Mínima notícia sobre “Os Sertões” at Blog Ayrton Marcondes

Mínima notícia sobre “Os Sertões”

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sertoesMas, afinal, de que assunto trata o livro Os Sertões?

Pergunta simples, resposta complexa. Podemos encaminhá-la lembrando que, em 1897, ocorreu no sertão da Bahia episódio que ficou conhecido como a Guerra de Canudos. Chefiados por Antônio Conselheiro, sertanejos reuniram-se numa cidadela - chamada Canudos – situada nas margens do rio Vaza-Barris. O crescimento da nova comunidade e as características de seu líder e adeptos incomodou fazendeiros da região pela redução da mão-de-obra disponível nas fazendas; acrescendo-se a isso o não pagamento de impostos e práticas consideradas incompatíveis com a religião, gerou-se situação considerada de exceção pelo governo estadual e, logo depois, pelo governo federal.

A tentativa de dissuadir os conselheiristas a abandonarem o local através de intervenção da Igreja – dois capuchinos visitaram Canudos para este fim – resultou inútil. A partir daí, pequenos incidentes precipitaram ações progressivamente maiores dos governos estadual e federal. Foram realizadas quatro expedições militares contra Canudos. O fracasso da terceira expedição, formada por 1300 homens, transformou Canudos num problema nacional: atribuiu-se à cidadela a condição de foco monarquista, isso numa época em que o regime republicano estava por se firmar e temia-se o retorno da monarquia.

A quarta expedição, comandada pelo general Artur Oscar, enfrentou grande resistência dos canudenses e prolongou-se por tempo além do previsto. Ante o iminente fracasso de mais uma expedição o Ministro da Guerra, marechal Carlos Machado Bittencourt, foi enviado ao palco das operações. É nesse momento que se inicia a participação de Euclides da Cunha no conflito. Em março de 1897 Euclides havia escrito dois artigos sobre Canudos no jornal O Estado de São Paulo sob o título de A Nossa Vendéia. No primeiro desses artigos traduzia a impressão de que o movimento de Canudos visava a restauração da monarquia. Entretanto, para o articulista, o simples desejo de restauração seria insuficiente para explicar tão grande sublevação. Havia, portanto, em Canudos um mistério a se desvendar. Além disso, adiantava-se Euclides ao tom dos artigos escritos na época, alertando para as condições geográficas do sertão, estas talvez o maior inimigo das forças republicanas.

Convidado por O Estado, Euclides da Cunha licenciou-se de suas atividades e tornou-se repórter daquele jornal. Tempos depois, embarcou em direção a Salvador viajando no mesmo navio que levava Machado Bittencourt. O desembarque na cidade aconteceu em 7 de agosto sendo que ali ficaram até 30 de agosto, data do início da viagem ao sertão. Dos dias em que Euclides esteve em Salvador e de todo o período de viagem a Canudos resultaram vários artigos enviados por ele e publicados pelo jornal. Toda essa correspondência de guerra foi mais tarde reunida num livro de reportagens intitulado Diário de uma Expedição.

Chama atenção nessas reportagens a progressiva mudança das opiniões de Euclides: o contato com a realidade do sertão e a extraordinária capacidade do escritor para observar e analisar detalhes ignorados por outros rapidamente o convenceram de que a guerra que supunha-se rápida não estava por terminar; que Canudos de modo algum seria foco de resistência monarquista com intenções restauradoras. Canudos era, sim, uma sociedade velha gerida pela autoridade do Conselheiro e ininteligível aos brasileiros do litoral.

Canudos finalmente caiu nos primeiros dias de outubro de 1897. População dizimada e arraial destruído, a vitória foi comemorada com grandes manifestações na capital federal. A espantosa resistência dos jagunços resultou em mais de cinco mil mortes nas tropas do Exército – considerando-se as quatro expedições.

Terminada a Guerra Euclides da Cunha retornou às suas atividades de engenheiro junto à Superintendência de Obras do Estado de São Paulo. Entretanto, já trabalhava em seu livro que só viria a ser publicado em 1902.

Em Os Sertões Euclides da Cunha não se limita a narrar os episódios da sangrenta Guerra de Canudos a qual denunciou como crime. Para explicar os fatos ocorridos no sertão da Bahia o escritor serve-se de todos os meios que, na época, estão ao seu alcance. Exaltando a influência do meio e da raça no comportamento coletivo, Euclides recorre à geografia, à sociologia, às características climáticas, raciais e biológicas, às biografias, ao linguajar dos caboclos, aos depoimentos que ouviu e todo o conteúdo do que pode observar no sertão. Só munido de tais ferramentas pode estabelecer as diferenças entre o brasileiros das regiões litorâneas e as incultas gentes dos sertões, submetidas às mais precárias condições de vida, ao ambiente geográfico e climático completamente desfavorável. Foi desse modo, analisando profundamente os móveis que permitiram o surgimento da coletividade canudense que Euclides, aos poucos deixando de lado suas convicções científicas moldadas segundo o determinismo vigente na época, pode ver no jagunço outra sorte de brasileiros cuja defesa procedeu através das páginas de seu livro vingador. Sobre isso nos diz Silvio Rabelo, um dos biógrafos de Euclides: ” Ele viu na resistência heróica dos jagunços do Conselheiro mais que uma possível ameaça às instituições e à ordem estabelecida. Ele viu o direito de sobrevivência de uma população que estacionara por não ter tido condições favoráveis à assimilação dos valores culturais do litoral, em bases econômicas mais sólidas e sob influência de idéias mais avançadas. Os Sertões são, deste modo, um brado e brado quase inútil, contra o crime de um governo que abandonara a sua gente a uma natureza nem sempre propícia à vida e a uma organização social nem sempre compatível com a dignidade humana; e, mais do que isto, exterminara-a sem nenhuma condescendência.”

