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Atrás da bola

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São dois gols, ambos tendo por traves pares de chinelos velhos. Entre um e outro poucos metros, as laterais do campo duas paredes acinzentadas.

Isso mesmo, o campo de futebol é um corredor, parte externa do apartamento onde mora o zelador, fundo do prédio, último andar. O jogador dos dois times é um menino que corre de um lado para outro com uma bola de borracha nos pés. No vai-e-vem, entre um gol e outro, ora ele usa a camisa de um time, ora de outro. Controlando a bola de repente ele é o craque de um dos times, depois do outro, dizendo nomes de jogadores que repete em voz alta, arfando o peito, correndo para fazer gols e mudar o placar.

Agora é o time da porta da cozinha que desce em direção ao gol do time da janela do quarto e faz um golaço; na volta o time da janela desconta, coloca a bola entre as traves do gol da porta da cozinha e o jogo está empatado. O menino corre de um lado para outro fazendo gols que soma, um a um. Até que chega ao 7×7 e se distrai com o cachorro que atravessa o campo, não sem protestos da torcida e dos jogadores. O menino, nesse momento juiz e locutor, expulsa o animalzinho do campo e prende-o enquanto irradia o fato em voz alta.

Os jogadores esperam o reinício da partida e voltam a correr. Os gols se sucedem, gol aqui, gol lá, num jogo que parece estar fadado a ficar sempre empatado. A coisa toda continua até que uma voz de mulher ecoa no estádio: é a mãe do menino que o chama para o jantar. É hora de acabar o jogo, justamente no momento em que o juiz marca um pênalti contra o time da porta da cozinha.

São 47 minutos do segundo tempo e o pênalti vai decidir o campeonato. O menino, jogador do time da janela do quarto, coloca a bola na marca de cal e olha para o gol à sua frente. No meio dos chinelos que demarcam o gol está um goleiro enorme que usa roupa preta e luvas.  O menino não se impressiona com ele. Vai para a bola, bate forte e é gol. Segue-se o ruído da torcida vibrando nas arquibancadas, o abraço dos jogadores e o apito final que dá a vitória e o campeonato ao time da janela.

Mas, não há tempo para erguer a taça. A mãe vem ralhar com o menino e, em um minuto, ele está sentado diante do prato de comida, transpirando muito, mas feliz pela vitória do time da janela do seu quarto sobre o da porta da cozinha cujo técnico é ela, a mãe dele.

Escrito por Ayrton Marcondes

4 setembro, 2010 às 11:19 am

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Rubem Braga

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Quando nada ocorre para escrever e o pensamento parece embotado o melhor é correr os olhos nos títulos de livros enfileirados na estante. Pega-se um ou outro, folheia-se, leem-se alguns parágrafos e, sem que se perceba, de repente o mundo é outro, entra-se no universo acolhedor da literatura.

Lugar seguro esse, não tão calmo, mas seguro. Aqui uma pitada de Cervantes, ali um poema de Borges que vale reler mil vezes. Mais à frente um conto de Cortázar, isso sem esquecer Shakespeare que envia Macbeth, espada em riste e sobre o seu cavalo, entrando pela janela. Há também Faulkner e Hemingway, as poesias de Drummond, a capa com o nome de Pirandello e a Morte Rubra que de repente é lançada diretamente das páginas de um conto de Poe.

Circulando entre livros, apartado da realidade para sobreviver dentro da ficção topa-se com Rubem Braga. O livro é velho, alguém riscou a capa, provavelmente foi comprado em algum sebo. Trata-se de uma coletânea com os melhores contos de Rubem Braga, assim os consideraram aqueles que os colheram em outros livros do cronista e os puseram nesse, preparando-o para esta manhã obtusa em que se busca alguma coisa sem saber bem o quê.

Abre-se o livro numa página ao acaso, aí está o tal casal no ponto de ônibus, o casal da “vida estreita”, noutra página o menino que faz perguntas ao vendedor de passarinhos, mais à frente o caso do homem que passou seis dias trancado com a amada, sem atender telefone. Vai-se passando de uma crônica à outra, absorto, esquecido da hora de sair para o trabalho, pensando se afinal a realidade não passa de uma invenção maldosa de alguém que tinha muita raiva dos homens. Isso dura até que dois carros batem na esquina, o barulho interrompe a leitura justamente quando um narrador encontra um par de luvas femininas atrás de uma pilha de livros. É quando, muito irritado, você sai à janela e começa a gritar, dizendo que as pessoas não devem bater carros, é preciso ler Rubem Braga e coisas assim.

