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Estado de violência

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Uma juíza é barbaramente executada e desperta revolta da opinião. Ato contínuo veiculam-se notícias sobre juízes ameaçados de morte em todo o país. Um deles, entrevistado, declara morar longe da família para protegê-la. No mais, sempre é acompanhado por seguranças e diariamente vê-se obrigado a percorrer caminhos diferentes para chegar ao trabalho.

O juiz entrevistado é um homem jovem. Leva a sério sua profissão e função. Sacrifica a vida pessoal em nome do que acredita. Embora seja pessoa do bem o fato é que vive encarcerado, pagando alto preço pelo exercício da sua profissão. Nem é o caso de perguntar a ele se vale a pena. Pode não valer a pena para a maioria das pessoas, mas para ele certamente vale.

O que se explica, mas não se entende é a vigência de um estado de violência no país.  É a violência a governar a vida. Inserida no contexto diário das pessoas a violência pode se apresentar a qualquer um, inesperadamente. Atores para colocá-la em ação não faltam: uma horda de criminosos circula pelas ruas, a maioria deles capaz de atitudes inconsequentes. Matar ou morrer, não importa. Agindo por instinto, prontos a matar alguém ou morrer em ação, está em andamento uma nova estirpe de seres para quem a vida carece de qualquer valor. Nenhuma lógica logra acrescentar sentido a ações altamente arriscadas e perigosas nas quais tudo pode acontecer. Daí lermos diariamente que, durante um assalto, alguns criminosos fugiram enquanto outros foram mortos. A troca de tiros com a polícia, as mortes em ambos os lados, já pertencem ao domínio do inevitável que tem lugar no cotidiano e passa a ser aceito como fatalidade.

Agora surgem as crianças que agem em grupo na região do metrô Ana Rosa, em São Paulo. Tentaram assaltar um hotel, depredaram uma instituição que cuida de menores e mostraram agressividade incomum. Crianças. Algumas, com menos de 12 anos de idade, foram devolvidas às ruas, lugar onde vivem. A legislação não prevê encaminhamentos para menores de 12 anos, irresponsáveis legalmente. Em relação a isso muito pode se dizer, mas nada que resolva o problema. Tal atitude depende de outras, é preciso mudar a lei que, por sua vez, depende de estudos e aprovação e por ai vai de modo que o problema permanece.

O estado de violência abre suas entranhas e exibe, publicamente, o ventre no qual o mal é gerado.  Até então assistíamos ao ritual de violência, fingindo desconhecer as origens dele. Agora o berço emerge da escuridão e - coisa terrível  - mostramo-nos pasmos e sem saber o que fazer com uma bando de crianças atraídas pela delinquência.