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A vergonha

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Você tem em seu passado algum fato que o faça envergonhar-se? Acho que pouca gente - ou ninguém - escapa de ter cometido um pequeno deslize ou algo desagradável. Existem atitudes impensadas, realizadas tantas vezes sem querer, que magoam pessoas. São as tais ofensas involuntárias que podem causar dor em quem as recebe. Ou, mesmo, voluntárias de que muita gente se arrepende mais tarde.

Um amigo certa vez me confidenciou que sentia vergonha por algo que fizera na mocidade. Disse tratar-se de vergonha do tipo que faz o sujeito cobrir o rosto no escuro quando acorda durante a madrugada. A história dele era simples: tivera uma namorada por quem se apaixonara. A moça pertencia a uma família amiga, conhecia-a desde criança bem como a seus pais e demais familiares. Estavam de casamento marcado e as famílias faziam muito gosto na união que se seguiria por festa cujo preparo vinha sendo providenciado. Pois faltando apenas uma semana para o casório deu-lhe na telha de não querer casar-se. Entendeu ele que a noiva não seria a mulher que escolheria para toda a vida, encheu-se de coragem e disse isso a ela. Segundo me disse as consequências de sua decisão foram muito maiores do que pudera imaginar. A noiva entrou em depressão, a família dela jamais o perdoou e mesmo os pais dele o recriminaram: ninguém podia entender porque levara o caso tão longe para vir a desistir nas vésperas.

Há casos e casos. Penso que quem lê este texto possa parar por um instante e puxar do fundo de sua memória algo de que nem mesmo goste de lembrar-se. Quanto a mim creio seja melhor calar-me porque nunca fui dado a confissões em público. Mas, deixo claro que tenho lá uma meia dúzia de coisas inconfessáveis das quais me arrependo e me envergonho. Não se imagine que eu tenha cometido algum crime ou qualquer barbaridade. Mas, há uma época na vida em que somos mais jovens e talvez inconsequentes. Em certas idades os hormônios agem mais violentamente e torna-se difícil segurar os impulsos.

A vergonha faz parte do caráter do homem. Sentir vergonha revela-nos humanos e sensíveis. Talvez por isso eu não consiga compreender boa parte da atividade de muitos políticos. Mentem em público diante de um país que sabe que estão mentindo. Negam o seu passado de malfeitos com a maior cara de pau.  Pegos em flagrante ainda assim tem o desplante de subir à tribuna para discursar e jurar inocência.

Não imagino como esses homens públicos voltam para suas casas e encaram suas famílias, nem mesmo como se veem diante do espelho. Creio que a política faz com que aqueles que a praticam sejam compulsoriamente conduzidos a criar uma máscara com a qual se apresentam em público. A máscara, imaginam, cobre o verdadeiro eu que estaria perdoado. Existiria, portanto o “eu individual” separado do “eu político” cujas atitudes em nada maculariam o anterior.

Dirão que isso é bobagem, que o homem é um só e sobre ele recai o peso de suas atitudes quaisquer que sejam. Mas, então, como entender que seres que receberam a confiança do povo através do voto se mostrem capazes de tanta desfaçatez? Questão de caráter?

De confissões e arrependimentos

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A necessidade de confissão é um dos flagelos do homem. Confessa-se por purificação. Também se confessa por um incontrolável desejo de partilhar segredos por vezes inconfessáveis.

Confissões orais, sem gravadores por perto, ainda podem ser reconsideradas. Mas quando os pecados são narrados por escrito faz-se prova e aí resta torcer para que ninguém a encontre.

As pessoas que documentam suas confissões escrevem por dor ou prazer, compulsivamente. Há os que, diante de fracasso amoroso, decidem fazer um diário. Se as mazelas versarem sobre um(a) amante, o perigo é que cheguem à pessoa traída. Imagine o diário de um homem, que sofre pela amante, caindo nas mãos da mulher dele, a oficial. Tragédia, tragédia, tragédia.

A regra de ouro em casos assim é negar sempre, negar até a morte. Mas é impossível seguir a regra quando existe uma romântica confissão de próprio punho, fazendo parte de um diário. No mais, os homens costumam negar mais frequentemente  que as mulheres, talvez porque elas sejam mais decidas, determinadas.

As confissões por prazer também podem acarretar grandes problemas. É o que está acontecendo na França com um ministro do governo do presidente Sarkozy. Trata-se de Frederic Mitterrand, ministro da Cultura. Frederic é um homem de 62 anos de idade, sobrinho do ex-presidente François Mitterrand. Pois Frederic acaba de se envolver em um escândalo sexual por confissões incluídas num livro que escreveu: ele pagou meninos na Tailândia para manter relações sexuais com eles.

No livro intitulado “La mauvaise vie” Frederic confessa a sua liberdade e alegria em pagar a meninos por sexo nos bordéis de Bangcoc. Mais: o conhecimento das implicações do tráfico sexual não diminuía a atração dele por jovens garotos de programa.

Frederic Mitterrand anuncia que não pretende renunciar ao seu cargo no governo, embora acusado de estimular o turismo sexual.  Numa entrevista afirmou que seu livro não é totalmente autobiográfico, coisa em que ninguém parece acreditar.

Diante disso o que nos resta é especular sobre as razões que levam um cidadão que ocupa tão alto cargo a confessar com alegria as suas incursões num território que a quase totalidade das pessoas considera abominável. De fato, a prostituição infantil é repulsiva e tem merecido combate internacional para reprimi-la.

Frederic Mitterrand terá as razões de foro íntimo para narrar as suas aventuras com meninos e parece que nada houve de arrependimento em suas intenções. Ele fez como certos tipos que conhecemos que adoram dividir em detalhes as suas “faturas” com os amigos.

O que se seguirá a isso depende da velocidade com que as pessoas olvidam coisas que as constrangem. Se assim acontecer o presidente Sarkozy manterá no cargo o seu ministro e autobiografia que ele escreveu será confundida com ficção para que tudo se mantenha em perfeita ordem e o mundo continue a girar como se nada tivesse acontecido.