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A agonia do Cine Belas Artes

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Há quem fale em saudosismo quando pessoas protestam contra o fechamento de um cinema que, durante décadas, constituiu-se em polo cultural de uma cidade grande como São Paulo. O caso do Cine Belas Artes é emblemático no sentido de que o encerramento de suas atividades representa a submissão de um ponto de convergência cultural ao mundo dos interesses e negócios.

O Belas Artes de hoje é um sobrevivente dentro de um mundo de salas de projeção de rua desaparecidas e substituídas por outras mais modernas e localizadas em shoppings. De fato, a lógica comercial converge para o fechamento de um ramo de negócio para que outro, certamente mais rentável, ocupe o seu lugar. Obviamente, tal raciocínio não leva em conta qualquer escala de valores de modo que tanto faz que no tradicional ponto comercial, localizado junto à esquina da Rua da Consolação com a Av. Paulista, funcione um cinema ou uma loja. Entretanto, essa indiferença não se aplica quando o que está em jogo é parte da memória cultural da cidade e uma das importantes referências de seus habitantes.

Conheci o Belas Artes nos meus primeiros anos em São Paulo, então uma cidade em transformação e ainda sem essa insaciável sede de violência. Não faz tanto tempo assim. O centro da cidade era, digamos, mais respeitável, sem essas levas de desocupados, tantas vezes bandidos que nos ameaçam. Para ficar num só exemplo, a Rua São Bento tinha suas lojas chiques que se abriam na calçada sem qualquer constrangimento. Havia mais cuidado com as vestes; respeito e lhaneza no trato figuravam entre os hábitos dos paulistanos. Não era nenhuma maravilha, mas respirava-se mais civilidade.

Frequentei o Belas Artes nas décadas de 70 e 80. Ali assisti a filmes de grandes diretores como Michelangelo Antonioni, Akira Kurosawa, Alain Resnais, Ingmar Bergman e muitos outros. Era um cinema “cabeça”, mais preocupado com a qualidade e fugindo do apelo comercial dos filmes exibidos nas demais salas da cidade. Se há algo que me irritava um pouco eram as filas de espera entre uma sessão e outra: no espaço destinado à espera reuniam-se muitas pessoas, entre elas os tais intelectuais de plantão sempre prontos a exibir sua cultura através de uma enxurrada de opiniões, quase sempre superficiais. O lugar era propício ao surgimento de críticos de salão, opiniosos sobre diretores e filmes. Também não custa confessar que ali, no Belas Artes, assisti a um ou dois filmes que não compreendi muito bem. Em particular sai muito chateado de um filme de Bergman cujo sentido maior me escapou. O curioso é que mais tarde me empenhei em descobrir que filme fora esse: tornei a assistir a filmes de Bergman que vira no passado, mas não identifiquei aquele que desafiara a minha compreensão.

Como se vê o Cine Belas Artes está ligado à memória de muita gente que tem nele referência cultural e a ele dedica muito carinho. A notícia do fechamento no fim de janeiro logrou mobilizar muita gente e está sendo proposto o tombamento do cinema, coisa que está por ser decidida. Evidentemente, torcemos por alguma medida que impeça o fim do Belas Artes. Enquanto isso, o velho cinema que existe há quase 70 anos, vai vivendo a sua lenta agonia, agora com esperanças de salvamento.