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Grito de carnaval

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Tinha o Zé Carlos que, bêbado de cair, percorreu a única rua do lugar gritando, isso às três horas da manhã. Dia seguinte, em plena ressaca, Zé Carlos explicou:

- Era o “Grito de Carnaval”.

O “Grito” é comemoração realizada no fim de semana que antecede o começo do carnaval. Blocos de rua, trios elétricos e muita folia fazem parte das comemorações do “Grito”. O Zé Carlos fez o “Grito” sozinho, literalmente gritando. Terá acordado pessoas na vilazinha de uma só rua na qual viviam, na época, menos de quinhentas pessoas.

Leio nos jornais que sambistas depõem contra o carnaval de hoje. Carnaval comercial ao qual falta espontaneidade - dizem. Carnaval sem verdadeira alegria. Onde se perdeu a alegria do carnaval? Também dizem que no Rio as grandes escolas de samba estão sendo patrocinadas por empresas e até estrangeiros daí serem obrigadas a estampar logotipos, propagandas etc. Tudo isso porque os bicheiros que garantiam o dinheiro a rodo para as escolas estarem em baixa.

Por falar em “rodo” saudades do lança-perfume “Rodouro”, infalível nos velhos carnavais. Aqui e ali, no salão, disfarçando mal, aquele senhor com a “Rodouro”, injetando no lenço o líquido para ser aspirado. Um instante depois, aquela tontura, ida e volta ao inferno em segundos, consciência oscilante com repique de fuga imediata da realidade.

Do que todo mundo gostava, mesmo, era dos bailes de salão.  Há uma crônica do Mário de Andrade na qual ele conta sobre estar fantasiado num baile de máscaras em Santos. Carnaval da década de 20 ou 30, esse do Mário. Na vilazinha, aquela dos quase quinhentos habitantes, um mês antes do carnaval começavam os preparativos. Primeiro havia que se convencer o dono da padaria a ceder, por empréstimo a Momo, o salão que tinha nos fundos da casa dele para os bailes. Depois, combinar com os caras que tocavam algum instrumento para que se juntassem e tocassem nas quatro noites. Cobrava-se ingresso baratinho dos foliões e com esse dinheiro dava-se gorjeta ao baterista, ao cara do bumbo e até a um trombonista muito magro que vinha de São Paulo para ver a namorada. O dono da padaria tirava o dele, vendendo cerveja e a boa pinga. O resto era puro delírio porque bastava tocar a “Jardineira” e alguns sambas de costume para que a folia esquentasse.

Não sei como a folia acontece hoje em dia nas cidadezinhas dos interiores deste vasto Brasil. O tempo da ingenuidade é passado e o que se diz é que não se fazem bailes de salão como antigamente. Nem existe mais o Zé Carlos para dar início à folia do jeito dele.

Saudades dos velhos e bons carnavais. Quanta loucura, belas mulheres e farra a valer. Talvez o que se tenha perdido é um pouco do jeito e só isso porque carnaval é algo impresso no DNA tupiniquim, circula no sangue, daí ser imortal.

Viva a alegria.

Escrito por Ayrton Marcondes

4 fevereiro, 2013 às 12:17 pm

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