Não demora a que você repare que ninguém o ouve. Então você volta aos livros, desconfiado de que talvez você não seja real e tenha saído das páginas de uma crônica do Rubem, você personagem dele, feito para esta manhã cinza e fria, para o enredo em que um cara não tinha o que escrever e se perdeu olhando para os nomes dos livros da sua pequena biblioteca.

Escrito por Ayrton Marcondes

19 agosto, 2010 às 12:02 pm

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O Sabor da Vida

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O instigante título “O Sabor da Vida” foi escolhido pelo escritor Gilberto de Mello Kujawski para enfeixar em livro uma coletânea de ensaios realmente saborosos. O livro é datado de 1999 razão pela qual, vez ou outra, conduz o leitor a reflexões sobre acontecimentos circunstanciais daquele ano. Mas, isso pouco importa porque o que pulsa nos ensaios de Kujawski é uma revisita à inteligência, expressa em considerações sobre temas variados e sempre interessantes. 

No ensaio que abre a coletânea, cujo título é “Ensaio sobre o Ensaio”, Kujawski diz a que vem sua escrita. Definindo o ensaio e distinguindo-o de outras formas de literatura, o autor nos recorda de que a tradição ensaística, tão comum no país até a década de 60, praticamente deixou de existir, abatido que foi pela especialização intelectual e científica. Explica-nos Kujawski que o ensaio sintoniza-se com a livre expansão da inteligência e nutre-se de ideias gerais as quais, por natureza, distanciam-se de especializações e engajamentos doutrinários.

É a partir dessas premissas que Kujawski desenvolve sua ensaística, focando temas hoje infelizmente relegados a segundo plano, dada a condução apressada e literalmente engajada da crítica que tem sido praticada no país. O que se observa em cada página é a mestria do autor a dividir com o leitor o sabor do texto que se insinua em considerações que nos convidam à reflexão sobre temas propostos e sempre abordados com grande lucidez.

Pode-se dizer que há um pouco de tudo em “O Sabor da Vida”. Há ensaios em que Kujawski se detém para esclarecer temas com frequência confundidos como a fundamental diferença entre erudição e cultura; outros trazem de volta ao leitor personalidades como Miguel de Unamuno, Fernando Pessoa e Sartre, destacando-se nessas leituras o vasto conhecimento do autor sobre filosofia e literatura; há o impressionante ensaio “A vida das imagens” no qual o autor recorre a Roland Barthes e Emile Zola para projetar luzes poéticas sobre o significado e função da fotografia; ao lado de incursões sobre o sempre atual maio de 68 figuram textos de cunho político, destacando-se a globalização e o poder supranacional; noutro ensaio a definição de intelectual é estampada, enfatizando-se ao algum ridículo da condição as benesses da inteligência e do talento.

Como um grande rio cujas águas são engrossadas por afluentes poderosos, os ensaios de Kujawski encorpam-se para desaguar num último que justamente é o que nos fala sobre o sabor da vida. Nele o leitor encontra-se com um final feliz no qual o autor serve-se dos sentidos do paladar e olfato para relacionar o interesse pela boa mesa, a sensibilidade enfim, com o encanto da vida e a intimidade com o saber. A esse ponto não esconde Kujawski o seu amor pelas pequenas coisas que contribuem para dar sentido à vida, fatores que aguçam os sentidos e conduzem o homem à plenitude da condição de ser pensante.

Essas considerações, ligeiras demais para retratar obra de conteúdo variado, interessante e profundo, visam convidar os leitores ao livro de Kujawski. Vale dizer que, infelizmente, o movimento editorial brasileiro é pouco atento a obras desse gênero, daí a pouca divulgação de trabalhos como este de Kujawski. É pena. “O sabor da Vida” não é apenas um livro que se lê com prazer: suas páginas são um convite ao exercício da inteligência, têm caráter informativo e, em muitos momentos, mostram-se didáticas ao trazer à tona conceitos com frequência confundidos.

Obra para ser lida e refletida, assim é “O sabor da Vida”.