É a variedade de recursos utilizados por Euclides na confecção de seu livro – história, geografia, etnologia, sociologia, etc – que torna inúteis as tentativas de classificar Os Sertões dentro de gêneros literários estanques. Livro de história, sociologia, literatura ou simples ficção? Impossível responder a não ser para dizer que Os Sertões são a um só tempo um pouco disso tudo e, mais que isso, obra genial de um genial escritor.

Há na prosa de Euclides muito de poesia conforme atestaram alguns estudiosos. A linguagem é rica e profunda sugerindo estar o escritor a esculpir suas palavras, metodicamente. É muito dele o uso de palavras incomuns e mesmo a busca de termos arcaicos quando não encontra no vocabulário de sua época algo que sirva para traduzir com fidelidade a imagem que empresta ao leitor. Precisão de relojoeiro, de alguém atento ao ritmo e às sonoridades, alguém que tem o gosto por paradoxos e que abusa de contrastes para deles extrair a força máxima de palavras e imagens. Assim, a riqueza verbal de Os Sertões é estonteante, obra de quem força a língua aos seus limites para dela extrair o máximo.

O grande livro que é Os Sertões paga tributos aos conhecimentos científicos vigentes á época em que foi escrito. Entretanto, Euclides da Cunha rompe com a camisa-de-força dos princípios então disponíveis para descobrir nos sertanejos a grande força que os conduz ao extermínio, embora sem jamais render-se. “O sertanejo é, antes de tudo, um forte” e “Canudos não se rendeu” estão entre as máximas imorredouras da obra de Euclides da Cunha e traduzem com fidelidade a natureza do trabalho a que ele se dedicou.

Escrito por Ayrton Marcondes

2 março, 2009 às 8:40 am

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Postado em Literatura



3 Respostas para 'Mínima notícia sobre “Os Sertões”'

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  1. Deixo uma pergunta! Quando o Marechal Carlos Machado Bittencourt foi nomeado Ministro de Guerra, em substituição ao Gal. Dionísio Evangelista de Castro Cerqueira? Sei que foi depois do desatree de 18 de julho , com opedido de reforço efetuado em 23.07.1897. Em 28.07 o Marechal Carlos Machado Bittencourt já era o novo Ministro da Guerra.

    mucio roberio procopio de araujo

    14, 14America/Sao_Paulo agosto 14America/Sao_Paulo 2009 às 11:06

  2. Prezado Múcio

    Quando Prudente de Moraes assume a presidência da República, em 1894, é nomeado Misnistro da Guerra o Gal. Bernardo Vasques, conhecedor dos probelmas do Rio Grande do Sul. No dia 10 de outubro de 1896 Prudente licencia-se e assume o governo o baiano Manoel Vitorino Pereira. Vitorino muda o ministério e para a pasta da Guerra é nomeado o Gal. Dionísio de E. de Castro que logo é substituído pelo interino Gal Francisco de Paula Argolo. Em 3 de março de 1897 Prudente retorna ao poder e mantém o ministério de Vitorino. Argolo continua na pasta da Guerra até maio quando o Marechal Carlos Machado Bittencourt passa a ser o novo ministro da Guerra. Quando acontece a catástrofe da terceira expedição a Canudos, comandada pelo Cel. Moreira Cesar, o Gal Argolo está à frente do ministério.
    Não sei precisar a data exata da posse do marechal Bittencourt. Entretanto é certeza que no mês de maio ele já havia assumido a pasta da Guerra: é ele quem requisita, neste mês, a munição existente na Escola Militar da Praia Vermelha para que seja enviada ao Rio Grande do Sul.

    Ayrton Marcondes

    15, 15America/Sao_Paulo agosto 15America/Sao_Paulo 2009 às 18:43

  3. Olá Marcílio

    O senhor propõe uma questão que esbarra no conceito de metaficção historiográfica. Entende-se que há uma diferenciação entre romance histórico e a metaficção. No romance histórico a ficção e a história convivem para resgatar o passado, sendo as personagens históricas servem para dar credibilidade ao mundo da ficção. Na metaficção há uma problematização de fatos tidos como verdadeiros, um diálogo com o passado oficial que é submetido a uma leitura crítica. Essa abordagem permite repensar o presente sob a luz do passado.
    Gilberto Freyre defendia a tese de que “Os Sertões” devem ser lidos no seu verdadeiro contexto que é o de obra ficcional. Isso dá muito pano para manga porque é muito difícil situar a categoria a que pertencem “Os Sertões”.
    Se a definição de metaficção históriográfica acima for correta pode-se dizer que Euclides não fez metaficção. Entre outros fatos ele trabalhou sofre fatos praticamente em primeira versão o que tornaria complicada a ideia de diálogo com o passado.
    Entretanto, se fizermos uso da definição que o senhor apresenta - parte ficção, parte realidade - pode-se dizer que há metaficção na obra eucliana. Assim, quase toda a abordagem sobre Antônio Conselheiro seria metaficcional: às características conhecidas do Conselheiro Euclides animou ficcionalmente a sua personagem, sua possível ação durante a guerra e assim por diante. O mesmo pode-se dizer em relação a outros personagens do livro cujas atuações conhecidas foram, por assim dizer, ficcionalizadas.
    Espero ter contribuído para solucionar a sua dúvida. Abraço do

    Ayrton

    Ayrton Marcondes

    22, 22America/Sao_Paulo setembro 22America/Sao_Paulo 2010 às 11:19

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