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Sexta Maior

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Há muito não me encontrava com o silêncio desta manhã se sexta-feira santa. Perto das nove pairava atmosfera de recolhimento e mesmo os pássaros estavam calados. Vez ou outra um canto curto, isolado, como a lembrar de que a vida tem suas inflexões e existem horas em que o melhor é meditar.

Tão clara e absoluta manhã devolveu-me outras de tantas sextas santas. Havia mistério e respeito nos rituais religiosos e a figura do Crucificado impunha-se com força nos corações. A morte de Jesus, o cadáver do Senhor velado nas igrejas, a procissão do Senhor morto, acompanhava-se a liturgia sagrada com muita devoção. Não existia melhor momento para se colocar a vida em ordem, arrepender-se dos pecados e enfrentar as culpas. Disso tudo talvez resultasse uma pessoa mais humana e bem intencionada, preparada para o amor a seus semelhantes, desapegada das coisas do mundo. Não importava que, passados os dias santificados, as pessoas tornassem aos costumeiros pecados. Mais importante fora o convite à meditação e a expiação de culpas passadas, às quais outras se somariam, mas que fazer se a vida é assim mesmo e a retidão um sonho impossível?

Não sei se ainda é assim. Certamente as cerimônias religiosas se repetem, mas a atmosfera dos acontecimentos não é a mesma de tempos passados. Persiste, sim, a mesma sintonia em almas piedosas. Mas, os novos tempos, os desacertos da igreja e o crescimento de outras religiões certamente pesam contrariamente à mística que tanto nos impressionava. A fé torna-se maior que a crença e os ritos perdem sua força.

Em todo caso é bom lembrar que a sexta-feira santa continua a ser dia muito especial. Associa-se ao dia a ideia de não se entregar a atividades costumeiras. Sexta-feira santa não é dia para isso, para aquilo etc. Hoje de manhã passei num dos raros depósitos de materiais aberto para comprar uns sacos de entulho. Ao que o vendedor me lembrou da impropriedade de se carregar entulho num dia assim. Vexado, disse a ele que precisaria dos sacos na semana que vem e adiantava-me na compra.

Da imagem do vendedor passo à de uma lendária figura, o Afonso, cuja morte se deu há muitos anos. Esse Afonso era dado à preguiça de modo que o trabalho regular parecia a ele coisa impertinente. Casou-se com professora e nisso deu-se bem até que a falta de compromisso com o trabalho e as bebedeiras regulares o deixaram sozinho. Era um bom sujeito, visitante oportunista da casa dos amigos em horários certos para filar uma boia, ainda assim muito bom camarada, respeitador.

Pois foi desse Afonso que herdei o meu modo de encarar a sexta-feira santa. No dia sagrado, aplicava-me eu a um pequeno trabalho quando encontrei o Afonso. Recriminou-me ele por estar em atividade. Contou-me que não era adepto de nenhuma religião, mas que certa ocasião fora caçar justamente na sexta em que Jesus foi morto. Segundo me disse, por várias vezes teve os seus alvos bem à frente, em posições que nunca antes errara. Pois parecera a ele que as balas de sua espingarda desviavam-se, como de propósito, tanto que logo compreendeu o recado e voltou para casa:

- Era sexta maior, era sexta maior - disse-me o Afonso.

Desde então guardei a impressão de que não é bom fazer coisas num dia assim. Existe o risco de tudo dar , então o melhor é esperar a próxima segunda-feira quando o mundo voltar a girar com a confusão de sempre.

Dirão que é bobagem. Também acho. Mas, não me arrisco.

Escrito por Ayrton Marcondes

22 abril, 2011 às 4:38 pm

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