Escrito por Ayrton Marcondes

18 agosto, 2010 às 11:09 am

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Machado de Assis: o homem e a obra

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O tema é recorrente e atravessa décadas, sugerindo que jamais poderá ser devidamente elucidado: como explicar a obra machadiana em confronto com o homem Machado de Assis?

As biografias de Machado tendem a vê-lo sob dois ângulos: o primeiro se atém a vida do escritor propriamente dita, lida através de depoimentos de seus contemporâneos e fatos conhecidos sobre a sua existência; o segundo é o que alia às características anteriores a trajetória das personagens dos romances de Machado de Assis. No primeiro destaca-se a obra de Mário de Alencar, filho do escritor José de Alencar, que privou do convívio de Machado no final de sua vida. O último Machado, viúvo e solitário, teria abandonado, pelo menos em parte, a sua notória reclusão e deixado transparecer a Mário de Alencar o aspecto humano que se escondia sob a face pública do escritor. No segundo evidencia-se o esforço dos biógrafos em suprir lacunas de períodos desconhecidos da vida do escritor com passagens da vida de suas personagens.

Em ensaio, de 1954, sobre Dostoievski, Olívio Montenegro lembra que, para André Gide, “raramente um autor de romance chega a fundir-se com tanta naturalidade nos seus personagens como Dostoievski”. Continua Montenegro dizendo que se constitui em grande problema para a crítica indagar se o homem é inseparável do artista, ou pelo contrário, se a arte esconde o homem. Sobre esse assunto afirma Montenegro:

Não se acerta, por exemplo, em concordar o acento divinamente lírico, a doçura de um tão suave misticismo da poesia de Verlaine, da sua poesia inefável de “Sagesse” com a desordem que se via no homem com a sua concupiscência e seus excessos de boêmio; da mesma maneira que não se identifica o sólido senso pedagógico nem os pensamentos desinteressados e vivos que se encontram no “Emílio” de Rousseau, com o selvagem egoísmo do homem que manda para a roda todos os filhos; nem por outro lado se encontra uma fórmula para conciliar em Bacon o cortesão e o filósofo, ou em Rafael o grande libertino e o pintor de Madonas.

Que me perdoem pela lembrança, mas talvez os mais jovens não tenham notícia sobre a roda, lugar onde eram colocados os nascidos indesejáveis sem que os pais fossem identificados. Essas crianças, acolhidas por entidades beneficentes, eram adotadas por famílias que desconheciam a origem delas. Vale citar que o fato de Rousseau enviar os filhos para a roda, citado por Montenegro, me era de todo desconhecido.

Não será este o espaço adequado para aprofundamento da discussão sobre o perfil de Machado de Assis relacionando-o à obra que nos deixou. O homem Machado legou à posteridade, talvez propositadamente, um perfil enigmático de si mesmo. Em vida ele não passou de um funcionário público bem comportado cuja rotina consistia em ir de casa ao trabalho com passagens pela Livraria Garnier, na Rua do Ouvidor, ao fim do expediente. Na livraria reunia-se com alguns amigos e mais ouvia que falava, reservando-se o direito de sair quando o tema eram assuntos picantes, política etc. Alguns biógrafos insistem em caracterizá-lo como mestiço e epiléptico vendo nessa condição êmulos para a obra que ele escreveu. Outros não o perdoam pelo aspecto nada pictórico de sua obra, dado que não se empenhou em incluir a natureza do país em seus romances. Todos concordam no fato de que Machado era um sujeito retraído, mas nem por isso deixando de ser gregário: de seus esforços nasceu a Academia Brasileira de Letras à qual presidiu.

O mulato pobre que circulava pelas ruas do Rio de Janeiro em pleno império regido por Pedro II tornou-se um grande intelectual e deixou obra ímpar, ainda hoje insuperável. Se não se aventurou pessoalmente, o fez através de suas personagens que passaram a fazer parte do cotidiano dos brasileiros como se fossem seres reais. Bráz Cubas, Capitu, Quincas Borba e tantos outros se incorporaram à cultura do país e mesmo hoje são muito lembrados e citados pelas situações romanceadas em que se envolveram, situações essas algo inesperadas quando se pensa na trajetória do homem que as forjou.

