaux Ivre” que ele compôs em 1871. O leitor pode encontrar na internet uma tradução feita por Augusto de Campos. “Le Bateau Ivre” – em português “O Navio Doido”  ou “O Barco Ébrio”– é um poema composto por 100 versos alexandrinos (verso em doze sílabas). Trata-se de uma prosopopéia (figura de linguagem em que escritor empresta sentimentos humanos e palavras a seres inanimados, a animais e a seres mortos ou a ausentes). No caso, o escritor empresta seus sentimentos a um navio que desce pelos rios, em direção ao mar, levado pela correnteza de vez que todos os seus tripulantes foram vitimados por índios. É o barco quem fala:

Como descia já dos Rios impassíveis,

Eu não me senti mais guiar plos sirgadores

Deles fizeram alvo os índios irascíveis,

Depois de os atar nus aos postes de mil cores.

(Tradução de Alexandre Herculano de Carvalho, in Musa de Quatro Idiomas,Edições Ática, 1947, Lisboa)

Impossível não relacionar a trajetória do navio desimpedido de controle, desgarrado e levado ao mar ao sabor das ondas, com a própria vida de poeta.

Em “Le Bateaux Ivre” Rimbaud serve-se de neologismos e é vigoroso o cromatismo dado por vezes sua intenção ser puramente visual, conforme aponta Augusto Meyer no ensaio “Le Bateau Ivre - Análise e Interpretação”. Meyer divide o poema em quatro movimentos. O primeiro deles - Descendo os rios – descreve o barco levado pela correnteza rumo ao mar; o segundo – O Batismo do Barco – fala sobre a chegada do barco desgarrado à foz do rio entrando em contato com as águas do mar. Observa-se uma mudança do ritmo lento das águas do rio para o forte balanço do mar; o terceiro - A experiência do mar - corresponde ao corpo do poema em que se verifica a originalidade de Rimbaud e sua força poética; o último movimento - Desencantamento – manifesta-se o desencanto do viajante desiludido que se confunde com a experiência de andarilho e aventureiro do próprio poeta.

O ensaio assinado por Augusto Meyer é um anexo do Curso de Teoria da Literatura dado por ele na Faculdade de Filosofia e Letras, da Universidade do Brasil. O texto foi publicado pela Livraria São José, Rio de Janeiro, em 1955. Obviamente, o livro só poderá ser encontrado em sebos. Embora Meyer fale em breve estudo, trata-se de uma poderosa incursão na obra do grande poeta Arthur Rimbaud que certamente será muito valiosa a estudiosos e interessados.

Os poemas de Arthur Rimbaud podem ser encontrados nas livrarias. Existe uma edição em francês de suas obras completas – Oeuvres completes – publicação da Editora Gallimard, 2009. “O Barco Ébrio” já mereceu mais de 20 traduções; a de Jayro Schmidt é publicação da Ed. UFSC, 2006. Também em português: “Uma Temporada no Inferno e Iluminações”, com tradução de Ledo Ivo, Ed. Francisco Alves, 2004.