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Adeus Iraque
Mais de sete anos depois os EUA retiram suas tropas do Iraque e legam à História uma muito mal tecida colcha de retalhos, alguns deles com uma inscrição ilegível, mas que bem poderia ser “não existem bonzinhos quando estão em jogo os interesses nacionais”.
A verdade sobre todos os fatos é que não existe verdade. No grande jogo de interesses as informações são manipuladas e as explicações muitas vezes tecidas sobre enormes farsas, a começar pela razão apresentada pelo governo Bush para invadir o Iraque: colocar fim às armas de destruição que o Iraque estaria desenvolvendo.
Com a humanidade em perigo, nada mais justo que os campeões da democracia tomassem para si a missão de salvar o mundo. Assim foi. Os norte-americanos desembarcaram no Iraque e, rapidamente, desestruturaram o Estado iraquiano, levando o país a um estado de confusão praticamente insolúvel no qual saques e violências não reprimidas tornaram-se norma. A motivação de prender Saddam Husseim, colocar fim à ditadura e devolver o país à democracia foi substituída por um estado de anarquia com conflitos de etnias e sempre muita violência.
Agora os EUA vão-se embora sem ter alcançado os resultados prometidos e, pior que isso, sem encontrar as armas de destruição que, afinal, nunca existiram. A essa altura é impossível prever o que acontecerá ao povo do Iraque daqui por diante. A torcida, obviamente, é para que as coisas se ajustem.
Da malfada Guerra do Iraque restam-nos fatos e imagens que dificilmente serão esquecidas. A derrubada da estátua de Saddam é uma delas, acontecimento seguido pela infeliz cobertura do rosto com uma bandeira dos EUA; os episódios de Abu Ghraib; e as terríveis cenas do enforcamento de Saddam Husseim. Isso sem falar em atentados…
Outra coisa sobre a qual se pode especular, mas não prever, é como o futuro narrará os fatos ocorridos durante a Guerra do Iraque. A impressão é a de que a História não será benigna com as ações do império norte-americano.
Sem piloto
Meninos, eu vi. A minha geração, que já viu muita coisa, tem todo o direito de dizer-se embasbacada com os tais aviões sem piloto, produzidos em Israel. Trata-se de aviões com sensores, capazes de voar até 15 horas, guiados por controle remoto. Para que servem? Até agora para gravar o que acontece embaixo e filmar no escuro com o uso de um sensor térmico capaz de distinguir entre seres vivos e objetos inanimados.
Para que se tenha idéia da utilidade, os EUA já possuem 6 mil aviões teleguiados que voam nos céus de países como o Iraque e o Afeganistão. Mais: a indústria aeronáutica de alguns países já se prepara para produzir as máquinas voadoras teleguiadas.
Nem é preciso dizer que logo as grandes aves de metal teleguiadas disporão de armamentos o que tornará as missões aéreas em territórios inimigos aquilo que por aqui se considera ”uma baba”. Ei, você, escute: estamos chegando às mortes por agentes impessoais, mortes programadas, processadas e realizadas por máquinas, sem culpa.
Não haverá mais Guernica, a cidade espanhola completamente arrasada, em 1937, em apenas três horas, por bombadeiros Condor, pilotados por alemães. Nem haverá Hiroshima, cidade japonesa onde um piloto norte-americano lançou uma bomba atômica, em 1945. Existirão, sim, regiões bombardeadas por máquinas.
Olho para uma reprodução do quadro Guernica, de Picasso, no qual o pintor concentrou todo o horror da destruição. Penso em qual seria a reação de Picasso, caso a morte de 1645 pessoas em Guernica tivesse sido provocada por máquinas teleguiadas. Dirão, talvez, que no fundo trata-se da mesma coisa, afinal mortes são mortes, não importa quem ou o quê as provoquem. Não sei. A frieza das máquinas, o uso de recursos tecnológicos para exterminar seres humanos a partir de assassinos impessoais porque distantes e talvez desconhecidos, incorpora à realidade de nossos dias a virtualidade dos videogames. Para mim o nome disso é horror, o que me leva ao impossível passo seguinte, o da rebelião das máquinas de voar teleguiadas que, unidas, passam a exterminar o homem em toda a Terra. Impossível?
Guerra ao Terror
Apontado pelos críticos norte-americanos como o melhor filme do ano, “Guerra ao Terror” faz jus às premiações que vem recebendo e às nove indicações ao Oscar 2010. De fato, o filme oferece ao expectador tensões elevadas em nível máximo, tudo isso com um habilíssimo trabalho de câmeras que se esmeram em mostrar pequenos detalhes e a grande atuação dos atores protagonistas do enredo.
Em Guerra ao Terror” (The Hurt Locker), dirigido por Kathryn Bigelow, três soldados, William James (Jeremy Renner) JT Sanborn (Anthony Mackie) e Owen Eldridge (Brian Geragthy) são encarregados de desativar bombas. James veste um escafandro e vai desarmar explosivos enquanto os outros dois ficam na retaguarda, de olho em qualquer pessoa ou movimento suspeitos.
O tema de fundo é o pós- guerra no Iraque. Não importa muito o passado histórico pregresso da ação, as motivações que levaram o governo Bush a invadir o Iraque, colocando fim ao governo de Saddam Hussein. O que importa mesmo é o quadro dramático de um país que na verdade poderia ser qualquer um, no qual os escombros do pós-guerra escondem milhares de bombas armadas para explodir.
“Guerra ao Terror” é um filme de ação. Entretanto, trata-se de um filme que, a seu modo, procura burlar as fórmulas pregressas utilizadas em filmes de guerra. Aqui, o horror não está na guerra em si, mas em suas consequências e no modo como o perigo se insinua no espírito dos soldados. Existe um ritmo frenético de ações que se repetem diariamente, colocando em risco a vida dos soldados. Entretanto, cada ação em si é demorada porque envolve cuidados para desarme de bombas. É do contraste entre o ritmo frenético de ações e a lentidão dos processos de desarme que gera-se a grande angústia que toma conta do expectador. A isso soma-se a contagem regressiva dos dias que faltam para a equipe de soldados deixar o Iraque.
Assim, cada dia pode ser o último, cada bomba o prenúncio do fim. Por isso, a rotina dos soldados consiste numa espécie de sobrevida proporcionada pelo acaso que os faz violentos consigo mesmo e entre si: só com a violência interior pode-se enfrentar a violência exterior, num curioso mecanismo de válvula de escape necessária à preservação do equilíbrio e da sanidade.
O sargento William James é um especialista para quem o desarme de bombas parece ser uma arte. Ele guarda embaixo de sua cama uma caixa com pedaços de fios e mecanismos de bombas que desativou: são os seus troféus, espécie de compensação pelos momentos de perigo que enfrenta no seu cotidiano.
O sargento William James não é um homem comum e esse fato justifica a sua dúvida em participar de novas missões tremendamente perigosas. Há quem tenha visto na necessidade de James continuar desarmando bombas uma espécie de vício: a guerra vicia. Não será, certamente, essa a melhor interpretação. O fato é que certas pessoas são talhadas para determinadas atividades e, principalmente, momentos especiais. Existem homens que não nasceram para viver em tempos de paz, aos quais não se adaptam. As guerras oferecem oportunidade a espíritos inquietos e que amam o perigo. William James é um desses homens, ele precisa da guerra e a guerra precisa de homens como ele, nesse fato a explicação a opção que ele faz no fim do filme.