Retomando a dúvida de Olívio Montenegro, parece-nos que, em relação a Machado de Assis, a arte escondeu o homem. Mas, que isso não seja tomado em definitivo: Machado de Assis é sempre imprevisível e, de repente, numa de suas crônicas, despretensiosa, poderemos encontrar um desmentido a essa conclusão.

Escrito por Ayrton Marcondes

15 agosto, 2010 às 11:47 am

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As personagens de ficção

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Ao longo de nossas vidas convivemos com seres reais e, em geral, damos pouca importância aos fictícios. A torturante rotina dos dias atuais concorre para que não se dê grande importância ao mundo imaginário. Fica, portanto, a ficção como uma espécie de muleta à qual recorremos para amenizar, pelo menos temporariamente, as questões cotidianas.  Tal atitude seguramente afeta o nível de prazer que a boa ficção pode proporcionar. Vá lá que a ficção funcione como refúgio, mas, nem de leve, será essa a sua principal função.

Pode ser que as pessoas não se deem conta, mas a ficção funciona como mundo paralelo à realidade. Comprova essa afirmação a influência exercida pelas personagens de ficção sobre quem com elas faz contato. Pensando bem, ao longo dos anos, travamos contato com inúmeras pessoas que vivem apenas nas páginas dos livros. Pode ser que também olvidemos o fato, mas muitas delas exerceram e exercem influência sobre o nosso modo de ser e pensar, muitas vezes de forma mais expressiva que pessoas de carne e osso a quem conhecemos. Talvez esse fato se explique porque nas páginas dos livros chegamos a conhecer a alma das personagens mais profundamente que a de muitas pessoas que nos cercam e que, em geral, não se revelam por inteiro. Quem duvida que pense em gente como Raskolnikof e Lord Jim. As penas de Dostoievski e Conrad deram-nos essas personagens por inteiro, de modo que se tornaram familiares a nós. O duplo que existe em Lord Jim é universal, mais real do que muitos seres reais de nosso convívio.

As pessoas mais jovens talvez não imaginem mas há não muito tempo a televisão não era nem de longe o que é hoje. Na verdade, há cerca de cinco ou seis décadas, a televisão brasileira engatinhava. Assistir a um canal de televisão em cidades distantes da capital era quase um milagre. Antenas colocadas em locais elevados, fios longos ligando antenas a aparelhos de televisão e outros recursos inimagináveis eram usados para recepção de imagens sem cor, por vezes borradas, muitas vezes irreconhecíveis.

Vai daí que para o lazer contribuíam não as novelas de hoje mas as tramas escritas em livros. Foi assim que, mal saído da infância, mergulhei no romantismo, lendo, por exemplo, a obra de José de Alencar. Jamais sairão da minha memória os malfeitos do vilão Loredano que apoquentava, através de mil ardis, a vida dos heróis Peri e Ceci.

Estou dizendo que mais de quarenta anos depois, Loredano continua vivo para mim, inesquecível. Eu o conheço bem, sei do ele que é capaz. Parece-me que ele está apenas preso nas páginas de “O Guarni” e que alguém deve cuidar para não deixá-lo sair de lá, tal o perigo que oferece. Loredano é, para mim, mais integral que muitas pessoas a quem conheço ou conheci e nisso consiste toda a força com que a literatura de ficção nos subjuga.

Os muitos anos de leitura nos tornam próximos de personagens de ficção, de mundos imaginários que não se desfazem. Vida afora trava-se contato com personagens de ficção: como acontece com os seres reais, a muitos deles deixamos no caminho, esquecendo-nos deles. Outros, por assim dizer, grudam em nossas memórias e os levamos conosco como parte integrante de nossa cultura e sentido de humanidade. O fato é que se torna impossível olvidá-los, condição que confere a eles mais realidade que a atribuída a muitos seres reais.

Não adianta discutir e nenhum argumento, por mais sensato que possa ser, me demoverá da absoluta certeza de que conheci – e muito bem – pessoas como o Cândido, de Voltaire, o Bráz Cubas, de Machado de Assis, o Macbeth, de Shakespare, o Joseph K, de Kafka, e muitos outros. Essas pessoas fizeram e fazem parte do meu mundo, dando à minha vida um sentido de grandeza que ultrapassa a condição da realidade em que vivo.

