2015 janeiro at Blog Ayrton Marcondes

Arquivo para janeiro, 2015

Rir faz bem

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Vez ou outra assisto pela TV a alguns “stand up” de humoristas norte-americanos. Ali se fala de tudo, com liberdade que pode chegar a constrangedora. Mas, o público se diverte. Aceita-se muito bem o que vem do palco, inclusive tiradas de cunho racista e fortes apelos sexuais. O tom dos humoristas da América nem sempre parece engraçado para nós. Celebridades do cinema, políticos e gente importante são escrachados sem a menor cerimônia para delírio da plateia. Num show a que assisti George W. Bush foi arrasado sem que isso gerasse qualquer tipo de retaliação posterior. Noutro uma humorista, tirou a blusa para exibir ao público as cicatrizes de uma mastectomia a que se submetera para tratar o câncer de mama. Isso sem falar em atitudes às vezes hostis ao próprio público.

No Brasil os “stand up” tornaram-se frequentes. Uma nova geração de humoristas faz sucesso. Alguns deles são ótimos embora poucos mostrem talento invulgar. Entre nós foram precursores do gênero José de Vasconcelos, Chico Anysio e Jô Soares. Na verdade não se pode dizer que os precursores faziam o “stand up” nos moldes atuais. José de Vasconcelos, por exemplo, usava efeitos de luz e música em suas apresentações. Hoje o “stand up” é conhecido como “cara limpa”, ou seja, o humorista não usa piadas prontas e se atém a acontecimentos do cotidiano.

O sucesso dos novos humoristas deu origem a programas de “talk show” como os apresentados por Danilo Gentile e Rafinha Bastos na TV.  Trata-se de programas curiosos, marcados pela irreverência que às vezes descamba para alguma escatologia. Mas, são engraçados, divertem.

Nos anos 70 do século passado assisti a uma apresentação de José de Vasconcelos em teatro. Acho que nuca ri tanto na vida. O Zé era demais, infinitamente superior aos papéis mais contidos que tantas vezes fez em programas cômicos na TV.

O brasileiro sempre foi um povo propenso a rir, até mesmo das desgraças. No passado os programas humorísticos transmitidos pelo rádio eram ouvidos em toda parte. Nomes como os de Zé Trindade, Lauro Borges, Castro Barbosa e muitos outros que se apresentavam pela Rádio Mayrink Veiga eram conhecidos em todo o país. Chico Anysio fez sucesso durante anos com seus programas humorísticos apresentados pela TV. Ronald Golias era amado pelo público, sem restrições.

É muito benvinda a atividade dos novos humoristas que mantêm viva a descontração e a capacidade de rir dos brasileiros. Digo isso por temer que, na verdade, o brasileiro já não seja o povo propenso às risadas de antes. Problemas e sufocos experimentamos em todas as épocas, maus governos também. Estamos habituados à desconsideração com a coisa pública. A corrupção que tanta se alardeia não é nenhuma novidade, embora escandalize pelas proporções gigantescas. Mas, o longo período de ditadura, que tanto tolheu a alegria dos brasileiros, deixou marcas. Depois dela vieram períodos que de forma alguma lograram resgatar a confiança no país. De modo que hoje em dia talvez muita gente esteja se esquecendo de como é bom rir, atolada que está nos problemas cotidianos. Como faz bem à alma retribuir com uma boa gargalhada ao desafios a que diariamente somos submetidos.

Precisamos rir. Rir mais. Rir de tudo, de nós mesmos. Deixar a seriedade para os momentos das coisas realmente sérias. Rir a bandeiras despregadas.

O mundo em que reina a alegria é bem melhor.

Ria amigo, não deixe de rir.

Ser como é

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Ao longo da vida assumem-se vários personagens produzidos em função das circunstâncias de momento. Aos sessenta olhamos para trás e nem sempre é fácil visualizar - e compreender - certos tipos que já encarnamos. Todo mundo já fez coisas na vida que não se repetiriam nem a pau. A tal pergunta “como é que fui capaz de fazer isso” tem uma só resposta: não era você. Na verdade era aquele outro cara, o jovem de 19 anos de idade, capaz de loucuras impensáveis.

Tenho um amigo que se tornou noivo de uma moça, ela muito apaixonada, ele nem tanto. Eram jovens, namoraram desde meninos, pertencentes a famílias amigas, enfim tudo corria segundo o script. Até que, faltando uma semana para o enlace, ele decidiu não se casar. Chamou a moça e rompeu o noivado para desespero das famílias que faziam tanto gosto na união. A moça, inconsolável, passou por longo período de depressão. Ele? Seguiu em frente. Certa noite, entre um e outro gole de vinho, ele me confidenciou que tantos anos decorridos ainda se envergonhava pelo que fizera. Confessou que em muitas madrugadas, se acordava, lembrava-se do fato e cobria a cabeça com o lençol pela vergonha. Eu disse a ele: não era você. Coisa que, aliás, ele não aceitou dizendo que seguindo esse raciocínio deveríamos, por exemplo, perdoar todos os criminosos.

Como ligar as várias personagens que fomos ao único homem ou mulher que os representou? Como aplacar vergonhas, remorsos e erros que insistem em retornar à memória numa punição irremediável?

A solução talvez seja partir da lembrança de que, afinal, somos seres humanos. Mais que isso, não ficar apenas nos desacertos. Aqueles sujeitos de antes, que afinal somos nós mesmos, certamente fizeram muita coisa boa. Trata-se, ainda, de encarar o direto de ser como somos com nossas virtudes e defeitos. Esse é o caminho para aceitação de nossa condição, enquanto seres pensantes aos quais são pertinentes erros e acertos.

Há quem goste de festas, multidões, gente falando alto e até não repare em grosserias. Há gente que não se incomoda quando altas horas da madrugada somos despertados pelo som do rádio de um carro que passa rugindo na rua. Há quem desculpe os apressados que furam filas, aqueles que tomam assentos destinados aos idosos e até os pretensiosos que tratam mal aos subalternos. Há quem simplesmente ignore pessoas que desrespeitam a crença alheia e os que não aceitam que alguém possa ter opinião diferente das deles. Enfim, há todo tipo de gente sob o sol que nos ilumina. Cabe a cada um de nós a delimitação do seu território e não ignorar as próprias raízes. Afinal, viver em sociedade é desafio nada fácil de ser vencido.