Wall Street 2 at Blog Ayrton Marcondes

Wall Street 2

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Você que, como eu, deve conhecer os meandros das bolsas de valores só de ouvir falar, corre o risco de ficar estarrecido com o nível de selvageria praticado no entorno dos negócios que ali se realizam. Trata-se de um mundo a parte, com lógica própria, um tipo de jogo praticado por atletas que têm nos ganhos de investimentos sua razão única de viver. O perde-ganha das ações que sobem e descem, os boatos que destroem empresas – e empregos –, a relação de mão única com o capital, a submissão incondicional do caráter às necessidades especulativas, tudo isso e muito mais é mostrado sem nenhuma piedade em “Wall Street 2, o dinheiro nunca dorme” do diretor Riddley Scott.

Continuação de “Wall Street: Poder e Cobiça”, que deu o Oscar a Michael Douglas no papel de Gordon Gekko, o filme conta a história de ressureição do mesmo Gekko após passar oito anos preso por ter cometido crimes contra o sistema financeiro. Aparentemente regenerado Gekko escreve livros e parece imbuído de um novo caráter. Entretanto, a vida de Gekko se cruza com a de Jack (Shia LaBoef), rapaz  que atua em Wall Street. Logo no começo do filme Jack recebe um bônus de U$ 1,5 milhão, dinheiro que obviamente investe em ações justamente num momento de queda da Bolsa. Jack trabalha para o seu mentor e chefe Lois Zabel (Frank Langella), que comete suicídio ao perceber que sua firma afundou devido a boatos e tramas armadas por executivos competidores. A morte de Zabel, jogando-se debaixo de um trem do metrô de Nova York, remete o espectador a situações históricas de desespero coletivo como aquela ocorrida durante a quebra da Bolsa em 1929.

É para vingar a morte de Zabel que Jack se une a Gekko. Da parte de Gekko o maior interesse é aproximar-se de sua filha, Winnie (Carey Mulligan), namorada de Jack. A partir daí a trama se desenvolve simulando verdadeiro xadrez no qual a regra do jogo é a falsidade. Ninguém se salva nessa selva de interesses que colidem e, se alguma justiça se faz contra o especulador que levou Zabel à morte, a balança novamente se desequilibra com vantagens para o sempre mal intencionado Gekko.

O filme investe bastante na relação entre Gekko e Winnie. Ela detesta o pai que a todo custo quer-se aproximar dela como se buscasse se redimir de falhas anteriores. Winnie quer ser o que o pai não é e, para isso, torna-se proprietária de um site de internet sem fins lucrativos. Mas, como sempre acontece em casos dessa natureza, Winnie acaba por se casar justamente com Jack, cópia modificada, mas sempre cópia do pai dela.

O que mais impressiona em “Wall Street 2, o dinheiro nunca dorme” é o jogo que se realiza em torno de interesses que não levam em consideração a existência de cidadãos comuns. Não por acaso o filme de Riddley Scott tem uma cena na qual os prédios de Nova York servem de contorno ao traçado de um gráfico caracterizando as oscilações dos valores de ações. Trata-se de uma desumanização do capital dado que não importam as vidas dentro dos prédios e sim o que representam em termos de investimentos.

A ganância é boa? – é Gekko quem pergunta, explicando que caso seja excessiva pode estragar tudo. Mas, se alguma lição se pode tirar desse filme que busca desnudar o perde-ganha das bolsas de valores é a de que o mais importante é o jogo praticado por homens talhados para jogá-lo. Aliás, é o mesmo Gekko quem, a certa altura, adverte que o importante não é o dinheiro, o que vale é o jogo. Pena que esse jogo cruel, que  move trilhões de dólares, leve países inteiros ao desespero e contribua para a desigualdade no mundo. Ao ser tornar absolutamente impessoal o movimento de valores arrasta milhares de pessoas, condenando-as muitas vezes à miséria e desvalorizando marcadamente o trabalho. A riqueza tem o seu modus operandi e isso pode ser visto na suntuosidade da festa à qual Gekko e Jack comparecem, sempre em busca de formas de vingança e bons negócios.

Ninguém se salva, não existe ética e nem o moral da história no filme de Riddley Scott. O mundo é como é; a sociedade não passa de reflexo dos homens que a criaram. O sistema se sustenta dentro de regras ambíguas que se distorcem na medida em que isso se torne necessário para salvar grandes corporações e manter a credibilidade pública. O resto é história da carochinha.



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