Homero, Shakespeare, Dante, Joyce…

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Meu pai tinha o hábito de ler em voz alta para que escutássemos. Ele simplesmente gostava de ler e partilhar com outras pessoas as emoções das narrativas que lia. Tinha ele certa predileção por autores como Dumas, pai e Dumas, filho, mas era Dante que o encantava mais.

Creio que desde cedo a literatura me interessou graças ao hábito de meu pai. Havia sempre uma história pendente, uma trama a terminar de modo que o mundo imaginário fazia parte das nossas vidas quase como se fosse real.

Hoje em dia as crianças em idade escolar são iniciadas nas grandes obras através de adaptações. Trata-se de livros que recontam o original e, assim se acredita, despertam nas crianças futuros leitores. Espera-se, por exemplo, que a leitura da adaptação do Otelo de Shakespeare transfira à criança as primeiras emoções a respeito da maldade de Iago e as faça procurar, mais tarde, pela obra original. Por essa via busca-se o estabelecimento da atividade cultural; sinceramente não sei se é possível mensurar os resultados posteriores dessa prática.

De todo modo o fato é que hoje em dia pouco se lêem autores fundamentais como Homero e Shakespeare. Fazem eles parte de um contingente de escritores que podem ser reconhecidos como desengajados das circunstâncias de momento. Explico-me: a obra de Shakespeare é de tal modo monumental que independe das circunstâncias do momento em que é lida. Shakespeare deu voz escrita a personagens que refletem o homem em qualquer época independentemente do modo de ser e ideologias vigentes. Pode-se mesmo dizer que o autor inglês estabeleceu paradigmas eternos e insubstituíveis.  Por isso Shakespeare foi, é e sempre será atual, atualíssimo, leitura obrigatória.

Não se pode passar toda uma vida sem ler a “Divina Comédia” de Dante. Pouco importa se Dante se vingou de seus desafetos colocando-os, todos, no inferno. Assim como Shakespeare e alguns outros mestres da literatura, Dante nos encantou pela capacidade de chamar a atenção de seus leitores mesmo quando sua obra é relida por mais de uma vez.

Existe sempre algo de novo a descobrir em Homero, Shakespeare, Dante, Joyce e outros autores de obras imortais. Não se pode olvidá-los dado que atingiram os limites da criação em suas obras, emprestando dimensão maior à rotina de nossos dias

Escrito por Ayrton Marcondes

15 julho, 2010 às 3:10 pm

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Passamento

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O gordo da esquina morreu. D. Diva, que vem de manhã e prepara o meu café, disse que foi de repente:

- Ontem mesmo ele estava bonzinho, na janela, com o olho dele, de sapo.

A vida é assim, assim - disse eu para D. Diva, deixando pra lá o que mais ela falou sobre o gordo. Esse gordo – o da esquina que morreu – foi meu colega no grupo escolar. Os olhos de sapo ele sempre teve, empapuçados, como se tivessem sido untados com óleos encorpados e pouco fluídos. Daí que era só ele aparecer para a molecada gritar:

- Sapo, sapo, sapoooo.

O sapo abaixava a cabeça e sorria. Meninas se afastavam dele, jurando que ele comia insetos. Uma tal Mariinha – nunca me esqueci dela – dizia que o sapo tinha preferência por vagalumes. Ainda hoje acho que a Mariinha ficou impressionada com aquela poesia do João Ribeiro cujo título é “O vagalume e o sapo”.  A poesia constava da cartilha que usávamos na escola. É dessas que tem o moral da história porque, no final, um “feio sapo repelente, sai do córrego lodoso, cospe e baba de repente, sobre o inseto luminoso”. Ao que o vagalume pergunta:

- Porque me vens maltratar?

- Porque estás sempre a brilhar – responde o sapo.

Foi assim que aprendemos porque o brilho pessoal incomoda tanta gente…

Mas, deixa prá lá. O tempo passou, o gordo cresceu, eu também. Saí da minha terra natal e me aventurei pelo mundo, dando-me mal e bem, mais bem que mal. Até que um dia, cansado de tertúlias inúteis e explicações insatisfatórias sobre o sentido da vida, li que os elefantes voltam ao lugar onde nasceram para morrer. Na falta de outra justificativa essa me pareceu muito razoável para vender um pequeno negócio, juntar uns dinheirinhos e voltar para a minha terra, esperando não sei bem o quê.

Foi nessa ocasião, há uns pares de anos, que vim morar nesta casa, na mesma rua que o gordo. Tempos depois da minha chegada estranhei que o gordo ficasse, sempre no fim da tarde, na janela da casa dele, observando a rua. Com ele nunca troquei mais que um aceno de cabeça: eu passando, ele na janela.

Mais uma vez foi D. Diva quem matou minha curiosidade sobre os hábitos, digamos pouco usuais, do gordo. Contou-me a fofoqueira que há alguns anos o gordo se casara com a mulher de seus sonhos, sabe quem? Acreditem: justamente a Mariinha. Se foram felizes juntos , ou não, ninguém sabe, mas é certo que pelo menos o gordo era feliz. O casamento durou até que a Mariinha desapareceu. Os esforços do marido para localizá-la resultaram inúteis até que se soube, por meio de um parente, que ela fugira com um sargento de polícia.

A notícia chegou ao gordo que, a partir desse dia, nunca mais saiu à rua, reduzindo seu contato com o mundo aos breves períodos na janela, pouco antes do anoitecer.

Devo dizer que a morte do gordo me entristece e alegra. O aparente paradoxo se explica: entristece porque afinal é um ex-colega, o sapo, que partiu desta para a melhor; alegra porque ele finalmente livrou-se de sua prisão voluntária, utilizando a única saída que lhe era possível.

É lugar-comum dizer que a morte é uma fazedora de vazios. Mas que outra coisa dizer se é bem isso o que acontece? O fato é que há dois dias não saio de casa: não sei como vou me sentir ao passar pela esquina e ter certeza de que o gordo não mais sairá à janela.

Lá se foi o gordo. Enquanto isso, o elefante que vive na mesma rua aguarda a sua vez.

Por fim, resta citar Drummond:

- A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

Escrito por Ayrton Marcondes

9 junho, 2010 às 10:59 am

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Os “Ulisses” de James Joyce

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De vez em quando acontece a aquisição de um livro cuja leitura, devido ao seu alentado volume, vai ficando para depois. A verdade é que livros grandes parecem ser inadaptados à correria da vida atual. Não sei ao certo, mas creio que foi em relação à obra de Balzac que Hemingway afirmou ser extensa demais, supondo que o escritor francês nada mais tivesse a fazer que escrever livros.  

jamesjoyceNo caso do “Ulisses”, do escritor irlandês James Joyce, ao grande número de páginas – 900 – acrescenta-se a reconhecida dificuldade de leitura. “Ulisses” não é obra fácil e se me refiro ao livro no plural “Os Ulisses” é porque existem, em português do Brasil, duas traduções: a de Antônio Houaiss e outra, mais recente, cuja autora é Bernardina da Silveira Pinheiro. Das duas li a de Huaiss; a de Bernardina continua na estante à espera de momento em que eu possa em entregar a ela.

Sobre o trabalho de Houaiss posso dizer que a erudição do tradutor resultou num texto algo empolado, mas ainda assim excelente.  Parece que Bernardina adotou linha mais coloquial que, segundo li, aproxima mais o texto traduzido das intenções originais de seu autor.

De todo modo é sempre um grande encanto entrar em contato com a obra de um dos autores mais importantes do século XX, verdadeiro divisor de águas no terreno da literatura. Naturalmente críticos e leitores discordarão ao apontar pelo menos quatro autores mais representativos do modernismo literário, mas sejam quais forem os escolhidos Joyce sempre estará entre eles. O fato é que ele rompeu com os cânones que o precederam, introduzindo na literatura o chamado “fluxo de consciência”. De fato, na narrativa de Joyce privilegia-se o monólogo interior e dá-se mais espaço a aspectos psíquicos que fatores externos.

Em “Ulisses” Joyce associa sua fervilhante imaginação a grande domínio linguístico.  Trabalha com tantas variáveis que correria o risco de criar uma massa informe e descontinua demais ao entendimento de seus leitores. Evita que isso aconteça socorrendo-se com a tradição literária, justamente ela a quem seu modo de escrever subverte. Joyce vai buscar na Odisséia a linha mestra de seu texto, se é que se pode falar em linha mestra. De todo modo, as personagens principais de Ulisses - Leopold Bloom, sua esposa Molly Bloom e Stephen Dedalus são paródias das personagens de Homero - Ulisses, Penélope e Telêmaco. A trama de “Ulisses” desenrola-se num único dia, 16 de junho de 1904, em Dublin, cidade natal de Joyce. Como acontece aos homéricos, as personagens de Joyce, passam pelas vicissutudes de suas vidas desencontradas ao longo de  dezoito capítulos, cada um deles relacionado com um fato específico da Odisséia de Homero. Mas que não se engane o leitor: trata-se de uma paródia burlesca da Odisséia.

ulisses“Ulisses” foi publicado pela primeira vez em 1922, em Paris, pela pequena editora Shakespire and Company.  Considerado obsceno, o livro só pode ser publicado eno EUA em 1933, após histórica decisão judicial.

James Joyce (1882-1941), viveu grande parte de sua vida fora da Irlanda, embora suas obras se ambientem em seu país de origem. São de sua autoria o livro de contos “Dublinenses”, o romance “Retrato de um artista quando jovem”, “Ulisses”, e “Finnegans Wake”, seu últmo trabalho. Sobre “Finnegans Wake” pode-se dizer que tem estrutura por demais complexa dado que as técnicas utilizadas em “Ulisses” são levadas a verdadeiro paroxismo.

A breve notícia sobre o “Ulisses” de Joyce num blog não pretende passar por mais que simples lembrança e sugestão de leitura aos interessados em modernismo e literatura. São inúmeros os ensaios e estudos sobre a obra de Joyce. Um deles, em especial, é o escrito pelo crítico norte-americano Edmund Wilson cuja leitura funciona como excelente introdução à obra do escritor irlandês. O ensaio “James Joyce”, de Edmund Wilson, faz parte do livro  “O castelo de Axel”, publicado pela Companhia das Letras.

As duas versões de Ulisses podem ser encontradas nas livraraias. A traduzida por Antônio Hoaiss é publicação da  Civilização Brasileira ; a tradução de Bernardina Silveira Pinheiro é publicação da Alfaguara Brasil.

Por último, uma licenciosidade: para os amantes da série “24 horas”, cuja ação se passa num único dia, vale lembrar que quase 100 anos antes, James Joyce produziu “Ulisses”, narrativa que começa às 8h da manhã e termina às 2h da madrugada.

A criatividade

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a-criatividade1Imprevisibilidade, liberdade e novidade são características apensas à criatividade que resulta de atividades humanas na literatura, na ciência e na arte.

Tem-se falado muito sobre criatividade.  Atualmente cientistas utilizam recursos avançados para localizar, no cérebro, as áreas ligadas à criatividade, provavelmente situadas o lobo frontal.

Existem vários testes para medir a inteligência e provas para avaliar a criatividade. O que se busca é a interpretação de um fato intrigante: por que certas pessoas são mais criativas que outras?

As minhas relações com a inteligência sempre foram complexas. Embora tenha plena consciência das minhas limitações e não me situe entre pessoas muito inteligentes – não se trata de falsa modéstia – o fato é que em várias ocasiões duvidei da minha inteligência. Isso aconteceu, por exemplo, na época em que prestei exames vestibulares: julgava-me incapaz de reter na memória aquela quantidade absurda de dados exigidos para o sucesso nas provas. Mais que isso: não acreditava muito nas minhas possibilidades de fazer o uso correto de muitas das informações recebidas. Esse tipo de dúvida manifestava-se, principalmente, durante a resolução de problemas de matemática e física. Digamos que eu conhecia toda a teoria necessária à resolução dos exercícios, mas faltava-me a condição para chegar a ela.

Os anos me ensinaram que as coisas não são bem assim. Em primeiro lugar, há que se considerarem as aptidões pessoais. Nem todo mundo nasce como Leonardo da Vinci, capaz de fazer qualquer coisa inclusive de pintar a “Madona”, talvez só para se distrair das engenhocas que inventava. É por isso que acredito na existência de uma inteligência setorial, seja lá o que isso for. De todo modo, penso que a setorização seja algo como a posse de determinadas habilidades, talvez em detrimento de outras.

A partir daí o problema se prende à indeterminação de nossas principais habilidades. Nesse sentido a pergunta “o que eu faço melhor?” se impõe. É preciso estar atento a ela para que a atenção pessoal não se disperse em muitas coisas de modo a não se chegue a fazer bem nenhuma. Todo mundo sabe que habilidades se desenvolvem com treino. Quem dúvida que verifique as tais escolas norte-americanas para escritores. Essas escolas ou cursos são descobridores de talentos e se orgulham de muitos de seus alunos terem-se tornado escritores importantes, alguns deles chegando a receber o almejado Prêmio Politzer.

De minha parte ainda hoje não sei se consegui responder bem à pergunta “o que eu faço melhor?”. No princípio eu achava, por exemplo, que jamais conseguiria bolar um plano muito longo, algo como o que fazem os jogadores de xadrez que movem uma peça no tabuleiro tendo em mente os vinte movimentos seguintes. Depois comecei a escrever livros, alguns com muitas páginas…

Confesso que tenho medo das pesquisas sobre a inteligência e a criatividade. Não que seja contra elas, mas me preocupa que os avanços nessa área venham a servir para rotular pessoas e suas capacidades. Nesse caso entraríamos em algo semelhante ao que já vem acontecendo com a engenharia genética: quer-se utilizar a tecnologia do DNA para previsão da futura saúde das pessoas, assunto de grande interesse  para as seguradoras, por exemplo.

Creio que para muita gente o problema com a própria inteligência ainda esteja por se ser resolvido.  Pessoas já bem definidas na vida talvez ainda aguardem alguma surpresa, abrindo-se para algo que jamais suporiam.  Esse posicionamento liga-se às inevitáveis inquietações do espírito que nunca nos abandonam

Reafirmo que não tenho nada contra as pesquisas que visam não só descobrir os mecanismos, mas, talvez, encontrar meios de aprimorar os seres humanos, dando a eles melhores condições e mais prazer em viver. O meu pé atrás é só uma questão de receio, afinal já vimos o que aconteceu no passado quando os interesses do poder sobrepujaram os da humanidade e a ciência serviu a toda sorte de discriminações.

Escrito por Ayrton Marcondes

18 maio, 2010 às 11:06 am

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Oscar Wilde

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É normal os críticos baixarem o pau em Oscar Wilde. Demais ele parece ter nascido para ser controverso. Existem naturezas proporcionadas para escandalizar. São como espasmos dentro de uma civilização conservadora que se respeita e quer-se respeitada. Nesse mundo de valores tão claros e estabelecidos a ordem funciona como um remédio destinado a sanar as feridas das almas. Aí tudo se encobre: os malfeitos são punidos, as cores são contidas, os seres aberrantes punidos exemplarmente, tudo em nome de uma sociedade estável, equilibrada e ordeira.

Aí surge um Wilde. Ele é o avesso do mundo em que vive, a face escancarada que não se quer ver, a denúncia daquilo que se encobre, a subversão dos costumes, o outro lado que os homens abominam porque inconfessável. Wilde surge como um tribuno que tem o dedo em riste contra a situação humana, mostrando que a hipocrisia é o tom da vida dos pequenos e limitados seres que defendem aquilo que chamam de normalidade.

Nesse mundo de mentalidade vitoriana, Wilde é um anormal. Ele ama um jovem de seu sexo, deixa-se explorar por ele, joga a sua vida por um amor tido como sem sentido. Mas, não se pode ignorá-lo: Wilde é um dandi, Wilde afronta com suas extravagâncias, Wilde é também um gênio. Wilde escreve peças de teatro, Wilde cria Dorian Gray.

A certa altura Wilde escreve uma carta ao pai do rapaz a quem ama. O pai do rapaz o processa, a sociedade vitoriana enfim tem a oportunidade de defrontar-se com Wilde, face a face. Durante o julgamento é lida uma carta escrita por Wilde ao amante. O juiz pergunta a Wilde se considera coisa normal alguém escrever um texto como aquele. Wilde responde:

- Nada do que eu escrevo é normal.

Wilde é condenado, preso, sua vida termina poucos anos depois. Ficam os seus livros que sobrevivem a ele. Fica o livro “O retrato de Dorian Gray” que você pode encontrar nas livrarias. Há edições em português publicadas pela L&PM Editores e pela Hedra. Existe, também, uma edição bilíngue, da Landmarck.

Escrito por Ayrton Marcondes

10 fevereiro, 2010 às 10:46 am

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